Innistrad: Caçada à Meia-noite

Sumário

Episódio 1: A Bruxa das Matas

Autor: K. Arsenault Rivera | Data: 02/09/2021

Não cace em Kessig , diziam eles. Os cães encontrarão você.

Talvez isso fosse verdade logo após Os Suplícios, quando não se podia chutar uma pedra sem que um wolfir a devorasse, mas não é mais verdade. Aqueles cães estão morrendo, e as florestas estão prontas para serem exploradas. Dizem que sempre se pode reconhecer um Falkenrath por sua terrível teimosia em caçar; sua natureza voraz; sua busca incessante para fechar suas garras em torno da comida que menos quer ser comida. Ser um Falkenrath é fazer sua morada nas alturas, de tal forma que todos os outros vejam você caçar.

Arte de: Darek Zabrocki
Arte de: Darek Zabrocki

Klaus não é diferente. Seus pés batem contra a vegetação rasteira; sangue pinga de seu queixo viscoso nas folhas avermelhadas de Ulvenwald; virotes sibilam além de suas orelhas. Apesar de tudo isso, ele sorri. Eles o viram, com certeza. Talvez o disfarce de monge viajante tenha sido um pouco um afronta — o grupo de caçadores às suas costas está em um frenesi sagrado. Ele nem sabia que eles carregavam tantos virotes de uma só vez — o tunc tunc tunc deles é como as batidas dos nós dos dedos de um gigante nas árvores ao seu redor.

Um tronco caído barra seu caminho; ele o salta e arrisca um olhar para seus perseguidores. Cinco deles: dois grandes e largos, armados com bestas mais parecidas com balistas do que com qualquer coisa portátil. Bonitinho. Mas em breve não importará o que eles carregam.

O pensamento arranca uma risada do fundo de seu peito. Cada gota de seu sangue alquimicamente refinado clama pelo crepúsculo, e o crepúsculo finalmente respondeu. Um coro se ergue dentro dele, um culto implorando pela chegada de seu deus invisível, e ele sabe que a libertação está próxima.

Porque a verdade é que ele nunca esteve realmente em perigo. Cães poderiam perturbá-lo, homens sagrados podem perturbá-lo, outros vampiros podem perturbá-lo — mas esses humanos não são problema algum. Falcões não temem ratos — mesmo que os ratos tenham garras afiadas.

"Eu não sabia que tantos de vocês tinham um desejo de morte", ele grita por cima do ombro. O sangue do ancião o faz sentir-se mais ousado do que nunca. Os aldeões algum dia dormirão novamente sabendo com que facilidade ele se infiltrou em seus corações? Provavelmente não, provavelmente não, mas isso não o impedirá de voltar em algumas semanas para ver. É importante acompanhar seus investimentos.

E semear o medo é sempre um investimento.

Em vez de respondê-lo, os caçadores disparam seus virotes, os dois maiores cortando o ar velozes como raios e barulhentos como trovões. Ambos miram direto em sua cabeça. São bons tiros, mas ele não é nenhum cervo, nenhum urso, nenhuma criatura indefesa da floresta. Uma velocidade sobrenatural o faz desviar de um e agarrar o outro no ar. Uma estaca ? Nossa, eles estavam ficando ousados, não estavam?

Mas Klaus, ele está de bom humor. Magnânimo até, saciado como está, o sangue ainda manchando os talismãs que ele vendeu aos aldeões incautos. Com a estaca na mão, ele salta para um galho suspenso. Com o peso seguro sob seus pés, ele se vira para encarar os caçadores abaixo dele.

"Cavalheiros, damas", diz ele. "Devo agradecer-lhes pelo exercício. Verdadeiramente."

Olhe para eles. Olhe para o medo estampado em seus rostos, as linhas profundas esculpidas pela preocupação. Lamentável.

"No entanto, se vocês, pequenos pedaços finos, olharem para o céu, perceberão que horas são", diz ele. Ele já pode sentir, seu corpo se esforçando sob o glamour, seus dentes crescendo mais longos e afiados. Em tempos como estes, uma forma humana é apenas um estorvo. As outras linhagens vampíricas não parecem perceber isso, mas os Falkenrath percebem. Força é a única coisa que importa. Essa força vem do sangue, e o sangue os separa para sempre da escória da vida humana. Não é melhor tirar vantagem disso? Não é melhor ver até onde seu sangue pode levar você?

O dele está apenas começando a ferver.

"O sol se põe, a caçada termina ", diz ele, mas sua boca já mudou, já se tornou algo inumano; seu corpo se alongando para uma forma mais monstruosa e temível do que qualquer uma que esses camponeses já tenham visto. Sai em um rosnado profundo e faminto.

O medo deles é delicioso para ele. Suas pupilas dilatadas, sua respiração ofegante enquanto o contemplam! A lua afasta o véu das nuvens por um instante; sua luz prateada torna sua fisionomia aterrorizante ainda mais aparente, ainda mais horrenda. O ar está denso de antecipação.

Klaus mostra os dentes.

Isso é apenas natural.

E, talvez, também seja natural o que acontece a seguir — os caçadores trocando olhares cúmplices, suas bocas se transformando em sorrisos tão macabros quanto o de Klaus. Um por um, eles deixam cair suas armas. O maior deles, um homem que se assemelhava mais a uma tora de madeira do que a um humano, ri em um tom tão profundo, tão faminto.

Ele mal tem tempo de se preparar para isso: o carinho do luar nos caçadores à espera, seus corpos explodindo de suas restrições carnais para suas formas reais: feras imponentes, suas línguas lambendo seus focinhos, seus pelos não fazendo nada para esconder as densas camadas de músculo que compõem seus corpos selvagens. Os dois maiores são mais parecidos com o sonho de um costureiro de corpos do que com qualquer cão que ele já tenha visto antes, seus peitos como os barris de cerveja que ele uma vez fabricou com seu pai, seus braços grossos como o tronco da árvore onde ele está empoleirado.

Sua garganta se fecha.

"Essa rima", rosna o líder, "só se aplica aos humanos."

Klaus sabe bem quando correr, quando fugir, quando subir aos céus como os falcões que tanto se esforça para emular. Ele salta do galho. Se ele puder mudar de forma rápido o suficiente —

Mas ele não pode.

Cães, afinal, podem agarrar qualquer coisa no ar se decidirem fazer isso.

Mandíbulas esmagam seu peito. Ele está no chão antes de perceber o que aconteceu, os lobos circulando, olhando para ele como se um vampiro de duzentos anos não fosse mais para eles do que um saco de carne.

"Vocês não podem fazer isso comigo", ele gagueja. "Não é assim que funciona. A noite —"

"A noite pertence àqueles que a tomam", diz o líder logo antes de sua boca se transformar em focinho.

É a última coisa que Klaus ouve.


Ela observa seu hálito formar uma nuvem à sua frente.

Se ela tentar, pode ver todo tipo de formas enquanto ele se dissipa: as asas de um anjo vigilante, lobos uivando, morcegos circulando. Alguém, em algum lugar, pode até tentar descobrir quem ela é baseando-se nessas imagens. Ela já ouviu falar desse tipo de coisa — sacerdotes que perguntam o que você vê no céu e usam isso para determinar do que você tem medo.

Arlinn Kord sabe quem ela é, mas não se importaria de ter alguém com quem conversar sobre isso. Especialmente hoje em dia. Innistrad é o seu lar e sempre foi, mas nunca pareceu assim. Há geada por toda parte onde ela olha. Gelo se apega às grandes árvores que ela escalou quando criança, uma leve camada de pó branco cobre os mantos e casacos dos aldeões em luto, o estalo familiar das folhas sob seus pés mudou para algo diferente. Relógios de sol dizem que são quase seis da tarde, mas o relógio no centro da aldeia diz que são quatro e meia. O pôr do sol chega cada vez mais cedo.

E com ele, a lua.

Sempre a lua.

Arlinn, Esperança da Alcateia | Arte de: Anna Steinbauer
Arlinn, Esperança da Alcateia | Arte de: Anna Steinbauer

Ela pode sentir isso mesmo agora, enquanto se senta na antiga casa do ancião, mesmo agora enquanto diz à esposa dele que fará o seu melhor para investigar esses assassinatos.

"É toda noite, não é?", a mulher diz a ela. Sua voz é pouco mais que um rangido. "À noite, eu os ouço chamando uns aos outros. Meu Finneas sempre diz que se respeitarmos nossos símbolos, estaremos seguros deles, mas ontem à noite~"

Na outra sala, o sangue de seu Finneas pinta as paredes de vermelho. Arlinn engole em seco. Seus olhos caem sobre o símbolo avacyniano logo acima da lareira — metade pedra sólida, metade arame e palha. Os Suplícios tiraram muito de Innistrad, mas a fé é uma coisa difícil de quebrar. Mesmo quando o objeto dessa fé cai tão pesada e profundamente quanto Avacyn caiu.

"Simplesmente não faz sentido", diz a mulher — Agatha. "Ela deveria nos proteger. Tudo parecia~ por um tempo, foi~"

Arlinn cobre a mão de Agatha com a sua. Às vezes, diante de dificuldades indescritíveis, uma simples conexão humana pode encontrar sua voz. Agatha funga. Ela mesma olha para o símbolo, seu olhar caindo para o chão no momento em que o contempla.

"Não estamos sozinhos", diz Arlinn. "Não importa quão escuro pareça, a alvorada virá — de um jeito ou de outro."

"Fácil para você dizer."

Mas não é nada fácil de dizer. Especialmente não para Arlinn, que se lembra tão vividamente da lança erguida do anjo. Por semanas após Os Suplícios, seus lobos não quiseram saber da sociedade humana, e ela mal podia culpá-los. Caminhar entre os homens era respirar suas tristezas e carregar seu peso. A floresta trazia vida, as estradas, igrejas e aldeias apenas morte sem fim.

No entanto, a morte está em toda parte em Innistrad, e afastar-se dela é afastar-se da beleza do esforço humano. Viver na floresta é mais fácil, sim; mais simples, sim; mas o triunfo de uma caçada é uma pálida comparação com o triunfo de uma aldeia contra a noite que avança. Construir um lugar onde as crianças não temam o escuro leva muitos anos, mas suas recompensas duram gerações.

Por isso, ela visita as aldeias e cidades de Kessig, fazendo o que pode para fortalecê-las contra a escuridão.

Agatha joga outro tronco no fogo. Enquanto se senta novamente na velha cadeira gasta, ela aperta o manto de seu marido em volta de si. Seu hálito também está formando névoa. Arlinn considera perguntar a ela o que vê nele.

"Senhorita Kord", diz ela.

"Sim?"

"Está ficando mais escuro, não está?"

Arlinn engole em seco. Um olhar pela janela é tudo o que é necessário para confirmar os temores de Agatha. Ambas sabem qual é a resposta. O fato de ela sequer perguntar mostra o quão fragilizada a morte de seu marido na noite anterior a deixou; os habitantes de Kessig frequentemente confiam em suas superstições para mantê-los seguros de coisas que prefeririam não nomear.

Melhor não mentir. "Sim, eu acho que sim."

Agatha encolhe os joelhos. "Gustav e Klein dizem que suas colheitas não estão crescendo como deveriam. O frio tem sido ruim para elas, mas elas também não estão recebendo luz nenhuma."

"O Festival da Colheita não está longe", diz Arlinn. "Vocês terão que aumentar os estoques, mas deve haver o suficiente para alimentar todos nesta temporada. Os caçadores podem compensar o restante."

"Nesta temporada", Agatha repete. "E quanto à próxima? E o que acontece quando todos os nossos caçadores forem~"

Ela aponta para a outra sala, para o sangue que Arlinn pode sentir o gosto no fundo da garganta. O cheiro dele clama para uma parte primitiva dela — uma parte que quer dizer que os caçadores encontrarão mais carne do que nunca quando houver tantos lobos entre eles.

"Dizem que foi um vampiro. Você acredita nisso? Um vampiro aqui fora?", diz Agatha. "A guarda, eles o rastrearam. Perguntaram-me se eu queria ver o seu coração. Disseram que foi fácil matá-lo."

"Acho que os vi no meu caminho para cá", diz Arlinn. "Trabalhando em~ parecia um pouco com um espantalho, mas muito maior. E com presas. Algum tipo de efígie."

Há um sorriso fraco no rosto de Agatha. Parece um progresso. "Isso é coisa da bruxa. Finneas acha que é uma boa ideia, que ela pode nos ajudar. Achava que era."

Arlinn serve a ela outra xícara de chá. No ar gelado, o vapor sobe das xícaras, subindo cada vez mais. O aroma brilhante de ervas torna o covil cinzento mais vívido.

"Aqui", diz ela. "Todas essas lágrimas vão deixá-la com sede, quer você saiba ou não."

Ela sorri novamente e inclina a xícara para os lábios. "Está bom. Não sei o que você colocou nele, mas as especiarias parecem quentes."

"É uma velha receita de família", diz Arlinn. Na verdade, é misturado em grande parte com base no que parecia certo para o seu olfato da última vez que esteve na floresta. "Se eu compartilhasse, eles me assombrariam."

Há algo como uma risada de Agatha — uma respiração curta, outra mais longa. "Não podemos deixar isso acontecer."

"Não, não podemos", diz Arlinn. Ela também serve uma xícara para si mesma. "Então — aqui está uma ideia. Enquanto estivermos bebendo estas duas xícaras, falaremos sobre nossas famílias. Eu contarei tudo sobre meus irmãos, e você pode me contar sobre Finneas."

Seu aceno está meio escondido naquele suéter de lã oversized. "Tudo bem. E-eu posso fazer isso."

"Fico feliz", diz Arlinn. "E depois, você pode me contar mais sobre aquela bruxa."


Arlinn conhece estas matas, e elas a conhecem. Em cada lugar que seu olhar pousa, uma memória espera para saudá-la. Aqui — os arranhões em um carvalho de uma antiga caçada. Por dois dias, ela e seus lobos rastrearam um cervo branco pela floresta. Você pensaria que seria mais fácil de encontrar do que foi, mas havia algo sobre aquele cervo, algo que a encantava sempre que ela sentia o seu rastro. Quando ela e os lobos o encurralaram no sopé de um penhasco, eles o deixaram ir. Às vezes, apenas pôr os olhos em algo já é presente suficiente.

Não é isso que o lobo diz a ela, no entanto. Ela se lembra de vê-lo diante de si: seus olhos cor de sangue e água, seu pelo brilhante como a neve com que ela tanto sonhava. Ela se lembra da fome crescendo no fundo de seu estômago. Quando você está em quatro patas, é tão fácil provar algo, tão fácil morder, rasgar e arranhar. Os lobos da floresta ao seu lado manifestavam suas intenções em rosnados baixos e dentes arreganhados. Eles também estavam com fome.

Mas havia algo da lua sobre aquele cervo, algo que lhe dizia que ele não era para seus estômagos. Beleza inocente era uma coisa rara em Innistrad, tão rara quanto a inocência, e ela não seria a pessoa a abatê-la. Arlinn voltou à sua forma humana. Os lobos sentaram-se, mal-humorados como estavam, e não disseram mais nada enquanto ela sussurrava uma bênção.

Lá se foi o cervo branco.

De volta para a caçada, os lobos.

No fim, encontrar outra refeição não fora tão difícil. Eles tinham ido dormir, os cinco, aninhados uns aos outros com seus estômagos cheios de carne menos sagrada.

E quando acordaram pela manhã, havia um crânio diante deles, repousando sobre uma espada cravada no chão. Pelos brancos agarravam-se ao osso. Ela conhecia a espada, conhecia o cheiro que se apegava à carne do cervo, conhecia a mensagem.

Tovolar nunca gostou de suas tendências mais suaves.

Onde quer que ele esteja e o que quer que esteja fazendo não são mais problema dela. Eles escolheram seus caminhos há muito tempo. Ele encontrou a alcateia dele, e ela encontrou a dela.

Os lobos estão ansiosos para encontrá-la e ansiosos para brincar. Encontrem bruxas , ela disse a eles, e eles ficam felizes em ajudar de qualquer maneira que puderem. A cada poucos minutos, enquanto ela corre pela floresta, ouve um chamado e corre apenas para encontrar um galho de formato estranho esperando por ela, e o lobo olhando para ela com expectativa. Ela lhes agradece, é claro; até esses galhos estranhos têm suas próprias pistas esperando.

Arte de: Rovina Cai
Arte de: Rovina Cai

Quanto mais fundo na floresta eles vão, mais o aroma do lugar muda. Um odor adstringente queima o interior de suas narinas; um perfume quente de canela segue-se logo depois. Quando ela volta à sua forma humana, pode ver o galho com mais clareza: há uma pista aqui. Uma série de crescentes e círculos o revestem, moldados por uma mão cuidadosa. Na ponta — pendurada em um ramo — está uma peça polida de opala. Ela aperta os olhos. Seriam aquelas formas esculpidas nele decorativas ou seriam~ Agatha disse que Finneas seguiu sinais secretos para encontrar o enclave.

Arlinn dá um carinho entre as orelhas de seu companheiro. "Bom trabalho", diz ela. "Vamos nos espalhar — por ali."

Ele salta, agacha-se e parte como um raio. Leva apenas um momento para ela se transformar e segui-lo. Ele é o mais rápido de sua alcateia. Lobos não têm nomes no sentido humano, mas parece errado passar tanto tempo com alguém sem dar-lhe um. A linha branca ao longo do flanco deste, junto com sua velocidade impressionante, levou-a a chamá-lo de Streak. Sua companheira, Redtooth, os segue em um ritmo razoável, sempre atenta a quaisquer perigos potenciais. Patience — assim nomeada quando esperava do lado de fora das portas da catedral por ela todos os dias — disputava com Redtooth o terceiro lugar. Às vezes ela até passava à frente. Boulder, o maior e mais amigável deles, vem por último, com a língua balançando para todos os lados.

Agora que ela sabe o que procurar, seguir os símbolos é fácil o suficiente. Ela pode se entregar à caçada — as folhas sob os pés, o ar frio da floresta, seus sentidos acesos com a vida. Correr em quatro patas parece muito mais natural do que correr em duas. Às vezes, ela pensa que talvez nem estivesse correndo em sua forma humana.

O uivo excitado de Boulder é apenas o primeiro. Todos eles sentem, o frisson deste selvagem indomado, os perigos de Innistrad distanciados pela alegria do momento. Arlinn junta-se a eles. Por este momento, pelo menos, ela quer se sentir livre.

Mas mal o uivo saiu dela e ela o vê: um cervo, puro branco, sob um galho adornado com prata esculpida. Seus olhos rosa-pálido encontram os dela.

Arlinn derrapa até parar. Os pelos se eriçam ao longo de suas costas; ela rosna para os outros pararem. Algo está errado. Não pode haver dois deles, e encontrar um aqui de todos os lugares~ alguém deve estar tentando enganá-los.

Ela não vai ser enganada. Uma respiração profunda do ar lhe dá algum entendimento — assim como o cervo simplesmente caminhando ao redor do grupo reunido. Primeiro — ele não cheira em nada como um cervo. Suor, sim; corante, sim; até o aroma de magia, mas nada como um cervo. Segundo, ele também não está agindo como um. Tudo na floresta foge de uma alcateia de lobos. As únicas exceções são outros lobisomens. Mas isso também não é assim.

O cervo caminha ao redor deles. Redtooth baixa o focinho e rosna quando ele se aproxima. O cervo se afasta, encontrando os olhos de Arlinn mais uma vez. A maneira como ele inclina a cabeça é a última pista que ela precisa.

Arlinn late uma ordem para os outros ficarem parados. Ela se esgueira atrás de uma árvore e volta à sua forma humana. Patience pula com sua mochila de couro — ela pega suas roupas.

"Katilda, não é?", ela chama. "Espero que me dê um momento para me recompor."

As matas ao seu redor parecem rir — ela sente o arrepio disso contra suas costas enquanto se troca. É apenas quando olha ao redor que percebe que estão sob um dos maciços arcos de pedra do Celestus. Algo sobre a estrutura sempre a lembrava do funcionamento interno de um relógio. Às vezes, dizia-se que os braços se moviam em torno da plataforma central — que por si só era tão grande quanto qualquer praça de aldeia. Arlinn nunca vira isso acontecer, mas tivera todo tipo de ideias sobre quais rituais antigos deveriam impulsioná-lo.

Eles devem ter ido fundo na floresta; a mãe de Arlinn sempre a advertia a voltar sempre que visse os anéis quebrados surgindo da terra. Quando criança, ela se perguntava como seria escalar suas superfícies largas e planas — se as pessoas em Thraben acordavam todos os dias com esse tipo de vista. Talvez se ela chegasse lá em cima, pudesse fingir ser algum nobre mimado. Agora, como adulta, ela observa os entalhes ao longo de sua superfície picada com preocupação, as lentes com uma nítida inquietação. Sua mãe tivera razão em avisá-la sobre o Celestus. Qualquer propósito que ele um dia tenha servido é melhor deixá-lo no passado.

Arte de: Jonas De Ro
Arte de: Jonas De Ro

"Se você perdoar o meu pequeno truque, eu perdoo você se vestindo", vem a resposta. Sua voz é ao mesmo tempo encantadora e distante. Ela soa, pensa Arlinn, como o tipo de matrona de aldeia que descobriu há muito tempo que você era quem roubava as tortas dela. "Os lobos nesta floresta não costumam ser tão bem comportados. A maioria teria atacado."

Arlinn contorna o tronco. Onde antes não havia nada além de árvores e arbustos, ela agora vê um enclave: galhos e peles moldados em tendas, decorados com os mesmos crescentes e esferas que vira anteriormente. Velas flutuantes dão ao lugar uma luz misteriosa, assim como os estranhos espantalhos espalhados. Arlinn franze a testa. Velas-guia — era como sua mãe os chamava. Há uma velha história sobre um salvar um menino perdido na floresta e caminhar com ele até o festival da colheita. Outra história falava de caçadores espreitando pelo Ulvenwald em busca de peles. Um ano, nenhum voltou. No seguinte, esses guias surgiram, nascidos das ansiedades de suas famílias. Ela nunca esperou que veria um pessoalmente, muito menos tantos. Os sorrisos esculpidos em seus rostos de cera pingando~ apenas em Innistrad essas coisas poderiam ser reconfortantes.

Mas há pessoas, também, no enclave — talvez duas dúzias delas. Algumas mulheres, alguns homens, alguns parecendo evitar tais rótulos. Vestidos com toucados elaborados, eles murmuram feitiços diante das velas-guia. Um homem de pele escura entalha uma abóbora sorridente, as pedras da lua balançando em seu toucado piscando na luz. Duas mulheres cercam um caldeirão borbulhando e fervendo. Talvez seja o frio no ar, mas Arlinn pode ver a fumaça subindo a alguns metros de distância. E também pode sentir o cheiro da deliciosa mistura.

E há uma mulher sentada diante deles em um toco de musgo com um cajado no colo. Seu cabelo branco está entrelaçado nos muitos ramos de seu toucado; o crescente pálido e a esfera pintados em sua pele morena servem apenas para fazer seus traços se misturarem. É difícil dizer, exatamente, se os lobos ou a própria Arlinn chamam mais sua atenção — mas ela acha tudo isso muito divertido.

"Nós não somos como a maioria dos lobos", diz Arlinn. Olhando para o enclave, ela estreita os olhos. "E presumo que você não seja como a maioria das bruxas."

Não podem ser — Arlinn não sente mal algum no ar aqui. Por mais assustadoras que sejam as sombras que seus toucados lhes dão, por mais estranha que a pintura torne seus traços, não há dúvida de que são humanos. Isso por si só é algum conforto — mesmo que ela não tenha ideia do que eles estão tramando. A magia aqui não cheira como a magia típica. Como algo que foi deixado para fermentar, tem o aroma da idade.

"Isso depende de a quem você perguntar", diz Katilda. "Antes da chegada da Arcanjo, éramos a maioria das bruxas. Com a chegada dela, fomos para as sombras, e agora que ela partiu, estamos mais uma vez na luz."

Arlinn inclina a cabeça. "Você não parece tão velha."

"Não precisa ter sido nesta forma, com este nome", diz Katilda. Ela aponta com seu cajado para a árvore perto da qual Arlinn está. "Uma bolota não é, em si mesma, um carvalho. Dado tempo, água, sol — ela pode se tornar um. Assim é conosco."

"Então você está fazendo algo crescer novamente", diz Arlinn. "Quem é você?"

Arte de: Bryan Sola
Arte de: Bryan Sola

"Somos o que uma vez foi e o que será. Somos o que a escuridão não pode matar. Somos o Coven de Dawnhart." A mulher fala com a voz de três, seus olhos brilhando a cada sílaba. A ponta de seu cajado brilha. Ela o toca na terra. O mato ao redor deles ganha vida, crescendo rapidamente, tomando uma forma estranha. Em questão de segundos, Arlinn a reconhece: a cabeça orgulhosa do cervo branco. "Mas quem é você, loba?"

"Meu nome é Arlinn Kord", ela responde. Ela não olha o cervo-galho nos olhos, nem mesmo quando os olhos florescem. Ela conhece bem o cheiro de erva-moura. "Não haverá Coven de Dawnhart se não houver alvorada — e, neste ritmo, não haverá uma por muito tempo. Estou aqui por respostas."

"Você não me deu uma." Outro toque do cajado — vinhas fluem para preencher as lacunas da cabeça do cervo. Ele dá dois passos, então se curva diante de Katilda: um suplicante diante de uma soberana estranha. "Mas deixaremos isso de lado por enquanto. Minhas respostas para você são tão claras quanto a floresta ao seu redor e o bater do seu próprio coração humano."

Streak está batendo a cauda contra a terra. Arlinn não está se sentindo muito mais paciente. Esta bruxa, esta Katilda — o que há com pessoas como ela e essa mania de enrolar? "Poderia torná-las um pouco mais claras?", diz ela. "Minha visão não é mais o que costumava ser."

A bruxa toca o cajado na cabeça do cervo. Dela, surge uma coroa de galhos e flores. "Existe um ritual exatamente para isso."

Arlinn não observa o cervo saltar para longe — ela mantém os olhos em Katilda. "Se há algo que aprendi, é que rituais nunca são fáceis."

"Aí reside o seu poder — um ritual centra a comunidade e suas tradições. Com o tempo, centenas adicionam sua fé ao seu poder, ultrapassando em muito qualquer coisa que um único mago possa sonhar em fazer", diz Katilda. "A Arcanjo nos distraiu dessas tradições. Devemos retornar a elas — ao Festival da Colheita."

Avacyn não distraiu ninguém de nada — mas agora não é o momento para essa briga. Por mais que isso queime no peito de Arlinn. "Festival da Colheita? Como nas velhas histórias?"

"O mesmo", responde Katilda.

"Chá com especiarias e tortas?", diz Arlinn. O fogo queima mais forte. Como uma sacerdotisa avacyniana, Arlinn sabia bem quão forte a proteção da Arcanjo fora. "Como isso deveria nos salvar?"

"O Festival da Colheita é mais do que isso", diz ela. "O sol e a lua têm sua vez no céu. O Festival da Colheita é a vez da humanidade — nossa celebração de viver mais um ano em desafio. Por tempo demais vivemos com medo, por tempo demais confiamos em forças externas para nos salvar. Devemos salvar uns aos outros. Ao nos reunirmos —"

"Espere", diz Arlinn, levantando as mãos. "Você planeja reunir quantas pessoas?"

"Tantas quantas vierem", diz Katilda, com toda a paciência de um sacerdote de aldeia. "Juntos, podemos recorrer à nossa força coletiva sob o Celestus e, através dele, restaurar o equilíbrio."

Arlinn balança a cabeça, sua exasperação transparecendo. "É o mesmo que enviar uma carta a cada espreitador noturno em Innistrad. Colocar tantos humanos em um só lugar é pedir por um ataque. Já vimos mortes suficientes; não precisamos arriscar mais vidas em alguma velha história que você leu em um livro em algum lugar —"

"Eu não li em um livro", Katilda responde. Agora ela também ficou ríspida, levantando-se de seu toco. Para a surpresa de Arlinn, ela é uma mulher imponente — robusta como os carvalhos que elogiara. Um leve aroma de húmus atinge o nariz de Arlinn — mas não faz sentido. Katilda não é nenhum necrófago. "Haverá salvaguardas, Arlinn Kord. Guardiões, que podem agora trocar o que aprenderam para afastar a escuridão. Você quer trazer de volta a alvorada? Muito bem. Mas você não pode fazê-lo sem trazer de volta a esperança que perdemos."

Redtooth rosna. Streak também. O desconforto deles ecoa no peito de Arlinn: não há como isso acabar bem. No entanto, enquanto encara a velha bruxa, não há sinal de hesitação.

"Você nem me disse como esse ritual funciona", diz Arlinn, "supondo que não sejamos todos mortos primeiro."

"Nós?", responde a bruxa — mas ela não se detém na provocação. Em vez disso, aponta com seu cajado para o arco do Celestus. "A resposta, como eu lhe disse, está bem aqui. Usamos o Celestus. Em seu centro há uma fechadura de ouro brilhante — precisamos da Chave de Prata Lunar para ativá-la. Você nunca se perguntou para que ela serve? Nossos ancestrais a usaram exatamente para isso — para equilibrar o dia e a noite."

"Nas Matas de Kessig, cercados pelo inimigo."

"Sim. Para atiçar as chamas —"

"— da Esperança", Arlinn interrompe. "E se não o fizermos? Se encontrarmos algum outro caminho —"

"Não há outro caminho", diz Katilda, com a mesma firmeza. "Se o Celestus não for ativado — e se não for ativado corretamente — então a noite ultrapassará o dia. Geists, necrófagos, vampiros, lobisomens — vocês se banquetearão conosco até que —"

"Eu não sou —"

Mas um som cortando as matas interrompe sua voz na garganta. Um uivo, áspero e profundo. Um som que acende o lobo dentro dela. Sua alcateia responde, e ela pode sentir a alegria deles, sentir a ânsia pela caçada.

Pois ela conhece bem aquele uivo. Ela o ouviu pela primeira vez anos atrás, encolhida em seu quarto, olhando para o símbolo destinado a mantê-la segura. E ela havia corrido da casa de sua família, pés e mãos contra a terra úmida da meia-noite, correndo em direção a ele com tudo o que tinha — porque ele falava de uma Innistrad sem medo.

A primeira vez que ela ouviu aquele uivo foi há vinte anos — a primeira noite em que provou sangue, a primeira noite em que provou liberdade.

Ele ainda a agita, mesmo agora.

Tovolar.

Emaranhados

Autor: Seanan McGuire | Data: 03/09/2021

Havia algo de único no ar de Innistrad. Talvez fossem os horrores que as árvores haviam testemunhado ali, o sangue que regava o solo onde elas alimentavam suas raízes sedentas, os ossos que juncavam os leitos dos rios, mas o ar deste Plano era como nenhum outro. Wrenn e Seis deram um passo — um dos últimos juntos — e pousaram seu pé maciço no solo de Innistrad, nas profundezas da floresta de Kessig. Isso foi perto do lugar onde se encontraram pela primeira vez.

Aqui? Wrenn inquiriu, perguntando sem abrir a boca. Como a pergunta doía e queimava nela, como doía . Essa parte era sempre dolorosa.
Wrenn e Sete | Arte de: Heonhwa Choe
Wrenn e Sete | Arte de: Heonhwa Choe

De alguma forma, doía mais desta vez do que quando ela se separara de Quatro, que fora tão gravemente ferido em batalha que mal conseguiram completar seus últimos passos juntos antes que a valente árvore anciã estremecesse e a expelisse de seu coração, enviando-a para estatelar-se, com os membros nus e expostos, na terra de Innistrad. Era um Plano novo para ela então, mas do qual já ouvira rumores antes.

Aqueles rumores, vindos da boca de outros planeswalkers, sustentavam que as melhores árvores cresciam na floresta de Kessig e, após seu tempo com Seis, ela estava inclinada a concordar.

Não. Perto , respondeu a árvore. Wrenn acenou com sua vasta cabeça e continuou mata adentro, longe do lugar onde haviam chegado, procurando por uma clareira grande o suficiente para suportar a glória de Seis.

Talvez essa partida doesse mais porque Seis podia continuar, podia ficar com ela, mas estava escolhendo não fazê-lo, e parte do motivo pelo qual a parceria deles sempre funcionara tão bem era que ela escutava quando a grande árvore falava. Eles eram parceiros, não uma proprietária e uma ferramenta. Ela vira magos que tratavam seus parceiros como bestas de carga e os forçavam a atuar além do ponto de sua própria exaustão. A semente de Wrenn fora plantada por um progenitor melhor, e ela fora criada para respeitar aqueles que serviam com ela, mesmo que sua guerra não fosse a deles.

Eles deram outros cinco passos quando a árvore falou novamente, dizendo: Aqui. Pare.

Wrenn parou. Eles cravaram suas raízes profundamente no solo e, pouco a pouco, ela começou a se retirar do lar que fora seu por tanto tempo. Enquanto se puxava, sua consciência da grande árvore diminuía, até que ela se sentiu como um dente que fora afrouos em seu alvéolo, ainda parte do corpo, mas aguardando apenas um último golpe agudo para derrubá-lo inteiramente.

Então, com um puxão final que ela sentiu até o fundo do estômago, ela se desenraizou e não estava mais unida a Seis. Seis, que já não era o arvoroso majestoso e imponente que se tornara durante o tempo que passaram juntos — árvores não tinham gênero propriamente dito, mas as dríades sim, e ao descobrir o conceito na mente dela, ele considerara suas escolhas e decidira que preferia o masculino — era agora um carvalho de Innistrad maduro, saudável e belamente retorcido, seus galhos estendendo-se para o céu nublado.

Wrenn suspirou e encostou a testa em sua casca, respirando seu cheiro familiar pela última vez. "Algum dia", ela prometeu. "Algum dia, daqui a muito tempo, quando Sete se cansar e eu precisar do meu Oito, voltarei aqui. Caminharei por estas matas novamente e encontrarei você, velho amigo, e suas bolotas terão tido tempo para crescer e se tornar árvores jovens e fortes, e eu lhes oferecerei a escolha que uma vez ofereci a você, e se uma delas aceitar, eu me considerarei afortunada além da conta."

Eles não podiam mais se comunicar em silêncio, suas mentes separadas pela primeira vez. A consciência de Seis desapareceria conforme ele se estabelecesse no solo e se reunisse às árvores que eram suas companheiras naturais e parentes. Seu parceiro a estava deixando e, embora ela ainda pudesse ter se puxado para dentro dele, era isso que ele queria. Ela o deixaria ir, por causa dele mesmo. A vida de um planeswalker não era algo simples, mesmo para alguém que ouvia o chamado sem ajuda.

Ainda assim, ela imaginou sentir gratidão e alegria através da casca dele, e sorriu ao se afastar. Ela sentiria falta dele. Mas esse era o detalhe sobre o passado; ele ficava para trás. O futuro estava à frente.

Era hora de encontrar o dela.

Depois de passar a maior parte do dia vagando pela floresta de Kessig, seguindo o sussurro da canção arbórea que lhe dizia haver um parceiro viável crescendo ali, ela começava a duvidar que a promessa do futuro algum dia se cumpriria. Seus pés doíam e suas pernas estavam cansadas. Eram coisas que ela sempre tivera, mas raramente tivera motivo para usar. Agora estavam tão doloridas que pareciam ser o seu todo, e ainda assim a canção arbórea a atraía para as profundezas da floresta, instando-a a seguir, prometendo um parceiro compatível adiante.

Aqueles poucos sortudos cujos Planos abrigavam dríades nativas tendiam a assumir que elas podiam se ligar a qualquer árvore, que qualquer receptáculo lenhoso seria suficiente para sustentá-las. Não era assim. Como em qualquer forma de magia, a delas exigia uma certa harmonia para cantar adequadamente. A canção da muda de Wrenn preenchia seu corpo. Qualquer árvore perto dela podia ouvi-la, e as que conheciam as harmonias cantariam de volta.

Seis cantara para ela, uma vez. Agora ele era uma presença silenciosa atrás dela enquanto ela se movia para as profundezas da mata, e o novo cantor estava ou muito longe ou muito fraco, pois sua canção era pequena e difícil de ouvir.

Talvez ela devesse ter sido menos respeitosa com o desejo de Seis de voltar para casa e parado na primeira árvore harmoniosa que visse assim que ele anunciou seu desejo de se separar. Mas isso teria sido uma crueldade, e sua força ainda não chegara ao fim. Ela podia continuar.

Determinada a fazer o que sua espécie sempre fizera, sobreviver, Wrenn seguiu adiante, cada vez mais fundo na floresta de Kessig, seguindo a canção da árvore que a esperava em algum lugar nas clareiras.


Teferi nunca visitara Innistrad antes. Fora sempre uma história contada por outros viajantes, um rumor sussurrado de passagem, até que a curiosidade e o tempo se combinaram para torná-lo um destino que valia a pena. Os habitantes locais eram pessoas assustadas, com bons motivos, cautelosos com estranhos, mas generosos na hospitalidade uma vez convencidos de que seus visitantes não queriam causar dano. Alguns deles estavam desesperados por qualquer sinal de esperança, qualquer palavra gentil ou possibilidade de que a vida pudesse ser mais fácil em outro lugar. Incapaz de libertá-los de sua terra natal e relutante em sequer considerar a logística de tal empreitada selvagem, Teferi começara a achar a companhia constante deles desgastante.

Arte de: Heonhwa Choe
Arte de: Heonhwa Choe

O alívio veio de uma forma inesperada, quando cátaros da igreja local entraram correndo na estalagem com relatos de uma bruxa branca vista na mata. Aqui em Innistrad, não era irracional supor que qualquer fenômeno desconhecido pudesse representar um perigo, e a hospitalidade que lhe fora oferecida fora o suficiente para que ele se sentisse obrigado a oferecer ajuda. Assim sendo, ele se viu na orla da mata, acompanhado e, no entanto, separado de um destacamento de homens, com suas espadas e arcos prontos, procurando por sua suposta bruxa branca e pela terrível abominação que ela teria convocado. Ele não tinha ideia de qual seria a ameaça, apenas que fora considerada suficiente para levar os cátaros à mata e proporcionar-lhe uma saída de seus anfitriões.

Os cátaros se espalharam, procurando por sinais da bruxa que, segundo lhes disseram, espreitava entre aquelas árvores. Teferi observou-os partir antes de entrar nas árvores por conta própria. Nenhuma bruxinha local representaria muita ameaça para ele, e ele queria entender aquela floresta, se pudesse. As zonas de mata eram diferentes em cada Plano, mas tinham certas características comuns — carvalhos e olmos, por exemplo, podiam ser encontrados em quase qualquer lugar que tivesse árvores, e o aroma de suas folhas nunca variava tanto quanto ele esperaria. Talvez, se ele estivesse mais sintonizado com magias naturais, teria entendido os motivos. Talvez fosse uma boa coisa para discutir com o próximo mago alinhado com a natureza que encontrasse, presumindo que estivesse de humor para conversar. Era sempre esclarecedor aprender mais sobre o funcionamento dos Planos, que podiam ser tão diferentes e tão harmoniosos ao mesmo tempo.

"Por aqui", gritou um dos cátaros, a voz seguida pelo som de passos estalando sobre as folhas enquanto partiam, presumivelmente perseguindo sua presa. Como nenhum deles estava à vista para notar sua demora, Teferi não sentiu necessidade premente de segui-los.

Algo cintilou no limite de sua percepção, além das árvores, além dos cátaros que se afastavam. Ele girou, espiando nas sombras. Não viu nada ali. Após uma pausa momentânea para franzir a testa para o caminho vazio, retomou sua caminhada, mais lentamente agora, levando seu tempo para estudar os arredores.

Talvez por isso tenha ouvido a mulher.

Ela estava falando suavemente, a voz baixa e gentilmente modulada, com vogais arredondadas que não correspondiam a nenhum sotaque que ele conhecesse. Ele ajustou seu caminho, dirigindo-se à voz, ainda sem chamar os cátaros para se juntarem a ele, e parou quando viu a figura parada à sombra de um dos grandes carvalhos.

Ela era pálida, tão pálida que parecia ter sido esboçada inteiramente de casca de álamo, um espectro branco contra os troncos mais escuros dos carvalhos ao seu redor. Seu cabelo era longo, solto e ainda mais branco, cor de osso alvejado e rígido. Sua testa estava encostada em uma das árvores, o rosto obscurecido pelo ângulo, e suas palavras pareciam ser dirigidas à própria árvore.

Teferi caminhou em direção a ela, as mãos estendidas e abertas, os dedos espalmados para mostrar que não estava moldando símbolos arcanos nem preparando feitiços. Dada a sua coloração, era provável que ela fosse a "bruxa branca" dos cátaros, mas ela parecia mais um presente da mata, pois ninguém podia entender o mundo natural como uma dríade, embora houvesse espaço para mal-entendidos entre aqueles de carne e osso e aqueles de seiva. Seu pé, colocado sem olhar, quebrou o menor dos gravetos caídos, e ela girou, com os olhos arregalados, pressionando as costas contra a casca da árvore com a qual estivera falando. Como ela não se fundiu a ela, ele se achou seguro para continuar a aproximação e chegou mais perto, parando a uma distância respeitosa e oferecendo-lhe uma reverência leve.

"Perdoe-me a intensão, mas você parecia indisposta", disse ele. "Posso oferecer ajuda?"

"Fique para trás, mago", disse ela, a voz afiada como um galho quebrado, mas ainda suave, como se metade do coração tivesse sido arrancada. "Eu posso me defender."

"Eu preferiria não lutar", disse ele. "É uma maneira entediante de conhecer pessoas. Os habitantes locais já têm fome de batalha o suficiente por nós dois. Posso presumir que você veio em busca de um momento de paz?"

"Vim em busca de uma árvore", respondeu ela, de olhos estreitos e cautelosa.

"Não procure mais." Teferi estendeu as mãos, indicando as árvores ao redor deles.

A dríade riu, com ironia. "Se fosse tão simples assim. Mas não. Nenhuma dessas árvores é forte o suficiente para me conter."

Teferi franziu a testa. "Perdoe-me, mas eu tinha a impressão de que uma dríade nascia com sua árvore, crescia em conjunto com ela e nunca a deixava."

"Eles nascem", disse ela. "Quero dizer, nós nascemos. Quero dizer, houve um grande incêndio uma vez. Ele devorou as árvores do meu povo, até que encontrei uma maneira de puxá-lo para dentro de mim. Ele queima lá ainda. Queima-me agora. Ele me concede a flexibilidade de passar de árvore em árvore, se a árvore puder conter o fogo. Quando ele ainda era novo e brilhante, o inferno me levou a uma árvore cuja canção conhecia a minha. Nós nos unimos e éramos Uma." Sua expressão suavizou-se. "Com Uma, aprendi que aqueles de nós que não têm raízes para nos ancorar podem caminhar como quiserem, não limitados a um único Plano, e quando ela terminou de servir seu tempo como minha parceira, permiti que criasse raízes em outro Plano e encontrei outra árvore para cantar junto."

"Você não tem uma árvore agora."

"Não."

"Você está presa neste Plano sem uma?"

"Preciso de um parceiro para viajar", admitiu ela. "Mas Seis cansou-se, e esta floresta foi o seu começo, então ele perguntou se eu poderia levá-lo para casa antes de ele aquietar-se, e ele foi bom para mim. Ele me carregou para longe. Eu o carreguei para casa e ouvi a canção que me permitiria continuar minhas próprias jornadas. E achei que a tinha encontrado, então viajei em sua direção até não poder ir mais longe, e agora temo que o fogo me leve."

Teferi franziu a testa, tentando organizar as frases intrigantes, enquanto passos entre as árvores anunciavam a presença dos cátaros. "Acho que o mago foi por aqui", gritou um.

A dríade olhou para Teferi com um ódio repentino. "Então você era uma isca para me chamar e me capturar, então?", exigiu ela, fechando as mãos em punhos, o ar acima delas tornando-se incandescente com fogo tremeluzente. "Não sou tão fácil de matar quando ainda tenho algo para queimar."

Teferi ergueu as próprias mãos. "Paz, por favor. Eles não estão comigo." Então ele fez uma careta. "Bem, eles estão, eu suponho, mas eu não estou com eles . If formos mais fundo na mata, poderemos atrasá-los. Você consegue caminhar?"

Wrenn assentiu. "Não posso deixar este Plano sozinha, mas posso caminhar."

Teferi aproximou-se e ofereceu-lhe o braço. "Então caminhamos."

O calor acima de suas mãos oscilou e apagou-se, e seus dedos, ao deslizarem para a dobra do cotovelo dele, estavam tão frios quanto madeira intocada e eram menos flexíveis do que ele esperaria. Mas dobraram-se como dedos devem dobrar-se, envolvendo sua carne, e quando começaram a caminhar, ela era ágil como qualquer outra pessoa.

Não tinham ido longe quando ele fez uma careta e suspirou, fechando os olhos. "Você está bem?", perguntou Wrenn.

"Estamos sendo seguidos", disse ele. Ela ficou tensa. "Não, não pelos cátaros, e não se dê ao trabalho de olhar para trás. Estava me seguindo antes, e não vi nada quando olhei."

"Nem tudo em Innistrad é visível", disse Wrenn. "O solo não incentiva os mortos a descansarem."

"Os mortos pretendem nos causar dano?"

"Qualquer coisa que seguiria viajantes na mata sem se aproximar não tem boas intenções", disse Wrenn. "Eu presumiria que pretende nos causar dano, sim."

"Esse era o meu temor." Teferi virou-se, lentamente para evitar que Wrenn tropeçasse, e olhou com irritação para a penumbra atrás deles. "Mostre-se."

Nada se materializou. Mas as sombras, que já eram profundas, adensaram-se e tornaram-se pesadas com a sensação de uma presença invisível. Fosse o que fosse, não lhes desejava o bem; a aura de malícia irradiando da escuridão mais profunda era palpável o suficiente para que até Wrenn, que tinha pouca conexão com os mundos dos mortos ou espirituais, retesasse e estreitasse os olhos.

"Não é das árvores", murmurou ela. "Não tem canção."

"Mostre-se", repetiu Teferi, movendo os dedos em uma rápida série de linhas curvas e espirais que terminaram com um erguer de mão, palma apontada para as sombras profundas. Uma luz azul brilhou de sua pele e, quando desapareceu, uma figura espreitava onde a presença maliciosa estivera. Era uma paródia deformada e retorcida de um humanoide, presa em algum lugar na intersecção entre homem, fera e árvore. Sua boca era uma bocarra aberta cheia de dentes angulares que nunca haviam crescido na mandíbula de nada vivo.

Arte de: Piotr Foksowicz
Arte de: Piotr Foksowicz

Ela sibilou, o som profundo e gutural, e Teferi reagiu sem pensar, erguendo as mãos e liberando uma torrente de magia azul tremeluzente. A forma contorceu-se e avançou, interpretando isso com precisão como um ataque, e os olhos de Teferi se arregalaram. Qualquer fantasma ou espectro simples teria sido banido por aquela explosão, lançado adiante no tempo e deixando-os sem ameaça. Ele murmurou uma frase suave e empurrou mais magia através de seus dedos, enquanto o espectro empurrava de volta, sibilando ainda, e finalmente desapareceu em uma explosão de terrível energia necrótica.

Ele voltou-se para Wrenn, baixando as mãos. Ela caíra quando ele se afastara tão bruscamente, e observava-o do chão, um espectro de mulher delicado e descontente. "Peço-lhe desculpas", disse ele, ajoelhando-se para oferecer as mãos. "Mas a coisa se foi, por enquanto."

"Assim como nosso caminho de volta", disse ela amargamente, enquanto permitia que ele a puxasse para cima. "Veja o que você fez, mago."

Teferi olhou por sobre o ombro. O caminho se fora, ou melhor, o caminho fora replicado, transformado de uma linha razoavelmente reta cortada entre as árvores em um emaranhado de caminhos idênticos, cada um ramificando-se em uma direção diferente, até parecer que ficariam sem caminhos distintos para seguir. O estalido característico de magia temporal pairava sobre tudo.

"~Ah", disse Teferi, fracamente.

"Sim", disse Wrenn. "Ah." Então, com mais raiva na voz, ela disse: "A árvore que me chamava se foi. Não consigo mais ouvi-la. Você sabe o que fez ?"

"Receio que não." Teferi olhou para as mãos, depois para o ar, ainda estalando azul em alguns pontos. "O que é preocupante. Você veio aqui em busca de uma árvore. Não pode refugiar-se em uma destas?" Ele indicou as árvores ao redor deles.

"Quem dera", disse ela, com um toque de riso maníaco na voz. "Estas são árvores finas e maduras que me carregariam longe~se fossem parceiras adequadas. Mas nenhuma delas canta para mim. Nenhuma delas pode carregar meu fogo. A árvore que me chamava ainda era uma muda. Jovem demais para me suportar. Pequena demais para conter a queima."

Teferi franziu a testa. "Então encontraremos outra árvore para você, antes que você queime até virar nada."

"Não funciona assim", protestou a mulher, a voz tornando-se ainda mais áspera. "Dríades caminham pelos Planos com nossas árvores para nos manter e ancorar. Porque meu coração é feito de fogo, quando eu caminho, minha árvore caminha comigo. Não posso ter um parceiro pequeno demais para me acomodar, nem posso convencer qualquer árvore inadequada a me carregar pelo Plano. Eu preciso encontrar uma árvore, e não tenho tanto tempo quanto gostaria!"

Teferi franziu a testa, seguindo o fio de sua história nas coisas que ela não estava dizendo. Ele começou a caminhar novamente, e ela o seguiu, sensata demais para ficar para trás sozinha. "Paz, amiga", disse ele, finalmente. "Você precisa encontrar uma árvore. Eu preciso encontrar uma saída para essa confusão que fiz. Talvez possamos encontrar essas coisas juntos?"

"Não é como se houvesse mais nada a fazer", disse a mulher. "Mas, como eu disse, meu tempo é curto."

Teferi assentiu, ponderando. "Eu entendo o desejo de não admitir fraqueza para um estranho, mas parece que você está dizendo que sem uma árvore, você morrerá."

"Eu posso me defender!", disparou ela, o ar ao redor de suas mãos tornando-se nebuloso com o calor enquanto ela acessava o mana que lhe restava. "Não me provoque, mago."

"Paz, dríade", disse ele. "Paz, e nomes. O meu é Teferi. O seu?"

Ela se empertigou, parte da cautela deixando sua expressão. "Eles me chamam de Wrenn. Já ouvi falar de você, mago. Sua lenda viaja mais longe do que seus pés."

Tinha a cadência de um provérbio. Teferi sorriu. "Coisas boas, espero. Coisas que a levam a acreditar que eu não feriria um inocente."

"Ninguém que caminha pelos Planos é inocente", disse Wrenn. "Ainda assim, a maioria dos seus contos tem sido~menos que terríveis. Muitos o chamam de um homem gentil. Confiarei em você por enquanto." A névoa de calor ao redor de suas mãos desapareceu. "Sim. Sem uma árvore, minha jornada terminará aqui."

"Você consegue ouvir outra, acha, se eu lhe der meu apoio?"

"Posso ouvir, mas você terá que liderar o caminho."

Teferi olhou ao redor do labirinto retorcido em que o Plano se tornara, desprovido de cátaros e de presença espectral, e suspirou. "Tão bem quanto qualquer um possa, suponho que o farei."


Eles caminhavam pela maior parte da tarde, seguindo o caminho tortuoso. Nenhum deles conhecia a área o suficiente para saber quais das curvas haviam sido introduzidas quando Teferi baniu o monstro. Algumas das árvores próximas pareciam assustadoramente familiares, e Teferi estendeu a mão, sua centelha brilhando, e recuou quando a casca de seu próprio feitiço o golpeou de volta, tão semelhante ao que ele fizera a Zhalfir e, no entanto, em nada semelhante. Ele podia sentir a passagem do tempo ao redor deles; Wrenn estava ficando mais fraca, ainda procurando pela canção arbórea que a salvaria. O tempo marchava adiante. Eles ainda estavam em fase com Innistrad.

Eles estavam apenas~presos.

Arte de: Isis
Arte de: Isis

"Já estivemos aqui antes", disse Wrenn. "Fizemos uma grande volta."

"Não", disse Teferi, apesar de suas próprias suspeitas. "Nós nunca voltamos. Temos caminhado para o sul, ou aproximadamente para o sul, o tempo todo."

"Você consegue ouvir a canção arbórea como eu?", perguntou Wrenn. "As árvores sussurram seus desejos para você, fazendo-o entender o que elas querem? Se sim, então acreditarei em você. Se, como parece mais provável, não, então você não tem como me contradizer, e estou cansada. Estamos quase de volta onde começamos."

Teferi observou-a, procurando qualquer sinal de leviandade. Ela retribuiu o olhar calmamente, com os olhos abertos e desprotegidos. Pelo que ele podia dizer, ela falava a verdade. Ele parou no meio do caminho, sentindo o tempo girando ao redor deles, e ali, bem nas bordas do trabalho, dando sabor sem contaminar, estava o resto da presença espreitadora. Estava bem ali . Ele deveria ter sido capaz de derrubar esse feitiço sem pensar duas vezes!

Em vez disso, ele perdurava, prendendo-os e provocando-os. Wrenn afastou a mão do braço dele e caminhou até um tronco apodrecido, ainda graciosa apesar de seu claro cansaço crescente. Ela sentou-se, com as costas levemente curvadas, e disse: "Este não é o final que imaginei para a história para a qual fui semeada."

"Não é um final", protestou Teferi. "É um feitiço que deu errado. Certamente você já viu feitiços darem errado antes."

"Sim, e quando acontece comigo, eu os desmonto até que se dissolvam em minhas mãos~" Ela parou, franzindo a testa para a expressão no rosto de Teferi. "O quê?"

"Desmonta-os como , exatamente?"

"Tudo o que vem de você permanece de você, para sempre", disse ela. "A água que passa pelo solo para as raízes da árvore ainda é parte das nuvens; a história que mapeia seus passos ainda é parte de quem você era, e quem você era é para sempre parte de quem você é e será. Se o feitiço perdura, você pode reuni-lo, encontrar os lugares onde ele se emaranhou além de suas intenções e desmembrá-lo. Essas partes podem ser liberadas inofensivamente, de volta ao mana que é todas as coisas." Wrenn piscou. "Não é assim que seu povo vê as raízes da magia?"

"Não", disse Teferi cuidadosamente. "Vemos nossos trabalhos de maneiras um pouco menos~orgânicas. É uma ideia interessante."

"A magia vive. Você consegue ver seu feitiço?"

"Consigo."

"Consegue tocá-lo?"

Ele fez uma careta, lembrando-se da picada ao roçar os dedos na magia, mas admitiu: "Consigo."

"Consegue segurá-lo?"

"Não sozinho."

"Ah. Suas raízes são rasas demais. Aqui — eu ajudo." Ela cantarolou, uma nota única, clara e vibrante, e a magia natural da mata rodopiou ao redor dele, brilhante e crescente, reforçando as centelhas de seu próprio trabalho vinculado ao tempo. "Agora você consegue segurá-lo?"

Teferi estendeu a mão para o feitiço novamente e sorriu ao ver que ele não o repelia. "Consigo."

"Bom. Agora, você deve lembrar que a melhor maneira de desfazer um emaranhado é movendo-se através dele. Há sempre um ponto de entrada, um lugar onde os galhos não se entrelaçam completamente. Use isso para entrar em sua canção. Encontre o lugar onde ele falha em encontrar a harmonia perfeita consigo mesmo e você poderá desfazê-lo."

Teferi franziu a testa, mas não quis discutir com ela, não quando ela murchara tanto sob o domínio de sua própria magia temporal furiosa que dera errado. Ele respirou fundo e buscou a distorção, o obstáculo que ela descrevera. Quando o encontrou, não era uma nota fora do lugar ou uma falha de harmonização; era um ponteiro de segundos ligeiramente desafinado, um gargalo de ampulheta permitindo o mínimo fio de areia a mais. Era tão sutil que ele poderia ter ignorado mil vezes se estivesse estudando o feitiço da maneira normal, a uma pequena distância, sem a magia natural de Wrenn alimentando a sua. Agora, ele passou as mãos de sua consciência sobre ele e, quando aquela fraqueza mínima cedeu diante dele, cravou seus dedos mentais na abertura como quem rasga a casca de uma laranja.

Com a camada externa removida, foi mais fácil "ver" as maneiras pelas quais o feitiço se tornara distorcido, a interação daquela presença pavorosa com seu próprio mana azul límpido. O tempo estava dobrado, um relógio esmagado, no meio do que deveria ter sido um trabalho simples. Pouco a pouco, ele endireitou e desdobrou as engrenagens, reparando a intenção original do feitiço e, quando terminou, ele já não picava seus dedos. Ele podia tocá-lo tão facilmente quanto qualquer coisa intacta.

Ele ergueu a cabeça e o caminho estava de volta como era antes, não reto, mas também não um labirinto emaranhado e proibitivo. O caminho estava livre. A sensação de magia temporal que dera errado não pairava mais pesada no ar. A magia de Wrenn afastou-se da dele e ele voltou-se para ela. Ela o observava com olhos cansados.

"Sua lenda viaja virtuosamente", disse ela. "Você merece as canções que cantam sobre você."

"Não todas elas", disse Teferi, o sucesso empalidecendo diante da falha passada. "O lugar de onde vim originalmente, Zhalfir~eu o perdi."

"Você o perdeu ?"

"Sim. Todo o continente, através de um feitiço muito parecido com este. Nunca fui capaz de desfazer o que fiz." Então ele se animou. "Mas se encontrarmos uma nova árvore para você, talvez —"

"Se nossos caminhos se cruzarem novamente", disse ela, e retesou-se, com a atenção voltada para um ponto atrás dele na mata.

Teferi amaldiçoou-se por ser um tolo. Se a presença não fora totalmente banida, a remoção de seu feitiço poderia ter permitido seu retorno. Mesmo que tivesse sido, os cátaros ainda poderiam estar assombrando aquela mata. Ele virou-se lentamente, pronto para um ataque.

Em vez disso, ele viu uma árvore como qualquer outra ao redor, um carvalho alto e maduro com folhas verdes saudáveis e galhos abertos. Então Wrenn passou por ele, com os olhos no tronco, aparentemente incapaz de desviá-los. Ele não tinha certeza se ela estava respirando. Também não tinha certeza se dríades precisavam respirar. As leis da natureza eram um tanto diferentes no que dizia respeito às filhas da clareira. Elas caminhavam em sua própria definição do real.

Wrenn caminhava, passo a passo instável, em direção àquela árvore. Quando estava perto o suficiente, ergueu as mãos, as pontas dos dedos roçando a casca, e assobiou. O som era baixo e doce. Se Teferi não estivesse observando-a, teria pensado ser o canto de um pássaro. Ela inclinou a cabeça como se estivesse ouvindo e então mergulhou na própria árvore, desaparecendo em seu corpo como um peixe desaparece em água límpida. A árvore não deu sinal de que nada disso tivesse acontecido, e Wrenn se fora.

Arte de: Mila Pesic
Arte de: Mila Pesic

Teferi piscou e deu seus próprios passos em direção à árvore. Quase a alcançara quando a casca ondulou e a cabeça de Wrenn apareceu. A visão de uma árvore perfeitamente normal com a cabeça e os ombros de uma mulher projetando-se da lateral era apenas levemente desconcertante, e nada mais estranha do que qualquer outra coisa que tivesse acontecido naquele dia.

"Você é um milagre, mago", disse ela, beatificamente. "Um milagre e um erro no mesmo momento é algo mais comum do que você imagina!"

"O que você quer dizer?"

"Pergunte à canção", disse ela, e retirou-se de volta para a árvore, que começou a sacudir e tremer, como se estivesse se arrancando do solo. Então, enquanto Teferi observava, ela se desdobrou no modelo de um homem, um arvoroso adormecido em processo de despertar. Wrenn reapareceu enquanto a árvore se desdobrava, projetando-se de seu peito como a carranca de um navio, a maior parte de seu corpo ainda contida na casca, com um sorriso beatífico no rosto.

Em um instante, Teferi compreendeu. "Esta é a muda que cantava para você."

"Você dobrou o tempo. Árvores transformam tempo em sabedoria, e esta sabia que eu estava por perto. Ela reuniu todo o tempo que podia conter." Ela parou por um momento, inclinando a cabeça para o lado como se estivesse ouvindo. "Sete diz que está grato pelo que você fez, mesmo que não tenha tido a intenção de fazê-lo. Estavam chamando por mim, mas acharam que eu não teria a chance de ouvir. Eles querem ver os Planos."

"E você pode mostrar a eles?"

"Sua lenda viaja mais longe que seus pés. Minha lenda viaja apenas precisamente até onde vou", disse ela. "Você tem minha gratidão."

"Assim como você tem a minha, por me ajudar a desmantelar meu próprio emaranhado."

"Então estamos bem apresentados, mago, e desejo-lhe toda a paz no que quer que tenha vindo buscar aqui. Eu a ajudarei se puder, no futuro, mas por agora, prometi a Sete terras fora de Innistrad, e devo manter minha palavra." A árvore — ou arvoroso, ou receptáculo, ou o que quer que tivesse se tornado — ainda estava crescendo, elevando-se acima dos outros carvalhos, levando Wrenn embora. Ela acenou para Teferi, depois encostou-se no tronco atrás e ao redor dela, fechando os olhos. O grande arvoroso deu um passo à frente e depois outro enquanto as árvores se afastavam deles e voltavam para ocultar sua forma. Quando todas as árvores retornaram à posição original, a dríade e o arvoroso haviam partido.

Pela primeira vez desde que entrara naquelas matas, Teferi estava sozinho. Ele sorriu para o ar vazio e virou-se para voltar à aldeia de onde viera. Ele poderia dizer aos cátaros que o perigo fora resolvido, e não estaria mentindo. Talvez esta não tivesse sido a paz que ele buscava, mas fora uma lição não procurada e um novo aliado encontrado, e essas coisas eram melhores do que a paz, especialmente para um homem cujos pés podiam viajar mais longe do que sua lenda.

Episódio 2: Os Motivos do Lobo

Autor: K. Arsenault Rivera | Data: 08/09/2021

"Esta floresta nos pertence", ele disse a ela. As pessoas diziam que ele não falava muito, mas ele falava com ela. Talvez fosse porque aquela era a sua primeira caçada. Ela era uma garota selvagem e desgrenhada naquela época — manchada de sujeira, sangue e terra. Distantemente, ela pensou consigo mesma que deveria começar a trançar o cabelo se aquilo continuasse acontecendo.

"Mas e quanto aos Kessigers?" Ela se sentiu compelida a perguntar.

Tovolar resmungou.

Ele olhou diretamente para ela, e ela diretamente para ele. Só fazia sentido perguntar. Ela abraçou as pernas mais perto do peito. "É que — eu acho que podemos compartilhar."

Tovolar, Soberano Atroz | Arte de: Chris Rahn
Tovolar, Soberano Atroz | Arte de: Chris Rahn

Que estranha ela devia parecer, coberta de sangue, olhando para a vila para a qual estava com medo demais para retornar. A vila que ela agora estava defendendo. Tovolar tinha ficado com ela depois que ela voltou à forma humana. Ela estava grata pela companhia — o pensamento de estar sozinha agora era pior do que o pensamento de enfrentar sua família. De alguma forma, por pior que fosse, era mais fácil lidar sabendo que ela não estava sozinha.

Tovolar era o próprio bicho-papão de Kessig. Ela ouvira falar dele durante todos os últimos quatro ou cinco anos, ouvira o que ele fizera, e muitas coisas que ele não fizera. Rebanhos inteiros de gado massacrados. Casas invadidas e despedaçadas. Diziam que ele matava vampiros; diziam que ele se envolvia com magia negra; diziam que ele era todo tipo de coisa.

Mas de manhã, quando ela acordou como acordou, ele lhe trouxera um cobertor e sentou-se silenciosamente ao seu lado. O homem sentado ao lado dela era todo músculo e dente, mas ele se fazia menor para evitar assustá-la. À sua própria maneira silenciosa, ele explicou o que havia acontecido.

A primeira coisa que ela perguntou foi se ela tinha matado alguém. Ele disse: "Não esta noite". E assim, a conversa deles, tal como era, começou. Aquele foi o primeiro momento de um silêncio verdadeiramente desconfortável.

Mas então ele se levantou. Ele não precisou pedir para ela segui-lo.

Ela simplesmente o seguiu.


Ela se transforma antes de saber o que está fazendo — mergulha na floresta perto da bruxa e vai, suas roupas largadas ao acaso pelo caminho. Os lobos não esperam por ela. Listra está saltando à frente de todos eles — mas ele se vira para olhá-la, e ela acena para ele.

O uivo perfura o silêncio da floresta, o silêncio que não é silêncio, o silêncio que são as mil vidas fervilhantes em seu interior. Ela o conhece. Ela o conhece.

E ele, é claro, sabe que ela está aqui.

Ela não sabe por que esperava algo diferente.

Ela não sabe o que esperar quando o alcançar.


"Caçar é quem somos", ele disse a ela.

Ela não gostava daquilo. Havia algo errado — alguma magia negra no ar. Nas primeiras horas da manhã, eles poderiam ver qualquer um e qualquer coisa; certamente, haveria caçadores na floresta? Certamente, haveria pessoas — pessoas da vila, inclusive, que poderiam vê-la com ele e saber o que tinha acontecido com ela?

"Mas se fosse apenas caçar, as pessoas não teriam medo", disse ela a ele. "Não precisamos matar pessoas ."

Ela tinha visto o motivo, como qualquer outro Kessiger. As pessoas tiravam corpos da floresta todas as manhãs. Era necessário, especialmente depois das luas cheias. Lobisomens já eram o suficiente para lidar — ninguém queria adicionar aparições aos problemas crescentes de Kessig. Caçadores frequentemente visitavam seu pai na ferraria para buscar novas armas. Às vezes, eles até falavam sobre o que viam — sobre feras maiores que dois homens empilhados, que rasgavam a carne tão facilmente quanto o Kord mais velho rasgava papel. Suas armas adornavam a casa e, assim também, todos os símbolos sagrados que não eram vendidos.

Seu pai dizia que eles a protegeriam. Todos diziam o mesmo.

Mas Arlinn nunca encontrou muito conforto na visão sombria da vila. Com eles, era sempre sobre o que ela não podia fazer — ela não podia ir para a floresta; ela não podia tocar sua flauta muito alto; ela não podia cumprimentar estranhos ou fazer novos amigos quando viajantes passavam. Cautela e o anjo os mantinham seguros, esse era o pensamento, mas eles também mantinham o mundo dela pequeno e entediante.

Não confiamos em você. Vá embora — era o que sua vila dizia ao mundo. Não havia espaço para mais?

E quando ela ouviu o uivo, percebeu que havia algo mais. Parecia tão feliz, tão reconfortante, tão... tão como um velho amigo.

Uma vida livre de paredes, livre de símbolos sagrados. Uma vida livre de medo e cheia de algo diferente .

Sob o manto da noite, ela partiu.

Tovolar olhou para trás, para ela. "É isso que você acha?"

"Sim", ela respondeu, com todo o coração.

Ele balançou a cabeça e continuou andando. Ela o seguiu.


Ver as coisas nunca pareceu o mesmo depois de sua primeira caçada. Ela não tinha percebido o quão limitados eram seus olhos humanos até ver com os do lobo; não tinha percebido que o visual é verdadeiramente apenas uma pequena parte do mundo. Ela não pode ver as larvas rastejando pelo sub-bosque com seus olhos humanos; ela não pode cheirar sangue no ar a quilômetros de distância com seu nariz humano; ela não pode sentir o gosto pungente da noite com sua língua humana.

Mas como lobo, ela pode fazer todas essas coisas. E ela sabe que ele está logo à frente. Ela sente seu cheiro muito antes de conseguir vê-lo. Assim também, o cheiro dos outros ao seu redor — alguns familiares, e outros decididamente não.

Em que você se meteu? Ela se pergunta.

Quando, finalmente, as árvores se abrem o suficiente para que ela o aviste, ela para abruptamente. Ele está lá, seus olhos penetrantes como sempre na noite, cercado por lobos enormes. Arlinn não é, de forma alguma, a menor da ninhada, mas esses recém-chegados têm braços grossos como as árvores ao seu redor. Um está usando a corrente de um navio como bandoleira. Não é cedo demais na noite para terem se transformado?

Tovolar, ladeado por seus companheiros de matilha, parece ter o tamanho de um homem humano. Mas ele não é. Isso fica claro conforme Arlinn se aproxima dele, conforme seu rosto rude tenta sorrir para ela. "Você voltou para casa."

"Vim investigar", diz Arlinn. Olhando os recém-chegados de cima a baixo, ela reprime um rosnado instintivo. "Quem são esses caras?"

Tovolar para perto de Dentirruivo. Os pelos do pescoço de Arlinn se eriçam.

Ele encontra os olhos dela, então se afasta.

Ele não precisa dizer me siga.


O estômago de Arlinn ameaçou se esvaziar. Um miasma doce e pungente forçou seu caminho garganta abaixo de Arlinn. Ela sabia precisamente o que estava à frente deles, e queria que Tovolar parasse de guiá-los. Ela queria parar de segui-lo.

Mas para onde ela iria se o fizesse? Ela era uma loba agora, assim como ele. Não importa o que acontecesse, havia grandes chances de ela acabar em fúria se fosse deixada por conta própria.

Ela não podia simplesmente ir embora.

Então, ela o seguiu, e quando finalmente Tovolar apontou os corpos para ela, ela fez o seu melhor para não vomitar. Seu melhor não foi muito bom. Três caçadores despedaçados como animais comuns, suas costelas expostas ao dia que clareava, seus rostos travados em um terror paralisante. Bestas e virotes de prata espalhados ao redor deles como agulhas de pinheiro. Símbolos de Avacyn ensanguentados agarrados em suas mãos. Para onde quer que olhasse, havia algo pior para ver, e para onde quer que olhasse, seu estômago ameaçava se esvaziar, até que finalmente aconteceu, e toda a carne de veado crua que ela havia apreciado subiu.

Tovolar resmungou. Ele colocou a mão no ombro dela e a virou para encarar os corpos novamente.

"Por favor", ela gaguejou. "Eu não quero olhar."

Mas ele manteve uma mão em seu ombro. "Você precisa entender."

Ela inspirou profundamente. "Mas por quê? O que há para...?"

Ele a soltou então, tempo suficiente para caminhar até os corpos. O que poderia ter levado três passos para ela, levou apenas um para ele. Ajoelhando-se ao lado dos corpos, ele olhou para ela novamente. "Ontem à noite, como foi a sensação?"

Ela engoliu em seco. "Como ser livre. Mas não vale a pena —"

"Ser livre vale o que quer que paguemos por isso", ele respondeu. Levantando-se, ele chutou um dos corpos com a ponta da bota. "Estou cansado de me esconder."

E como era estranho que se esconder fosse tudo o que Arlinn queria fazer.


Ela sente o cheiro deles antes de vê-los.

Mais lobos. Muitos deles. Eles usam formas humanas agora, mas isso não muda o que são, não muda a fome que sentem, não os muda aos olhos dos aldeões. Eles são lobos — e ela também é.

Ela os vê comparando armaduras pilhadas de cátaros; ela os vê pintando padrões na pele que aparecerão tão bem quanto no pelo; ela os vê lutando como filhotes recém-nascidos. Há tantos rostos novos e cheiros novos que a deixam tonta, voltando à sua forma humana conforme o horror disso começa a se instalar.

Porque seus olhos, é claro, não estão lhe contando a história toda.

Aqueles lobos não cheiram como os Mondronen. Eles não fazem parte da matilha de Tovolar. Então por que estão aqui? E os outros — aqueles que, como os guardas de Tovolar, são muito mais altos que os demais, seus rostos aparentemente travados no meio da transformação — quem são eles?

Isso é mais do que apenas uma caçada.

Arte de: Ryan Pancoast
Arte de: Ryan Pancoast

Os uivos que chegam aos seus ouvidos contam a maior parte da história. Quando criança, ela tapava os ouvidos para tentar manter o som afastado, mas não há esperança de fazer isso agora. Dezenas de lobos todos chamando uns aos outros na noite, talvez até uma centena de vozes proclamando uns aos outros: Estou com você, eu caçarei.

E essa voz está alojada na base da garganta de Arlinn também, conforme o nascer da lua se aproxima cada vez mais. Alguns dos mais ansiosos — como os guardas de Tovolar — já começaram suas transformações. O estalo e o estalo dos ossos conferem aos uivos distantes uma percussão assíncrona.

Tovolar vira-se para ela. Há um sorriso naquele rosto, há orgulho em seus olhos enquanto ele gesticula amplamente para os lobos ao redor deles. À medida que caminham mais para dentro, ele é saudado por uivos tão agudos que Arlinn os sente em sua pele — e pelo que costumava ser a saudação da Matilha de Uivos de Mondronen.

"Quem são todas essas pessoas?" ela pergunta a ele.

"Família", ele responde. "Nossa nova matilha."

Arlinn franze a testa. "Não me parece muito uma reunião de família. Parece mais que você está se preparando para algo."

Seus ombros sobem em uma risada que ele não consegue expressar. O som ecoa. Ela conhece aquele olhar. Ela sabe que não vai gostar da resposta.

Mas ela fica para ouvi-la de qualquer maneira.

"Preparando para tomar o que é nosso", diz ele. Atrás dele, dois dos novos lobos, já transformados, derrubam árvores para servir como clavas. "Costumava ser apenas a floresta. Agora as noites também são."

Listra se aninha contra ele. Interrompendo a caminhada, Tovolar se ajoelha para acariciá-lo. Seixo bate a cabeça no ombro de Arlinn, como se pedisse permissão para se juntar a ele. Arlinn engole em seco.

"Tovolar", diz ela, sua voz baixando, "o que exatamente você está caçando?"

Árvores caindo. Lobos uivando. Um homem com um obelisco pendurado no ombro. O ar denso com o cheiro da fome. Sangue, também — alguém já matou. Ela pode ouvir mandíbulas despedaçando a carne. Não está longe.

A lua está subindo cada vez mais.

Tovolar toca a ponta do nariz de Listra, passa as mãos pelas orelhas dele. Listra nunca fica tão quieto para ela. Ele não está se movendo de jeito nenhum, nem mesmo abanando a cauda. Tovolar encosta sua testa na de Listra, depois aponta — e lá se vai o lobo, faminto como a noite.

O estômago de Arlinn afunda. É apenas fome. Ele voltará. Mas ela não quer perder mais tempo. Ele se levanta novamente, pairando sobre ela, como sempre, observando o ajuntamento antes de olhar novamente para ela.

"O que quisermos. Sugadores de sangue, quando conseguirmos encontrá-los. Os Atrozes se divertem muito fazendo-os implorar."

"Atrozes?" Ela o encara, mas já sabe a quem ele se refere — os lobos ao lado dele, os gigantes. "Caçar vampiros é uma coisa, mas você não pode —"

Um grunhido agudo a interrompe, ou talvez os velhos reflexos ligados a ele. Suas sobrancelhas se contraem, seus lábios se afastam de seus dentes e, conforme a luz incide em seu rosto, seus dentes crescem.

"Podemos fazer o que quisermos", diz ele. "Tentei te ensinar isso."

Mais uivos, mais perto agora. O coração de Arlinn martela em seu peito. Ela quer caçar. Ela quer correr.

Ela finca os calcanhares. "Não, você não pode. As pessoas vivem nestas florestas há gerações; elas construíram vidas para si mesmas. Tudo o que elas querem é uma vida sem medo, o mesmo que nós."

Ele se aproxima dela, os olhos queimando. "Muita igreja em você", ele rosna. "Pouco lobo."

Quando ele olha para ela, ela está novamente na floresta com ele, novamente encarando os corpos dos cátaros, novamente com medo.


Quando ela retornou naquela manhã, sua mãe esperava na sala de estar. Os anos pesavam sobre ela — mas esta noite estava mais pesada do que a maioria. Os ombros da mulher estavam caídos; grandes olheiras se formaram sob seus olhos. Quando ela envolveu Arlinn em um abraço, seus braços eram pequenos e fracos.

"Onde você estava ?" ela rangeu. "Arlinn, encontraram quatro de nossos rapazes na floresta, despedaçados exatamente como..."

E ela poderia ter contado a ela então. Ela poderia ter sido honesta.

Mas seus olhos caíram sobre um dos símbolos do anjo, moldado pelas próprias mãos de seu pai, e ela soube que não poderia contar a verdade.


Arlinn não é mais uma jovem filhote. Ela não tem mais medo.

O luar torna mais fácil a transformação. Seus ossos estalam e se reorganizam, forjam-se em algo ao mesmo tempo novo e antigo. Tovolar destaca-se diante dela.

Ele está sorrindo.

Ela odeia que ele esteja sorrindo.


Na primeira caçada, ela correu com Tovolar. Na segunda, Tovolar e outros três. Na terceira, ela correu com a matilha.

Rasgando a floresta, perdida na emoção da caçada, tudo o que ela queria fazer era enterrar os dentes na carne suntuosa de um cervo. E ela pensou, tolamente, que poderia até manter sua consciência por tempo suficiente para arrastá-lo de volta para a vila — para a ferraria de seu pai, talvez, onde ela poderia dizer que talvez um dos rapazes da estrada o tivesse deixado para eles.

Quando seu celeiro está cheio de camundongos, você arranja um gato. Quando suas florestas estão cheias de lobisomens, você envia seus melhores caçadores. É natural.

Ela se lembrava de ver o cervo. Ele olhou para ela enquanto bebia em um rio, o pelo branco como a lua, os olhos vermelhos como sangue. Ela se lembrava de pular nele. Ela se lembrava da dor que se seguiu, súbita e aguda, o fôlego arrancado dela, o estalo de suas costas no chão áspero. Ela se lembrava de olhar para baixo e ver o virote enterrado em seu peito. Ela não se lembrava de muito mais, exceto que, pela manhã, acordou cercada pelos restos macabros dos garotos que costumavam roubar tortas da janela de sua mãe. Caçadores, agora — suas bestas ao alcance da mão.

Sua boca estava viscosa com o sangue deles.

Ela gritou, então. E foi isso.


Esta é a única vez que ela pairará sobre ele — quando ela estiver transformada e ele não. Agora é ela quem rosna para ele. Os outros se reúnem em um círculo, alguns se transformando pela excitação, outros simplesmente famintos pelo gosto de sangue. Armas, patas e pés batem contra a terra: tum, tum, tum.

Ela o rodeia, mas ele não se move.

"Você quer caçar", diz ele.

E é verdade que ela quer. Estar entre aqueles como você é uma sensação vertiginosa. Esses lobos a conhecem, embora ela não os conheça; eles conhecem a luta de existir em um Plano como este. Innistrad os quer mortos. Não é justo viver apesar disso? Não é justo retomar suas vidas, pela força, se necessário?

Não é. Não importa o quão atraente possa parecer, não é.

Ela tem que detê-lo. Se ela o derrubar agora, a luta por quem controla a caçada pode atrasar as coisas o suficiente para conseguir algum tipo de ajuda.

A garra desce.

Mas antes que possa fazer contato, Seixo entra em movimento, pulando na frente dele. Arlinn recua no último momento, seu coração afundando em seu estômago.

Leva apenas um momento de reflexão para descobrir o que está acontecendo, apenas estudar o rosto amigável de Seixo, tornado ao mesmo tempo esperançoso e faminto.

Listra se junta a ele. Dentirruivo também. Apenas Paciência permanece ao lado de Arlinn — mas até ela está olhando para Arlinn com expectativa.

Eles querem caçar.

Tovolar sorri com desdém. "Sua matilha entende."

Um a um, os lobos ao redor deles se transformam. Quantos há, já transformados? Quantos estão sobre as patas traseiras esperando que ela derrame sangue?

Paciência esperava por ela todos os dias, uma vez. Agora Arlinn é quem hesita.

Arte de: Sam Rowan
Arte de: Sam Rowan

Havia símbolos por toda parte dentro da igreja. Pelas manhãs, quando a luz da aurora perfurava pela primeira vez os vitrais, não havia sombras exceto aquelas em formas sagradas. Arlinn valorizava a aurora acima de tudo. Cada nascer do sol era uma nova vitória contra a fera dentro de si; cada manhã de mãos limpas, uma promessa para o seu eu futuro. A fera tinha ido embora.

Os cultos começavam no momento em que o sol ultrapassava as colinas de Kessig. A princípio, ela não tinha permissão para celebrá-los, mas comparecia todos os dias com uma necessidade febril de segurança, como se a visão do anjo iluminado sozinha pudesse trazer sua salvação.

Talvez pudesse.

Ou talvez fossem as pessoas.

As mesmas pessoas em cada culto. As mesmas pessoas amontoadas em torno de textos sagrados. Barnaby sempre provocando-a sobre ser a primeira a entrar na catedral — mas tornando-se a segunda pessoa logo depois. Confiando em si mesma o suficiente para passar uma noite assando com Luciana, que jurava ter receitas melhores, mas deveria saber que não se deve apostar contra a filha de um padeiro. Padre Zakarias, sempre perguntando gentilmente se havia algo mais que ela gostaria de confessar e tranquilizando-a quando ela mentia na cara dele.

Segurança e calor. Pessoas boas. A luz da manhã prometia tudo isso e mais, e por anos foi o suficiente. Com o tempo, ela parou de se preocupar com o que a trouxera ali.

Até que ele apareceu nos cultos matinais.

Ele não disse nada. Não precisou. A aparência dele era o suficiente. O selvagem nele chamava o selvagem nela: as marcas de sujeira em sua armadura emprestada, as manchas de vermelho enferrujado contra o branco e o amarelo queimado, os cheiros de fogo, sangue e pinheiro. Tudo o que ele fez foi sentar-se ao lado dela. Não disse uma palavra.

Mas era difícil vê-los no escuro.

Talvez tenha sido por isso que aconteceu.

Talvez tenha sido por isso que não foi o suficiente.

Mas ela nunca saberá realmente, não agora, por que aconteceu do jeito que aconteceu, ou que bondade insondável levou Luciana a ir ver como ela estava.

Ela se lembrava do sangue. Ela se lembrava da caçada. Ela se lembrava de querer estar em qualquer lugar, menos ali.

E então, de repente, ela estava.


Reviver a história é abrir uma ferida e esperar que ela cicatrize de forma diferente.

Ele quer caçar. Seus lobos querem caçar. A matilha quer caçar.

Ela não quer. E ela deve mantê-los seguros o melhor que puder.

Arlinn se ajoelha. Ela acaricia a cabeça de Paciência, coçando aquele ponto entre as orelhas, e dá a ela um abraço final.

"Mantenha todos seguros", diz ela. Seu focinho é estranho nesta forma, as palavras não fazem sentido, mas ela espera que Paciência saiba o que ela quer dizer. Um tapinha na coxa serve como permissão final. Arlinn se levanta, e Paciência caminha até ele.

Os lobos reunidos gritam e uivam, cada som um punhal no coração de Arlinn.

Tovolar acena com a cabeça. "Quando estiver pronta para o novo mundo, venha nos encontrar."

Ele começa a se transformar. Ela não fica para assistir.


Ela encontra o caminho de volta para a bruxa. Não é difícil — ela tem o rastro agora — mas leva algum tempo, pois ela para sempre que ouve um de seus lobos entre a matilha de uivos.

Não há gentilezas. Ela não tem tempo nem energia para elas.

"Vou pegar sua chave", diz ela.

Se Katilda percebe que os lobos se foram, ela não diz nada sobre isso — em vez disso, convida Arlinn para a luz quente da fogueira.

Não há lobos aqui.

Mas há pessoas, e há algo próximo da luz sagrada e, por esta noite, terá que bastar.

Guardas do Coração da Alvorada | Arte de: Joshua Raphael
Guardas do Coração da Alvorada | Arte de: Joshua Raphael

A luz da manhã traz novos amigos.

Para uma bruxa antiga, Katilda é bem popular. À primeira luz, ela e suas bruxas reúnem-se no centro do acampamento. Magia flui delas em fluxos, espalhando-se no ar. Katilda diz a ela que é um chamado, algo para deixar os campeões escolhidos do concílio saberem que é hora de se reunir.

Arlinn tem um chamado próprio, mas não é um que o concílio possa ver. Enquanto elas realizam o delas, ela foge para Ravnica. Nada é simples lá. Para conseguir até mesmo acesso à casa de Jace, ela precisa preencher três formulários e fazer dois juramentos — e no final, ele nem está lá. Mas tudo bem — ainda há amigos para encontrar, e uma lenda também.

Arlinn ouvira falar de Teferi de passagem — principalmente de um plano que ele estava bolando com os outros — mas não esperava que ele fosse tão... acessível. Desarmantemente acessível, inclusive. Ele é o primeiro a cumprimentá-la quando ela passa pela porta. O sorriso fácil conta muito — mas também conta lidar com alguém perto de sua própria idade.

Não que ele tenha a idade dela. Ele é muito mais velho. Quase insondavelmente velho. Enquanto ele lhe serve uma xícara de chá, ela tenta não remoer as implicações.

"Suponho que você não veio aqui apenas para me fazer companhia, Arlinn", diz ele. "Você parece quem não dormiu."

"Tão óbvio assim, hein?" ela responde. O chá é bom — suave e encorpado, surpreendentemente, dado o curto tempo de infusão. Mesmo assim, o de sua mãe é melhor. Ela sente falta dele.

"Se você vai perguntar se eu posso esticar a noite para você poder descansar, a resposta é não", diz ele. É dito com cordialidade, mas Arlinn não consegue esconder o sobressalto. Teferi inclina-se para a frente. "Desculpe, parece que isso tocou em um ponto sensível."

Arlinn não se dá ao trabalho de fazer rodeios. "As noites em Innistrad estão ficando mais longas, mas isso significa que ninguém está descansando. É por isso que vim. Algo está vindo — os lobos estão..."

Ela não consegue terminar, nem sabe por onde começar — mas não precisa. Pelo menos não por mais alguns minutos. Alguém surge, espreguiçando-se como um gato no topo da escada, alguém que pula de empolgação ao perceber que há uma visita. Chandra salta o corrimão (e os degraus) só para chegar até eles mais rápido.

"Arlinn!" ela chama, sentando-se em uma das mesas ao lado deles. "Ei, você trouxe aquela receita de —"

Talvez Arlinn realmente pareça tão sombria quanto se sente — Chandra para no meio da frase. Arlinn suspira. "Receio que terá que esperar", diz ela. "Como eu estava dizendo a Teferi —"

Mas a porta se abre novamente, e outro rosto novo a encara. Uma sobrancelha erguida logo em seguida. "Então, você é quem usou lápis nos formulários que só aceitam tinta?"

É tudo tão ridículo, mas é o ridículo que ela precisava.

Parece um pouco com as manhãs com Barnaby e Luciana.

Arlinn permite-se rir, apenas desta vez, apenas para lembrar pelo que está lutando.

Humanos também andam em matilhas.


Eles escutam. Ela está grata. O nome da estranha é Kaya, e a ideia de o dia e a noite perderem o equilíbrio a perturba daquela maneira silenciosa que leva a uma mudança decisiva. Eles virão. Eles ajudarão. Mas primeiro, precisam conhecer o povo de Katilda.

Quando reaparecem na floresta juntos, Arlinn sabe imediatamente para onde ir. Ela prefere os carvalhos imponentes de Kessig aos prédios apertados de Ravnica qualquer dia — ela nunca sente que pode respirar lá.

Sob as árvores e os arcos do Celestus, eles caminham de volta para o concílio. Chandra olha para o antigo artefato com puro deslumbramento e curiosidade. Arlinn inveja isso um pouco — mas, para falar a verdade, ela mesma sente um pouco desse deslumbramento até hoje.

Quando chegam, há algumas dezenas de rostos novos lá também. Tantos em um só dia — vai ser difícil lembrar de todos. Mas ela aprenderá. E ela quer aprender. Porque os três às suas costas sabem o que ela é, e nem um sequer olha para ela com medo.

Talvez seja o mesmo para os cátaros e magos reunidos à frente. Ninguém que Arlinn conheça pessoalmente, mas ela conhece todos os cátaros e sacerdotes de certa forma — se você usa as roupas de alguém por tempo suficiente, tem uma ideia de seu caráter. Eles estão em uma multidão centrada na bruxa: seis ou mais cátaros, alguns sacerdotes e o resto Kessigers resistentes de nenhum tipo específico. De pé, a mais orgulhosa entre eles, está uma mulher de pele escura em armadura branca, com uma leve poeira de neve nos ombros. Se você pedisse a uma criança para descrever o cátaro mais corajoso que conhecia, teria alguém como ela: a armadura bem polida, as feições nobres, ombros largos e olhos gentis. Ela está ouvindo enquanto Katilda explica algo — mas ambas se voltam para os recém-chegados que se aproximam.

Adeline, Cátara Resplandecente | Arte de: Bryan Sola
Adeline, Cátara Resplandecente | Arte de: Bryan Sola

"Arlinn Kord, suponho?" chama a cátara. Sua voz é rica e ressonante — claramente, ela aprendeu a projetar.

"A mesma", responde Arlinn. "Estes são meus amigos — Kaya, Teferi e —"

"Chandra Nalaar", a piromante interrompe. "Meu nome é Chandra. Qual é o seu nome?"

A cátara sorri e solta uma risadinha. "Adeline está bom. É um prazer conhecer você, Arlinn, Kaya, Teferi e Chandra Nalaar. Katilda diz que vocês estão aqui para ajudar com o Reencontro do Outono?"

Arlinn tem a sensação de que Chandra ajudaria com o que quer que fosse que Adeline pedisse a ela, mas eles não podem deixar seus olhos se desviarem muito de seu objetivo aqui. "Estamos aqui para ajudar a encontrar a chave", responde Arlinn. "Festivais não são muito a minha praia, receio."

Kaya limpa a garganta atrás dela. "Você não mencionou nada sobre um festival."

"Katilda acha que é necessário", responde Arlinn.

"É necessário", diz Katilda. Sua voz de alguma forma alcança a pequena distância entre eles e, conforme os heróis se juntam ao grupo maior, seus olhos permanecem fixos nos de Arlinn. "O ritual é algo preciso, com pouca margem para erro. Não se pode pular etapas em magia antiga."

"É algo temperamental", ecoa Teferi. "Quanto mais velha a magia fica, mais presa ela fica aos seus costumes."

"Ele entende", diz Katilda.

Arlinn não tem energia para contestar quando Teferi já está se adiantando. "Então, o que exatamente você precisa de nós? Arlinn nos contou sobre o ritual." Ele gesticula para as peças do Celestus acima deles com seu cajado. "Quando encontrarmos a Chave de Prata Lunar, o que deve ser feito com ela?"

"Vocês a trazem para o centro do Celestus. Arlinn sabe o caminho", responde ela. "Eu esperarei por vocês lá com o concílio. Lá, nós a unimos com a Fechadura de Ouro Solar e completamos o ritual."

"E você tem alguma ideia de onde poderíamos encontrar a chave?" Kaya pergunta. "Alguma pista, algum último paradeiro conhecido?"

Katilda suspira. "Não. Ela foi tirada do Concílio do Coração da Alvorada séculos atrás."

"Certo", diz Kaya. "Então acho melhor começarmos a procurar. Arlinn, você tem alguma ideia?"

Ela nunca tinha ouvido nada sobre uma Chave de Prata Lunar antes de ontem à noite, e tudo o que sabe do Celestus são velhas lendas, mas ela tem certeza de uma coisa. "Deve haver algo em Thraben. Pode ter sido a igreja que levou a chave."

"E se for esse o caso, tenho certeza de que está bem escondida", diz Adeline. Ela acena com a cabeça. "Para Thraben, então."

"Hm... você tem certeza de que Thraben é assim tão segura?" diz Chandra. "Você tem certeza de que temos que ir lá de novo? Porque a última vez não foi muito boa, e não foi nada segura." Adeline lança-lhe um olhar de soslaio, e Chandra acrescenta rapidamente: "Não que eu esteja com medo."

Arlinn suspira. "Eu sei o que você quer dizer — mas as câmaras devem estar bem."

Faz algum tempo que Arlinn visitou a catedral pela última vez.

Ela espera que seja melhor do que foi naquela época.

Irmãs

Autor: Eugenia Triantafyllou | Data: 10/09/2021

Leinore encontrou a cobra morta misturada às cinzas de uma fogueira que esfriara horas atrás. Era uma coisa pequena, carbonizada e fuliginosa, mas de alguma forma mantivera sua forma. Leinore estendeu a mão e a pegou.

Leinore, Soberana do Outono | Arte de: Fariba Khamseh
Leinore, Soberana do Outono | Arte de: Fariba Khamseh

"Eca~" disse Sinnia, o focinho de sua máscara de raposa balançando enquanto falava. "Coloque isso no chão."

Então, como se o toque de Leinore tivesse animado a criatura, ela contorceu o corpo e moveu sua língua bifurcada. Leinore a jogou para longe com um grito. Ela caiu de volta na cova de cinzas, imóvel como qualquer outra coisa — quase como se nunca tivesse se movido.

"Não é tão corajosa agora," sua irmã riu.

Sua irmã mais nova sempre a provocava com gentileza. Leinore não conseguiu esboçar um sorriso, porém. Não depois da notícia de outra família desaparecida esta manhã. O antigo Festival da Colheita, agora revivido, deveria trazer esperança ao povo e restaurar o equilíbrio entre a luz e as trevas.

Era isso que as bruxas do Conclave do Coração da Alvorada prometeram a ela e ao povo de Kessig. "Ajudem-nos a trazer de volta a luz," elas disseram aos aldeões. Embora usassem crânios em suas cabeças e lama em seus rostos e parecessem tão ameaçadoras quanto os monstros escondidos na floresta, as pessoas concordaram em ajudá-las. "Tragam de volta a luz," as pessoas sussurravam por toda parte. Logo, era mais do que um sussurro. Era uma promessa e uma oração.

Mas mais pessoas apareciam desaparecidas a cada manhã, e os dias pareciam mais sombrios do que nunca.

Leinore geralmente não precisava de incentivo. Ela era a primeira a se levantar de manhã, para preparar o café da manhã para sua irmã e seu pai antes que ele partisse para os campos. Depois, ela fazia as rondas por sua pequena aldeia, visitando idosos que moravam sozinhos, ou crianças cujas famílias haviam sido assoladas por alguma catástrofe, sobrenatural ou não, e compartilhava quaisquer assados que tivesse feito naquele dia. Dava-lhe paz saber que as pessoas estavam felizes, ou pelo menos contentes; um senso de ordem.

Essa ordem fora perturbada desde Os Suplícios. Agora, as noites ficavam mais longas, e os dias eram curtos demais. A geada de inverno chegou meses antes do que deveria, cobrindo Kessig como um véu fino.

Katilda, a líder do conclave, prometeu que poderia consertar o desequilíbrio se o festival fosse um sucesso, e Leinore não queria nada mais. Quando o Conclave do Coração da Alvorada pediu que ela supervisionasse as festividades, ela sabia o que as bruxas esperavam dela: fazer o que ela sempre fizera. Ela manteria o povo alimentado, as decorações brilhantes e a atmosfera festiva. Um trabalho simples que estava se tornando cada vez mais difícil.

Leinore examinou a tenda vazia à sua frente. Um lenhador e sua família encontraram alojamento ali enquanto durasse o festival. Havia bastantes daquelas por ali, espalhadas nas clareiras ao redor do Celestus, abrigando viajantes que chegavam de toda Kessig. O frio rastejante tornava-se insuportável nas horas tardias, embora fosse apenas outono.

Com as bênçãos e encantos das bruxas de sebe ao redor delas, as pessoas sentiram-se seguras no início. Os mais bravos dormiam ao ar livre, tendo apenas o céu escuro como teto e suas peles grossas como cobertas. A lua parecia maior e mais próxima do que nunca, mas os frequentadores do festival tinham menos medo dos perigos que espreitavam no escuro quando os encantos do Conclave do Coração da Alvorada os protegiam. Ou pelo menos, estiveram. "Talvez tenham partido," murmurou Leinore. "Cansaram-se do frio, arrumaram suas coisas e foram para casa."

Sinnia estremeceu, embora Leinore não achasse que fosse pelo clima miserável. Sua fantasia de raposa estava coberta de folhas de bordo vermelho brilhante. Leinore pensou que ela parecia mais um pássaro raro e estranho, pronto para levantar voo.

"As coisas deles ainda estão aqui." Sinnia apontou para um pequeno pacote de pano ao lado de um barraco, fácil de ignorar sob a geada e as folhas que caíram durante a noite. "Além disso, quem viajaria no escuro? Não gosto disso. Vamos para casa. Eles podem aparecer amanhã."

Ela estava certa, é claro. Esta era a segunda família esta semana. Outra tenda deixada intacta. Ninguém estaria com tanta pressa a ponto de deixar suas coisas para trás — ou pior, viajar pelas florestas de Kessig durante a noite.

Havia algo mais caído ao lado do pacote. Parecia pequeno e sinuoso.

"Realmente espero que não seja outra cobra." Leinore cerrou os olhos. As névoas estavam ficando mais espessas conforme a noite se aproximava.

Sinnia caminhou sobre o pacote e chutou um pouco da geada e das folhas.

"Oh, que bonita!" Sinnia a pegou. Era uma máscara de festival, mas não como as que o povo da cidade usava no Festival da Colheita. Parecia mais um adereço de cabeça de uma bruxa de sebe, elaborado e desconcertante. Mas aquilo não fazia sentido. A família perdida era apenas um lenhador e sua esposa.

A máscara incrustada de escamas era de um dourado profundo. Gravetos estavam fixados no topo, como a maioria dos adereços de cabeça das bruxas, só que em vez de raios de sol ou feixes de lua, pareciam mais cobras se enrolando para fora do gesso. Sob os olhos da máscara, duas longas presas de madeira sobressaíam.

"Coloque isso no chão," disse Leinore. Sinnia lançou-lhe um olhar, mas simplesmente não parecia certo pegar coisas que não eram delas. Mesmo que as pessoas tivessem—

Algo não estava certo. Leinore virou-se para sua irmã e disse: "Sabe, deveríamos sair daqui enquanto ainda podemos. Ir para casa."

Sinnia tirou sua máscara de raposa e experimentou a nova, fazendo Leinore recuar.

"Não sabemos o que aconteceu com eles," disse Leinore lentamente. "E o papai sempre suspeita de tudo desde que—"

Ela parou. Não fazia sentido mencionar a mãe. Quando o Silenciador da Maldição — o feitiço que curara tantos lobisomens — se quebrou, a sede de sangue e os instintos animais das criaturas levaram todos embora, inclusive a mãe delas. Uma pequena bênção: ela nunca machucou ninguém que soubessem, apenas retornou para a floresta. Isso facilitou para que afirmassem que ela fora morta por um urso, mesmo que os aldeões apenas fingissem acreditar nisso por piedade.

Sinnia balançou a cabeça. "Você só não quer que as pessoas estraguem suas celebrações."

O rosto de Leinore esquentou. "Por favor, tire essa máscara."

Mas Sinnia a ignorou. Ela amarrou as fitas da máscara firmemente sobre seus cachos negros e deu uma pequena pirueta. "Tenho certeza de que eles não voltarão para pedi-la."

Leinore odiava a máscara. E não era apenas o fato de Sinnia tê-la pegado sem permissão. Ela a deixava desconfortável. Não queria olhá-la diretamente nos olhos. Seus olhos. Os olhos dela. Ela afastou o pensamento estranho. Era enervante, só isso. Nada diferente dos rituais das bruxas.

"Deixe-me falar com Katilda," Leinore suavizou a voz. Sua irmã podia ser teimosa às vezes, mas, no fim das contas, ela a ouviria. "Talvez ela possa ajudar. E por favor , tire essa máscara?"

"Tudo bem." Sinnia tirou a máscara e vestiu a de raposa novamente. Ela a fizera, junto com a máscara de cervo de Leinore, e tinha orgulho de ambas. "Mas vou guardá-la até que eles voltem."

Máscara da Bruxa de Sebe | Arte de: Ovidio Cartagena
Máscara da Bruxa de Sebe | Arte de: Ovidio Cartagena

Ela não acreditava que Katilda e o conclave tivessem algo a ver com as pessoas desaparecidas. Havia algo no olhar gentil de seus olhos em que Leinore confiava. E daí que fossem estranhas? As bruxas foram eremitas por tanto tempo que era natural serem enigmáticas sobre seus rituais. Talvez não quisessem que sua magia caísse em mãos erradas. E considerando seu poder, Leinore não as culpava. Ela as vira rachar árvores ao meio com um gesto ou conjurar água da terra para os frequentadores do festival sedentos.

Mas outro pensamento rastejou por sua mente. E se o resto do conclave não fosse tão inofensivo quanto Katilda? Estaria a bruxa realmente no controle do que estava acontecendo?

A coisa deslizou pelas bordas de sua visão novamente, mas desta vez foi apenas em sua memória. Havia algo nas névoas ontem à noite. Mesmo agora ela podia sentir sua presença opressiva ao redor. Parecia que estava tanto deslizando acima — escondida em algum lugar na espessa copa — quanto se movendo sob seus pés, camuflando-se com folhas mortas e geada. Leinore estremeceu e tentou dizer a si mesma que não era nada. Amanhã, outro dia de festival começaria, e ela precisaria ser seu rosto brilhante e feliz mais uma vez.


Em uma cidade, todas as estradas levam a uma igreja. Ou pelo menos Leinore ouvira as pessoas dizerem isso. Pessoas que viajaram para lugares como Thraben e viram edifícios maiores do que todas as casas de Kessig juntas.

Em Ulvenwald, todas as estradas levavam ao Celestus. O brilho dourado da estrutura perfurava galhos e folhagens. Seus anéis metálicos alcançavam a copa acima e até mais alto ainda. Leinore podia ver o brilho quando estava deitada em sua tenda à noite.

Ao redor da máquina, as pessoas montaram tendas e barracas para todos os tipos de comércio. Nem mesmo o frio conseguia parar um apetite saudável por moedas. Armas abençoadas eram trocadas por relíquias de família preciosas, peles por couro, poções por pergaminhos mágicos que manteriam seus leitores seguros, ou pelo menos os mercadores prometiam. Se Leinore não soubesse melhor, poderia até ter acreditado em suas promessas. Ela vira magia real nas mãos das bruxas, no entanto, e aquilo não parecia nada com isso.

As pessoas que se sentiam inseguras dormindo na floresta mudaram-se para mais perto do Celestus desde ontem à noite, montando suas tendas entre as demais, amontoando-se como coelhos. As luzes e a multidão devem tê-las feito sentir-se protegidas. Ainda havia risos e música no ar, mas agora havia algo mais selvagem na mistura também. Tudo parecia entorpecido e abafado, e a geada sentava-se em seus ombros como um par de mãos geladas.

Leinore fez o possível para cumprimentar todos que reconhecia, apesar das máscaras, e dar as boas-vindas aos que não conhecia, distribuindo galhos de madeira viva para dar sorte. Sinnia estava alguns passos atrás dela, imitando a irmã e sorrindo, embora Leinore pudesse ouvi-la arrastando os pés.

No centro do Celestus, no topo do estrado, Katilda e seu conclave faziam mais um de seus rituais. Tinham começado de forma simples, com comida e cerveja em abundância e velas brilhantes. Havia dança e cantoria que soavam mais como uivos, mas os habitantes da cidade não pareciam se importar. Muitos deles, incluindo Leinore, sentiam vontade de uivar eles mesmos.

Mas depois dos primeiros dias, seus rituais tornaram-se cada vez mais estranhos. Formas bestiais pareciam dançar dentro das fogueiras junto com as bruxas. Quando as mulheres abriam a boca para proferir invocações, Leinore podia ver torrões de terra preta agarrados aos seus dentes e manchando suas línguas. Beijo de Ghrin-Danu, elas chamavam.

A fantasia de Katilda estava ficando mais extravagante a cada dia que passava, também. Hoje, junto com as ombreiras de grama e o enorme adereço de cabeça destinado a espelhar a glória do sol, ela usava um colar de malha feito com fitas e algum tipo de dentes de animais. Duas linhas carmesins estavam desenhadas sob seus olhos, como lágrimas de sangue.

Leinore apressou o passo, deixando Sinnia para trás.

Rejuvenescedora do Coração da Alvorada | Arte de: Darren Tan
Rejuvenescedora do Coração da Alvorada | Arte de: Darren Tan

Dentes estavam reunidos em uma pilha no meio do círculo do conclave no estrado. Quando Leinore se aproximou do estrado, os dentes não pareciam pertencer a um animal de forma alguma.

Eram muito humanos.

Leinore sentiu seu estômago revirar. As bruxas, murmurando um cântico baixo, estavam prendendo os dentes em colares como amuletos e entregando-os às pessoas. Alguns hesitaram, olhando uns para os outros com claro nojo. Outros agarraram os colares e os enfiaram apressadamente nos bolsos ou cuspiram aos pés das bruxas e se afastaram.

"O que é isso?" Leinore conseguiu dizer.

Katilda ergueu os olhos de seu trabalho. A surpresa estava escrita em seu rosto.

"São dentes," disse ela simplesmente. "Dentes de lobisomem."

"Eles não parecem dentes de lobisomem." Leinore sentiu todos os olhos sobre ela. Ela olhou para a multidão, procurando por Sinnia, mas não conseguiu encontrá-la.

"Bem," Katilda acenou com os braços, ligeiramente ofendida. "Eles voltaram à forma humana após a morte. Mas ainda possuem a essência do lobo."

Leinore tentou não pensar em sua mãe. Em vez disso, seus pensamentos foram para sua irmã, seu pai lá na aldeia, as pessoas reunidas perto do estrado. Ela deveria trazer esperança e luz aos aldeões e, no entanto, aqui estava ela, sentindo toda a luz que tinha deixando seu corpo.

Diga algo , disse para si mesma. Qualquer coisa. Mas o que ela poderia dizer?

"Bruxa."

Leinore reconheceu o homem apenas pelo volume. Jagger sempre fora o caçador mais barulhento de sua aldeia — não uma boa qualidade para um caçador. Ele se achava importante, um líder de todos que se reuniram ali, independentemente de quantas pessoas concordassem com ele. A cada passo, ele parecia chacoalhar. O barulho vinha dos inúmeros amuletos que carregava consigo. Já sendo um homem alto, ele exibira dentes de boi, runas e prata abençoada — ou assim ele afirmava — sobre seu casaco de pele, para se destacar na multidão. Um homem barulhento e irritado. Ele só pioraria as coisas.

"Você roubou esses dos aldeões desaparecidos?"

O estômago de Leinore se contraiu. Alguns dias atrás, ela teria defendido as bruxas sem sombra de dúvida. Mas, por mais que quisesse revirar os olhos para Jagger, ela não tinha certeza de que ele estava errado. Não completamente.

"Desaparecidos?" outra bruxa perguntou, como se a notícia não tivesse chegado a todos.

"Não somos suas inimigas," Katilda desceu do estrado para enfrentar Jagger. "O Festival da Colheita não pode ter sucesso apenas com bruxas. Devemos fazer isso juntos."

"Não confio em alguém que não me diz nada," cuspiu Jagger. "Você nos trouxe aqui, pedindo que ajudássemos. Mas você nos mantém no escuro."

"Não confiem nas bruxas! Digam-nos onde estão os desaparecidos!" As vozes vinham de todos os lados. Elas exigiam respostas. Leinore podia ver os aldeões tornando-se cada vez mais inquietos, prontos para explodir de raiva. Eles vieram aqui em busca de salvação, mas encontraram apenas a mesma escuridão que se podia encontrar em qualquer canto de Innistrad.

"Esperem um minuto!" Leinore gritou para Jagger. "Elas não fizeram nada. Vocês não têm provas."

Jagger desdenhou, gesticulando para os dentes. "Isto não é prova suficiente?" Ele estava fazendo um espetáculo agora. "O que vem a seguir? Elas nos alimentarão com a carne dos mortos?"

"Elas estão aqui para nos ajudar," Leinore fez um esforço patético. Sua mente estava em outro lugar agora. Onde estava Sinnia?

"Sacrificando pessoas!" Jagger moveu-se em direção a Katilda. Ele a superava em altura, apesar de seu adereço de cabeça imponente. Ele poderia facilmente empurrá-la para o lado com um movimento do braço. Leinore podia sentir a bruxa e o resto do conclave preparando-se para uma briga.

"Ninguém está sacrificando pessoas," disse Sinnia. Sua voz veio de algum lugar próximo.

Leinore olhou ao redor, mas não conseguiu encontrá-la. Não conseguiu rastrear a máscara de raposa entre as outras máscaras de cores outonais. Ela tinha certeza, porém, de que aquela era a voz de sua irmã.

Na multidão, Leinore distinguiu o vestido de Sinnia com as folhas vermelhas e laranjas. Seu longo cabelo cacheado balançava de um lado para o outro enquanto a irmã de Leinore caminhava em sua direção. Aquilo pelo menos permanecera igual — sua máscara de raposa não estava mais lá. Em seu lugar, Sinnia usava a nova máscara.

"Você fala como se a floresta não estivesse cheia de perigos desde que nascemos," disse Sinnia enquanto subia no estrado.

Todos pararam, até Jagger e Katilda. Como se alguém os tivesse colocado sob um feitiço, sua raiva morreu tão rápido quanto irrompera.

"Qualquer coisa poderia tê-los levado. Tantas coisas famintas espreitam no escuro. Espíritos vingativos, vampiros, carniçais, lobisomens."

Houve vozes de concordância na multidão agora. Todos olharam para a pilha de dentes como se os vissem pela primeira vez. Seus olhos estavam vidrados, mas ouviam o que Sinnia tinha a dizer como se ela fosse a única que importasse agora. Leinore olhava para a irmã incrédula. Seu estômago revirou devido a um pavor repentino que ela não conseguia explicar.

"Se for o caso, seu fim deveria nos tornar humildes. Não podemos fazer nada enquanto a escuridão cresce. Tragam de volta a luz." Sinnia gesticulou para as velas flutuantes, e elas pareceram queimar com mais brilho, uma nova faísca nascida dentro delas.

"Tragam de volta a luz!" As pessoas gritaram.

Algumas pessoas aplaudiram. Música surgiu de algum lugar no fundo da multidão. Jagger abriu a boca para falar, mas ninguém mais lhe prestava atenção. Nem a Katilda, nem ao conclave. Os aldeões cercavam Sinnia, tocando suas mãos com adoração, puxando-a gentilmente para sua companhia, sua música, suas danças.

Todos estavam felizes e esperançosos, exatamente como no primeiro dia. Até o frio parecia menos amargo agora.

Então por que Leinore tremia de medo?


Quando voltaram para a tenda naquela noite, Sinnia trouxe uma pele que um caçador lhe dera e a jogou para Leinore. Ela ainda usava a máscara.

"Aqueça-se," disse ela. "Serão alguns dias longos."

Leinore não se moveu de seu canto da cama. Cada vez que a máscara olhava para ela, sentia outra presença na tenda com elas. Não a máscara , dizia para si mesma. Sinnia. Cada vez que Sinnia olha para mim.

"Achei que você tivesse dito que deveríamos ir embora," murmurou Leinore.

Sinnia tirou sua fantasia. Pedaços de folhas secas caíram no chão, como uma cobra trocando de pele. Ela manteve a máscara. Agachou-se no chão a poucos centímetros do rosto de Leinore. Seu hálito cheirava a coisas mortas, cinzas e ferrugem. "Não quero mais ir embora. O Enrolado falou comigo hoje, irmã." Sua voz saiu mais profunda, mais rouca. Como se viesse de outro lugar. De outra pessoa. Quando ela sorriu, Leinore pensou ter visto uma língua bifurcada espreitar na fenda entre seus dentes. "A luz retornará a Innistrad."

A opressão que Leinore sentira na noite anterior retornou, só que desta vez pior.

"Você também sente?" perguntou Sinnia, quase encantada demais para se conter. "O Enrolado está vindo à tona."

O ar foi espremido do peito de Leinore por uma presença que se revelava dentro da tenda. Aquilo deixava sua mente nublada. As folhas sussurravam levemente nas árvores, como se algo estivesse escondido, bem acima de suas cabeças. Quando olhou para Sinnia novamente, ela estava deitada imóvel em seu saco de dormir, ainda com a máscara. Não estava dormindo, Leinore tinha certeza. Parecia mais fingir que dormia.


Faziam duas noites que haviam encontrado aquela máscara. Pela décima vez naquela noite, Leinore esmagou uma cobra sob sua bota. Era pequena como um dedo humano, marrom e coberta de bile, como as anteriores. Agitou-se um pouco sob seu sapato, o suficiente para fazê-la estremecer, e então ficou imóvel. Ela já deveria estar acostumada com elas, mas não estava. Aquelas não eram cobras comuns.

De alguma forma, nos últimos dias, Sinnia substituíra Leinore como a Soberana do Festival da Colheita aos olhos dos frequentadores do festival. Ela desfrutava da atenção enquanto esperavam que ela acendesse a primeira lanterna da noite, que fizesse um brinde ao sol do meio-dia. Não apenas estava mais confiante do que antes, mas tinha um efeito estranho nas pessoas. Usar aquela máscara fazia as pessoas a ouvirem de uma forma que não ouviam Leinore ou mesmo Katilda. Se Leinore não conhecesse a irmã, juraria que ela era uma das bruxas, e uma muito poderosa, por sinal.

As mudanças na personalidade de Sinnia, não naturais como pudessem ser, não eram nada comparadas ao que ela podia fazer às pessoas agora. A primeira vez que Leinore assistira àquilo, ficara horrorizada: ela tocava alguém na testa, sussurrava algo baixinho e o aldeão começava a sufocar. Seus olhos reviravam na cabeça até que tossissem uma pequena serpente que se contorcia. Era um pesadelo — e, no entanto, os outros pareciam regozijar-se como se cada nova cobra fosse motivo de celebração.

Celebrar a Colheita | Arte de: Eelis Kyttanen
Celebrar a Colheita | Arte de: Eelis Kyttanen

Os gritos, "Tragam de volta a luz!" subiam da multidão. Os rostos das pessoas estavam contorcidos por uma alegria tão selvagem que Leinore achava os aldeões mais aterrorizantes do que qualquer lobisomem. Eles não conseguiam mais distinguir o que era natural do que era amaldiçoado, e Leinore não tinha certeza se ela também conseguia.

Leinore usou todo o poder que uma irmã mais velha tinha sobre a mais nova para tentar consertar as coisas. Gritou com ela, ameaçou contar ao pai deles, tentou agarrar Sinnia e arrastá-la de volta para a tenda. Mas, é claro, os aldeões interpunham-se entre elas todas as vezes. Uma onda de corpos chocando-se contra o dela e cercando sua irmã. Implorando a Sinnia por mais milagres, mais cobras. Mais luz. Para eles, ela era mais do que a Soberana agora; ela era sua salvadora. Ninguém parecia muito preocupado desta vez com o grupo de pastores de cabras que desaparecera durante a noite. Se Sinnia dizia que estava tudo bem, então estava.

Leinore precisava de sua irmã mais do que nunca, mas a Sinnia que ela conhecia se fora. O último vislumbre que Leinore teve dela naquela noite foi quando Katilda lhe ofereceu um adereço de cabeça de seu conclave em troca de sua máscara. O adereço tinha chifres de cervo em vez de gravetos sinuosos e estava pintado com sangue misturado com lama e folhas. Leinore não estava perto o suficiente, então não conseguiu ouvir o que as duas mulheres disseram uma à outra. Mas Sinnia riu no rosto de Katilda e virou as costas.

Leinore voltou para a tenda primeiro, escondeu-se sob as peles e esperou. Sinnia estava tramando algo. Todas as noites depois que encontrara aquela máscara, ela deixava sua cama e voltava apenas quando a primeira luz fraca aparecia dentro da tenda. Pouco tempo depois, ela ouviu folhas congeladas estalando sob os passos de alguém. Percebeu que era Sinnia pelo modo como a atmosfera mudou, espremendo o ar de seus pulmões. Ela se encolheu em uma bola apertada e fez o possível para desaparecer sob as cobertas.

Quando Sinnia entrou na tenda, foi direto para a cama delas. Leinore estava com os olhos fechados, mas sentiu o olhar escrutinador de sua irmã sobre ela. Manteve a respiração regular e o rosto relaxado, rezando para que seu batimento cardíaco não a traísse. Foram apenas alguns momentos agonizantes, mas pareceram horas. Quando Sinnia teve certeza de que Leinore estava em sono profundo, deixou a tenda. Então ela deslizou lentamente debaixo das peles e levantou-se, ainda vestida.

Leinore seguiu Sinnia noite adentro. A única coisa que Leinore deixou para trás foi sua máscara.


Rastrear os passos de sua irmã foi mais difícil do que ela pensava. Talvez tivesse esperado tempo demais para que Sinnia desaparecesse atrás das árvores altas, e agora sua chance tivesse passado. Leinore moveu-se pela vegetação rasteira congelada por um tempo, sua única luz vindo do brilho distante e desvanecido do Celestus no horizonte, das velas e da lanterna ocasional.

Então ela ouviu o rastejar novamente. Fosse o que fosse, estava se materializando. Era mais do que uma sensação. Tão tangível que ela agora podia ouvir. Parecia distante, mas não havia como negar que era a mesma coisa que ela ouvia há dias, e estava vindo do noroeste, em direção ao coração da floresta. Leinore lambeu os lábios secos e seguiu o ruído.

Não muito tempo depois, ela chegou a um pequeno acampamento composto por cinco tendas, um sinal de que principalmente solitários deveriam estar acampados ali. Antes mesmo de se aproximar, ouviu alguém fazendo um som borbulhante, como se sua cabeça estivesse mergulhada na água. O pânico lutou contra qualquer desejo de ajudar; ela se abaixou atrás de uma tenda enquanto duas figuras surgiam à distância. Tinha certeza de que uma pertencia à sua irmã, Sinnia. A máscara a traía mesmo no escuro. Mas o modo como as duas formas estavam não fazia sentido. Parecia que Sinnia segurava um homem pelo pescoço tão facilmente como se fosse um guaxinim morto. Ela o arrastava sobre folhas e geada, afastando-se do pequeno local de acampamento e entrando mais fundo no coração da floresta.

Ela seguiu as figuras até uma clareira estranha coberta por uma espessa copa de galhos. Leinore parou de repente enquanto sua irmã continuava arrastando o corpo daquele homem em direção a uma rocha oval na borda da clareira.

Não, não era uma rocha. Um ovo.

Era pelo menos tão grande quanto o homem que ela carregava e estava ao lado de uma fileira de muitos outros. Eles eram verde-claro e iridescentes, brilhando no escuro como pequenas bolas de luz. Sinnia tocou o ovo e ele cedeu ao seu toque, abrindo-se como uma flor de couro. Para o horror de Leinore, ela viu a irmã empurrar o homem inconsciente para dentro dele. O ovo fechou-se ao redor dele, envolvendo-o como um útero.

Leinore tentou se mover, mas seus membros pareciam entorpecidos e pesados. Tinha que tentar não deixar seus joelhos cederem. Tarde demais, percebeu que sua irmã não estava sozinha: uma mulher estava nas sombras atrás dos ovos gigantescos. Com um gesto, ela pareceu dispensar Sinnia, para trazer o que Leinore supôs ser a próxima vítima.

Leinore sentiu alguém agarrando seu ombro. Tentou gritar, mas antes que qualquer ar pudesse deixar sua boca, uma mão tapou seu rosto. Em seu ouvido, uma voz familiar sussurrou asperamente: "Não se mova. Lá vem ela."

Por um momento Leinore pensou que Katilda se referia à mulher nas sombras, mas em vez disso Katilda apontou seu cajado para a irmã dela com calma determinação. A borda da madeira sibilou com uma luz não natural, e Leinore pôde sentir o calor em seu rosto enquanto o cajado começava a reunir sua energia mortal. Sem pensar, Leinore mordeu a mão de Katilda. A bruxa uivou de dor e soltou o cajado.

"Sua garota estúpida!" Katilda rosnou enquanto se agachava na vegetação rasteira, tateando em busca de seu cajado. "Eu poderia ter nos salvado."

Foi quando a mulher saiu das sombras e se aproximou, seus olhos brilhando em verde.

Saryth, a Presa da Víbora | Arte de: Igor Kieryluk
Saryth, a Presa da Víbora | Arte de: Igor Kieryluk

"Katilda," a mulher parecia divertida. "É você?"

"Por que você não mirou nela?" gritou Leinore, gesticulando para a mulher desconhecida.

"Saryth não é quem está usando a máscara," disse Katilda, pegando seu cajado. "Todo o poder de Saryth está naquela máscara. Sinnia está consumida por ela. Não há esperança para ela agora."

O chão sob seus pés começou a tremer e a ondular, e Leinore viu-se lutando para permanecer de pé. Podia ver o topo das árvores balançando de um lado para o outro como dançarinos bêbados.

"O que está acontecendo?"

"É o Enrolado. Saryth o chamou para afugentar a escuridão e tem alimentado-o com aqueles habitantes da cidade enfeitiçados por dias." Katilda riu amargamente. "Fui tola por não ver isso antes. Ela destruirá a todos nós."

A terra abaixo de sua irmã fendeu-se, revelando solo preto como sangue em uma ferida. Leinore quis ir até ela, mas era difícil equilibrar-se, quanto mais andar reto. Onde as fissuras se encontravam, terra e árvores afundavam e desapareciam de vista. Logo, havia um buraco escancarado a centímetros de onde Sinnia estava.

Os ovos brilharam mais intensamente, e a mulher a quem Katilda chamara de Saryth ergueu seu cajado, mirando em Leinore e Katilda.

"É a hora!" gritou Saryth.

Um feixe de energia brilhou diante dos olhos de Leinore e, por um instante, ela viu apenas verde. Pensou ter ouvido Sinnia gritar em algum lugar não muito longe, e uma onda de desespero a atingiu. E se o buraco tivesse engolido sua irmã e ela já estivesse atrasada demais?

Quando sua visão clareou novamente, ela o viu saindo do buraco — ou parte dele. Uma parede de carne escamosa contorcendo-se diante de sua irmã. A mente de Leinore congelou tentando absorver a totalidade daquilo, mas não conseguiu. Por mais que esticasse o pescoço; seus olhos humanos não eram suficientes para percebê-lo. Uma sensação nauseante surgiu em seu peito. Não conseguia se mover, seus músculos congelados pelo medo.

"Não olhe para ele!" ouviu Katilda gritar. "Escute-me: se ele a comer enquanto ela usa a máscara, estaremos perdidos. Preciso da sua ajuda."

A bruxa agarrava o braço, ferida pela magia de Saryth. Havia um ferimento de aparência desagradável onde sua manga fora rasgada. O pano estava encharcado de sangue, e pus escorria da carne viva por baixo.

"Devemos destruir Sinnia. A máscara não sairá por si mesma."

Leinore forçou-se a ficar ereta. Cada músculo de seu corpo se tensionou.

"Não ouse tocar na minha irmã. Eu vou tirar a máscara dela."

"Ela já se foi, Leinore!"

"Deixe-me tentar. Você tem que distrair Saryth para mim."

Katilda assentiu.

"Uma chance." Ela ergueu seu cajado e faíscas verdes voaram de sua ponta.

Leinore tropeçou pela terra trêmula, indo em direção à irmã. Ao olhar para a criatura, dois largos olhos negros emergiram da superfície das escamas, impossivelmente grandes.

Não olhe para ele , pensou. Controle-se.

Leinore tocou o braço da irmã para acordá-la de seu estupor. A mão de Sinnia estava gélida, e seus olhos queimavam com uma luz brilhante e terrível, um brilho que parecia a Leinore insuportavelmente antigo. Quando olhou para Leinore através dos buracos dos olhos da máscara, não havia medo, apenas êxtase.

Mas quando Leinore se aproximou, ouviu um sussurro fraco dos lábios de Sinnia.

"Ajude-me."

Um som de estrondo profundo veio do abismo, e Leinore percebeu que ainda não vira a boca da criatura. Ela agarrou o braço frio de Sinnia e puxou. Sinnia deixou que Leinore a guiasse passivamente. Enquanto corriam em direção a um aglomerado de árvores, podia sentir o chão desabar a meros centímetros atrás delas. Pelo canto do olho, viu Saryth mirando seu cajado em Katilda agora. Gavinhas saltaram das árvores, como serpentes vorazes, e envolveram o pescoço da bruxa de sebe. Katilda ergueu a mão livre e xisto explodiu do chão em direção à outra mulher em rajadas irregulares e ondulantes. Um grupo rasgou o conjunto de árvores para o qual Leinore estava correndo; ela se jogou com Sinnia para um lado.

Katilda levantou-se e virou-se para enfrentar Saryth. Ao seu sussurro sinistro, uma rajada de vento chicoteou pelas árvores, reunindo um enxame de folhas que pareciam girar com uma borda afiada como navalha, atacando Saryth. Ela mudou sua posição para anular o número de cortes profundos em sua pele, perdendo o equilíbrio no processo. Por um momento, Leinore pensou que Saryth encontraria apoio e contra-atacaria; o cajado de Saryth estava zumbindo com poder novamente. Mas ela esquecera as muitas fissuras abertas ao seu redor. Em vez de pousar em solo firme, seu pé esquerdo foi direto para uma delas.

Os olhos de Saryth arregalaram-se de surpresa enquanto ela abria os braços, desesperada para agarrar algo, seu cajado caindo de sua mão. Mas não havia nada para agarrar, nenhuma gavinhas restavam. E em um instante, Saryth se fora — engolida pelo abismo.

Leinore agarrou Sinnia, que lutava debilmente em seus braços. A máscara parecia ter se fundido em sua pele. Leinore tentou encontrar uma borda para retirá-la, mas não havia começo nem fim.

O chão estremeceu novamente enquanto a serpente maciça se movia. Sua passagem parecia o fim do mundo, e ela estava vindo para Sinnia. Muito, muito acima de todos eles, o Enrolado abriu uma boca tão larga quanto qualquer abismo, pronto para engolir as duas.

Devemos destruí-la. As palavras de Katilda ecoaram na mente de Leinore. Ela conseguia distinguir a bruxa em algum lugar do outro lado do buraco. O rosto de sua irmã estava tão calmo que a deixava nauseada. Nunca vira ninguém parecer tão em paz, mesmo enquanto a criatura monstruosa se aproximava. Sinnia ainda sussurrava algo. No que tinha certeza de que seriam seus momentos finais, Leinore inclinou-se mais perto para ouvir.

"Arranque-a~"

Leinore estendeu uma mão para a máscara e tocou a pele da irmã. Ou o que parecia ser sua pele. Sem pensar, começou a puxar com toda a força que tinha. Suas unhas afundaram na bochecha de Sinnia e pela primeira vez ela gritou.

Está funcionando.

Ela puxou com mais força.

A máscara começou a rasgar como um pedaço de pergaminho úmido. O hálito do Enrolado era quente e úmido acima delas, vindo em ondas podres horríveis enquanto ele dobrava aquela cabeça tremenda em direção a elas.

Um último puxão.

Sinnia gritou, ou foi a fera?

Quando a máscara saiu, voltou a ser a coisa dura feita de gravetos e folhas. O rosto de Sinnia estava tão vermelho e em carne viva que Leinore quase não a reconheceu. Mas aquele brilho terrível deixara os olhos de Sinnia.

"Sinnia?" Leinore olhou fixamente para o rosto dela por um longo minuto, procurando por sua irmã.

"Obrigada," disse Sinnia, com a voz fraca. Ela piscou algumas vezes e, então, seu olhar focou em Leinore.

Foram interrompidas por um som como um furacão, um bramido de fúria primitiva da criatura massiva que Saryth libertara. Leinore cobriu as orelhas reflexivamente, mas ela parecia estar em agonia. Estava recuando — realmente recuando — para baixo, para baixo, para o abismo de onde viera. Com um último sibilo, o Enrolado arrastou seu corpo para as profundezas da terra, puxando ovos e folhagem circundante para baixo. O chão tremeu mais uma vez antes que Leinore e Sinnia o perdessem de vista.

Leinore soltou a máscara. Enquanto ela caía pelo buraco cavernoso, ela puxou sua irmã para cima com toda a força que lhe restava e, com Katilda, mancaram de volta para o assentamento. Ruídos vinham de diferentes partes da floresta; gritos, choro e até algumas risadas.

Logo, encontraram pessoas tropeçando, perguntando entre si como chegaram ali e em qual dia do festival estavam. Membros do Conclave do Coração da Alvorada guiavam as pessoas gentilmente de volta ao Celestus. Ninguém estava expelindo cobras, e não havia nenhuma na vegetação rasteira também. Apenas folhas e geada sob seus pés. Ninguém parecia se lembrar, e nem uma alma perguntou sobre os ruídos guturais que sacudiram a floresta. Se ainda não houvesse tantos desaparecidos, seria como se nada tivesse acontecido.

Leinore sabia que aquilo não era verdade, no entanto. E pelo olhar no rosto de Sinnia, sabia que sua irmã se lembraria do que acontecera esta noite para sempre. Antes que os frequentadores do festival as envolvessem completamente, Leinore virou-se e olhou de volta para a floresta. Ela sentiu apenas levemente — o sussurro nas árvores, sob a terra, como se uma presença estivesse passando por ela.

A Soberana do Festival da Colheita estremeceu e virou as costas.

Episódio 3: A Queda da Casa Betzold

Autor: K. Arsenault Rivera | Data: 15/09/2021

"Então, quando vocês disseram que se a chave estivesse em Thraben, ela estaria segura..."

Os gemidos dos mortos profanos respondem a Chandra antes que qualquer um dos outros consiga. Kaya aperta o nariz. Teferi já tapou o dele; ele respira pela boca, e ainda assim está ruim. Apesar do sol do meio-dia, as nuvens se juntam para lançar sua sombra sobre os restos da catedral. Até o céu está envergonhado com a visão.

Ver aquilo deixa o estômago de Arlinn em nós. Lá, o pináculo onde ela passava horas ensolaradas lendo, agora entulho espalhado contra a terra; aqui, o vitral que ela tanto estimava, despedaçado. Olhar para a massa fervilhante de mortos-vivos parece uma traição adicional. Ela não quer pensar nas chances de ver alguém que costumava conhecer.

Ela engole em seco. Como formigas em torno de seu formigueiro, os zumbis rodeiam a catedral. Passar por eles não será uma tarefa fácil.

Iluminar a Noite | Arte de: Wei Wei
Iluminar a Noite | Arte de: Wei Wei

"Pode muito bem estar," diz Adeline. "Mas não saberemos até terminarmos nossa investigação."

E eles tinham feito alguma investigação, ou melhor, Kaya tinha. Levou a maior parte de uma semana para chegarem a Thraben — tempo de sobra para analisar as coisas. Um palpite não era suficiente para ela prosseguir. No segundo em que chegaram a Thraben, ela se separou do grupo para fazer algum reconhecimento por conta própria. Onde quer que tenha ido, ela retornou pouco depois com um tomo empoeirado em mãos.

"Página setenta e sete," anunciou ela.

Virar para aquela página mostrava uma iluminura e uma xilogravura renderizadas em grandes detalhes: uma família recebendo uma caixa de uma bruxa que se assemelhava a Katilda. A legenda os identificava como os Betzolds, de Gavony.

Arlinn conhecia um Worrin Betzold de seu tempo na Catedral — um bispo mais velho, rigoroso ao extremo. Seus nós dos dedos doíam só de pensar nele. Mas seu coração também doía, pois ela sabia que se ele estivesse em qualquer lugar... bem, ele estaria lá dentro. Com as massas. E quem sabe quantos de seus velhos amigos.

"Acho que o vejo." A voz de Adeline corta os pensamentos de Arlinn. A cátara aponta com sua espada embainhada para a nave arruinada da catedral. Uma figura em vestimentas sagradas está diante do púlpito. Para o horror de Arlinn, ele parece estar pregando para uma multidão reunida. Os bancos estão cheios de zumbis sentados, aplaudindo, curvando-se e rezando.

O que as Agonias fizeram a este lugar é realmente, verdadeiramente profano. Uma vez, Liliana ressuscitou todos esses zumbis para lutar contra os Eldrazi. Já era ruim o suficiente ter que compartilhar o campo com os mortos-vivos — mas pior era lidar com eles depois. Ela ouvira que alguém perguntou a Liliana o que fazer com todos os zumbis restantes. A história dizia que ela respondeu: "Eles têm muitos usos, sabe; tente pensar de forma criativa."

Pensar nisso a sobrecarrega. Este lugar é uma afronta a tudo o que ela ama. Ela sabe o que ele já foi.

E ela conhece as vestimentas que o homem usa. Cansada, ela assente. É ele.

"Nada a fazer, então," diz Kaya. "Alguém terá que abrir um caminho."

Adeline se impulsiona para cima de seu cavalo — um garanhão branco que ela provavelmente chamou de Raio ou Escudo de Leão ou algo igualmente heroico. Olhando para ela montada nele, é difícil não sentir alguma esperança.

"Podem deixar isso comigo," diz ela. "Meus cátaros e eu lutamos contra os mortos-vivos há anos. Vocês quatro foquem em chegar a Worrin."

Chandra olha para a horda, depois de volta para Adeline. "O quê, e deixar você ficar com toda a luta? Acho que não," diz ela. "Eu te dou cobertura. Vocês três vão atrás de Worrin." O ar ficou nebuloso ao redor dela, aquecendo-se em reflexo de seu entusiasmo sorridente. Não há outra alternativa — Chandra vai se soltar.

O sorriso de Adeline retorna. "Tudo bem. Eu serei a vanguarda, e você assume a retaguarda, Chandra Nalaar," diz ela.

Uma continência de brincadeira é a resposta. Se a situação não fosse tão terrível, isso poderia trazer um sorriso ao rosto de Arlinn. No momento, ela pode sentir uma felicidade distante por elas estarem se dando bem, que desaparece no instante em que ela olha para a nave arruinada.

Não há tempo a perder.

Adeline e os cátaros lideram o ataque, caindo como um martelo sagrado sobre a bigorna dos mortos-vivos. Os comandos de Adeline vêm rápidos e certos, assim como o golpe de sua lâmina. Cabeças caem de corpos como frutas de árvores. Um salta sobre ela apenas para desacelerar no meio do pulo. Raios azuis voam do cajado de Teferi conforme ele retarda o avanço dos mortos-vivos pela coluna central. Não é muito — apenas o menor atraso — mas é o suficiente para Adeline golpear o zumbi de volta com seu escudo e cravar sua espada em sua garganta.

O caminho não ficará aberto por muito tempo.

Pelo sulco de segurança duramente conquistado eles avançam, Kaya oscilando dentro e fora da existência, Arlinn se transformando no meio do caminho. Os braços invasores dos mortos têm um gosto imundo em sua boca; ela os evita sempre que possível, golpeando rostos, dentes e pés com as garras que a natureza lhe deu. Ainda assim, a saliva cai em seu pelo; ainda assim, os rosnados rastejam em seus ouvidos; ainda assim, o fedor deles tranca sua garganta.

Mas não é até que Chandra assume a retaguarda que Arlinn sente qualquer tipo de segurança. Duas grandes cortinas de chama voam de suas mãos, substituindo as paredes agora enfraquecidas da magia de Teferi por algo muito mais sólido. Até os mortos temem o fogo, como Thalia havia mostrado a todos: eles gritam como um só, recuando do calor causticante, alargando a lacuna entre os heróis e os mortos-vivos. No entanto, ela não parou por ali — conforme os outros avançam, Chandra se vira para enfrentar as massas, o fogo que ela conjura como o próprio sopro da vida. Havia zumbis ali, outrora, e agora eles são cinzas ao vento.

Adeline arrisca um olhar por cima do ombro enquanto Chandra os banha em luz laranja, para a piromante no coração de seu elemento, cercada por destruição salvadora de vidas.

Arlinn não sabe o que Adeline está pensando, mas sabe seus próprios pensamentos: ela nunca deveria, sob nenhuma circunstância, irritar Chandra Nalaar.

Não é fácil entrar na igreja, mas é mais fácil entre o fogo e a espada. As paredes se erguem ao redor deles e depois desmoronam, quebradas pelas Agonias e retorcidas em algo novo. O gemido sem palavras de Worrin fica cada vez mais próximo. Chamas lambem as paredes outrora sagradas e, embora doa, Arlinn espera que seja uma espécie de purificação.

"Já o pegaram?" Chandra grita. É difícil ouvi-la acima do rugido das chamas, mas Arlinn ouve. Ela dispara à frente.

Adeline o encurralou contra uma parede, murmurando mecanicamente orações que um dia ensinou a Arlinn. Conforme ela volta à sua forma humana, os olhos reumatizados e mortos-vivos dele focam mais uma vez. Quando sua boca se move, é para moldar o nome dela. Ele aponta para ela, ou talvez para sua carne suculenta. Arlinn quer acreditar que é o primeiro.

"Worrin, sou eu," diz Arlinn. "Você me reconhece, certo?"

"Dennick?" é a resposta. Ela olha por cima do ombro — Chandra se aproximou com o resto deles. Adeline e os cátaros se espalham em um círculo ao redor de Arlinn e Worrin.

"Worrin," diz Arlinn, forçando-se a parecer calma diante desta aberração que ela um dia conheceu, "estamos procurando a Chave de Prata Lunar. Você sabe onde ela está?"

Os olhos dele piscam, um após o outro. Suas mandíbulas desdentadas se chocam.

Silêncio.

O tilintar da espada de Adeline contra os mortos, o ímpeto do fogo. Os olhos de Kaya e Teferi nela.

"A chave, Worrin," diz Arlinn. Que o Anjo a salve, ela coloca as mãos nos ombros dele. He can't look away from her now.

"Dennick," a resposta dele.

"Arlinn, não temos muito tempo!" Adeline grita.

"A chave, " Arlinn repete.

"D... Dennick..."

Arlinn pragueja baixinho. "Acho que já conseguimos tudo o que podíamos dele!"

"Ótimo," diz Chandra. "Desta vez, Addy, você cuida das minhas costas!"

E enquanto o fogo toma a catedral novamente, Arlinn dá a Worrin o único descanso que pode, um estalo , uma oração, uma esperança por algo melhor.


Você acha que conhece uma pessoa, mas muitas vezes conhece apenas uma parte dela. Worrin em vida era um instrutor tão rigoroso quanto se poderia ser. Arlinn não conseguia se lembrar de ter falado com ele sobre qualquer outra coisa além de teologia e, embora suas respostas fossem sempre bem fundamentadas, ela sempre o imaginou como o tipo de homem que havia entregado sua vida à igreja. Ocasionalmente, ele mencionava sua juventude em Gavony, mas era só até ali que chegava.

Mas as pessoas raramente são tão simples e, conforme chegam ao tranquilo vilarejo de Gavony que os Betzolds chamavam de lar, começam a fazer perguntas.

"Worrin e Dennick?" diz uma mulher, limpando a geada das abóboras que passou a estação inteira cultivando. A idade avançada não a impediu de cuidar das plantações, e suas mãos se movem com precisão treinada. "Pff. Acho que já era hora de alguém vir procurar."

Arlinn se ajoelha ao lado dela. "É mesmo? Bem, desculpe por demorarmos tanto. A neve nos atrasou."

"Não tem neve suficiente para isso," a mulher responde. "É apenas geada. Você já tem idade suficiente para saber que não deve usar isso como desculpa."

Arlinn se permite um pequeno sorriso. Não importa para quantos Planos ela fosse, nunca há lugar como o lar. "Você tem razão, você tem razão," ela responde. A neve é leve — seu toque é suficiente para derretê-la. "But maybe you can fill me in, anyway."

A velha fixa Arlinn with a look. "Você chegou tarde demais."

"Tarde demais?" Arlinn repete, franzindo a testa.

"Se ele não estava morto antes das Agonias, está agora," diz ela. "Ele se trancou na velha mansão da família. Por segurança, disse ele. Não o vejo desde então. O lugar é terrivelmente assombrado."

Arlinn olha por cima do ombro. A casa dos Betzold repousa em uma colina, e ela pode ver suas janelas escancaradas daqui. "Mas por que ir para lá se é tão assombrado?"

The old woman pats her hands clean. "Porque Dennick é o filho de Worrin."


As Agonias quebraram tudo em Innistrad, mas algumas coisas foram refeitas. Mãos firmes e desesperadas retrabalharam os símbolos avacynianos distorcidos na estrada de volta às suas formas antigas, quebrando a pedra em favor da madeira ou do ferro bruto. Eles passam por casas despedaçadas e construídas a partir de peças vizinhas, como se um costureiro tivesse passado por elas. As pessoas são as mesmas: alguns carregando suas cicatrizes por dentro, alguns simplesmente mantendo um olhar mais atento em seus filhos, alguns agarrando membros protéticos enquanto observam os recém-chegados passarem pela cidade.

Innistrad quebra. Innistrad constrói. Innistrad sobrevive.

É um bom pensamento, mas a mansão o desmente: a casa dos Betzold é tão degradada quanto se pode ser, e maligna ainda por cima. Maligna é a palavra para descrevê-la, Arlinn tem certeza — pela forma como as janelas os olham de cima, a forma como as videiras arranham sua face de pedra e a boca de sua porta está aberta.

Arlinn não gosta de olhar para ela. Mas ela vai.

Dos cinco, é Kaya quem parece menos perturbada. Conforme se aproximam da casa, ela não mostra sinal algum de medo. A porta bocejante da mansão não a abala. Ela a olha de cima a baixo, franzindo as sobrancelhas, e então toca o nariz com o polegar. "Então, ele está lá dentro?"

Arlinn assente.

"Com um bando de espíritos malévolos, certo?"

"Com certeza parece o lugar para isso," diz Chandra.

"Eu tenho alguns símbolos sagrados —" Adeline começa, mas Kaya a dispensa com um gesto.

"Não se incomode," diz ela. "Apenas me dê cinco minutos antes de seguirem."

Exorcismo de Thraben | Arte de: Matt Stewart
Exorcismo de Thraben | Arte de: Matt Stewart

E, fiel ao seu estilo, Kaya não se dá ao trabalho de esperar por permissão. Para dentro das mandíbulas do lugar ela vai. O nariz de Arlinn formiga conforme o aroma agudo da magia de Kaya enche o ar, seguido pelo zumbido baixo que ela passou a associar a isso. Adeline vai até uma das janelas quebradas para espiar. Chandra a segue, ocupando a mesma janela. Pela reação delas, há muito o que ver.

É difícil resistir à tentação, às vezes. Amargamente, ela pensa consigo mesma que Tovolar diria o mesmo. Restrição é uma coisa humana e não selvagem. Entregue-se às suas paixões e instintos — eles sempre sabem o que é melhor. Foi isso que ele a ensinou.

A Igreja a ensinou o contrário.

Ela pressiona o rosto contra a janela. Lá dentro, um rastro de branco acinzentado dá origem à forma fantasmagórica de Kaya. Mas não é o único fantasma presente. A velha tinha razão: o lugar é terrivelmente assombrado, mas não será por muito tempo. Kaya os está derrotando a uma velocidade incrível. É difícil seguir sua forma conforme ela pula de um dos fantasmas para o próximo, aqui cravando uma faca em uma costa e ali golpeando gargantas fantasmagóricas. Arlinn não consegue evitar se perguntar para onde os espíritos estão indo depois, se este é o Sono Abençoado vindo buscá-los ou algo mais.

Talvez ela pergunte mais tarde.

Por ora, a sala está livre de ameaças sobrenaturais. Chandra é a primeira a entrar, depois Adeline logo atrás e Arlinn em seguida. Teferi assume a retaguarda desta vez. Os fantasmas não parecem incomodá-lo muito; ele se move com a mesma calma acolhedora de sempre.

Mas há outro andar.

Lá vão eles, degrau por degrau rangente, respiração suspensa, o zumbido ficando cada vez mais alto atrás da porta decrépita. Chandra faz menção de abrir a porta, mas Adeline a impede com uma mão em seu ombro.

"Deixe-me ir," diz ela. "Você estará mais segura atrás de mim."

Adeline teria saído de algum conto de fadas? Há o cavalheirismo, sim, mas também a forma como ela estilhaça a porta quando joga todo o seu peso contra ela. Lá dentro, Kaya está encostada casualmente perto de um dos fantasmas. Ela saúda os outros com uma reverência sarcástica enquanto eles invadem.

"Aqui está o seu homem," diz ela. "Simples e fácil."

O zumbido de Teferi é de diversão. "Isso levou menos de cinco minutos."

"Irônico, vindo de você," Kaya responde. "Você não simplesmente inventa o tempo conforme avança?"

"Se fosse apenas tão fácil," diz ele. Teferi olha por cima do ombro, seu sorriso suavizando-se com simpatia. He gestures to the floating ghost — um homem com não mais de trinta anos, o esqueleto preso sob um pedaço de entulho, presumivelmente o dele. Eles estão usando as mesmas roupas rústicas. "Depois de você."

Arlinn não espera. Ela se aproxima dele, resistindo ao impulso de apertar sua mão. "Dennick? Meu nome é Arlinn Kord. Eu era uma amiga de seu pai."

Que estranho ver os olhos de um fantasma se arregalarem. "Meu pai? Ele mandou me buscar?"

Dennick, Aparição Piedosa | Arte de: Chris Rallis
Dennick, Aparição Piedosa | Arte de: Chris Rallis

Sempre melhor dizer a verdade onde puder, não importa o quão feia seja. "Não posso dizer que ele mandou. Seu pai está morto. Eu mesma o pus para descansar, mas você deve saber que ele estava chamando por você até o fim."

"Pô-lo para descansar?" o fantasma mexe os dedos preocupados. "Isso significa que ele é... um morto-vivo?"

"Ele era," ela responde. "É melhor não remoer isso. Mas vim perguntar sobre algo muito importante, algo que sua família guarda —"

"Ah. Esta não é uma visita social?"

"Não, não é," diz Arlinn. "Por favor. Se você sabe qualquer coisa sobre a Chave de Prata Lunar, Innistrad precisa dela. As noites estão ficando mais longas; precisamos dela para um ritual para consertar as coisas."

"Eu pensei que com todas essas pessoas, talvez fosse uma visita social," Dennick responde. Mexe, mexe. "A maioria das pessoas quer a chave. Eu nunca a vi. Eu não era um Betzold de verdade, meu pai dizia."

"Então ele estava sendo um tolo quanto a isso," diz Arlinn. "Aqui está você na mansão, igual a qualquer Betzold. E se você pudesse nos dizer onde a chave está, bem, você estaria cumprindo o dever de sua família melhor do que qualquer um dos outros."

De alguma forma, o fantasma suspira. "Acho que estou," ele responde. "Tudo bem. Bem... eu andei pesquisando aqui também, porque ouvi falar sobre isso e... acontece que não a temos. Meu bisavô a entregou a um dos vampiros para custódia. Não é bobagem?"

Kaya aperta o nariz novamente.

Chandra inspira fundo. Ela levanta um dedo. "Com licença, mas posso perguntar qual vampiro?"

Dennick suspira. "Vocês me deixarão descansar se eu disser?"

"Se é isso que você gostaria," diz Arlinn. "Mas seria mais fácil descansar se você soubesse que Innistrad não está em perigo, certo?"

He rolls his head as if thinking it over. Então: "São os Markov. Aquele príncipe deles, ele a levou. Meu pai disse que sentia minha falta?"

"Eu tive o pior pressentimento sobre isso," diz Chandra, a meio caminho da porta, mas Arlinn fica para trás.

Dennick quer alguém com quem conversar. O mínimo que ela pode fazer é ouvir — pelo menos por um momento.


Innistrad se reconstrói.

Até os vampiros.

Por mais caos que tenham causado, por mais que seu estômago ronque com o cheiro, por mais que ela os odeie — Arlinn tem que admitir que há algo de reconfortante nisso. As Agonias não pouparam ninguém. Por mais que os habitantes das trevas tentassem aniquilar a humanidade, não faz muito tempo, todos lutaram do mesmo lado.

Arlinn espera que possam lutar novamente.

Os outros marcham à frente. Chandra está inquieta; ela não gosta da ideia de entrar na toca da serpente. Kaya também não. Mas Arlinn entende algo que elas não entendem: este foi outrora um lugar onde as pessoas encontravam esperança. E é algo que os outros sabem — mas não entendem. Não realmente. Ter tamanha fome em sua barriga e, ainda assim, agir contra esses instintos bestiais pelo bem maior... ela não gosta de Sorin Markov, mas consegue respeitá-lo.

E ela consegue respeitar a memória do anjo que lhe deu esperança quando a esperança era tão furtiva quanto aquele cervo branco.

Assim, enquanto os outros avançam, Arlinn faz uma pausa do lado de fora dos portões. Videiras tomaram as metades quebradas de um símbolo avacyniano. Cortando-as com suas unhas afiadas, ela endireita o símbolo e começa uma oração.

"Proteja-nos durante a noite, ó Anjo..."

Para sua surpresa, outra voz se junta, a de Adeline, pelo som.

A de Teferi segue, com um pequeno atraso, conforme ele aprende as palavras.

Chandra se junta depois, um pouco rápido demais, tropeçando aqui e ali, mas tentando o seu melhor.

E por último — com um pequeno suspiro — vem Kaya, entrando quando já estavam quase terminando.

Quando terminam, trocam sorrisos suaves e entram.

Ninguém pergunta a ela por que reza para um anjo que não pode mais ouvi-la.


Pessoas que dizem que cruzarão as pontes quando chegarem a elas não estiveram na mansão Markov. A fina faixa de rocha que leva ao lugar já seria intimidante o suficiente em tempos normais, erguendo-se como se ergue sobre a boca bocejante de um abismo, mas as Agonias chegaram aqui também. A ponte flutua em pedaços. Pular de pedaço em pedaço é a única maneira de se aproximar do castelo em ruínas. As faces quebradas dos anciões Markov servem como terríveis pedras de travessia.

Lá dentro, não é muito melhor. Cálices jazem sob uma camada de poeira; espaldeiras que fariam um vilarejo mendigar são apenas pedras em que tropeçar; os retratos que não foram despedaçados desbotaram até ficarem pretos. Pior — não cheira a morte aqui, nem a podridão, nem mesmo a sangue — não cheira a nada.

"Quais são as chances de não haver ninguém em casa?" Chandra pergunta.

"Quase nulas," diz Kaya. "O lugar está ruim, mas não está abandonado a esse ponto." Ela aponta para o candelabro sobre suas cabeças. "Alguém trocou as velas."

"Provavelmente um escravo," diz Adeline. "Mas Kaya tem razão — temos que manter a guarda alta."

"Mas e se ele não estiver aqui? Então podemos simplesmente roubar a chave sem ter que falar com ele."

"Vamos torcer para que ele não esteja," diz Arlinn, "mas é melhor assumir que está. Além disso, tenho certeza de que ele pode ser convencido."

Mas, enquanto ela diz isso, passam por um afloramento particular de rocha, um que não é bem como os seus vizinhos. Onde os outros são coisas afiadas e retorcidas — adagas apontadas para um inimigo invisível — este é uma ferida aberta na face da mansão Markov. Aqui, os sulcos são piores do que em qualquer outro lugar, concentrados em dois longos sulcos em cada lado. A borda dele é igualmente áspera, com as pontas parecendo desconfortavelmente como se tivessem sido roídas. Splotches of dried blood only make the sight more gruesome.

"Não gosto da aparência disso," diz Adeline.

"Não posso dizer que eu goste também," diz Teferi.

Kaya faz um pequeno som. Seus olhos se estreitam. "Não deve mais ter dentes, seja lá o que for."

"Sorin saberá o que aconteceu. Talvez não sejamos os únicos atrás da chave," diz Arlinn.

"Se ele estiver sequer aqui," diz Chandra.

Mas ele está. Ele tem que estar. Depois de tudo isso, deixá-lo escapar... Arlinn range os dentes. Ela vai encontrar aquela chave de um jeito ou de outro. Tovolar quer arrancar o coração de Innistrad de seu peito; ela não pode deixar que isso aconteça.

"Se ele estiver em algum lugar, é na sala do trono," diz Arlinn.

"Deve ser logo à frente," diz Kaya. "Todos os retratos neste corredor. Ele não pode levar a lugar algum exceto à sala do trono."

She has a point. Não sobraram muitas imagens, mas há o suficiente . Sem mencionar o portão à frente deles: uma coisa grande e imponente, esculpida com os rostos rosnantes de morcegos, agora parcialmente fora de suas dobradiças. Quando chegam a ele, Arlinn precisa se transformar em sua forma de lobo para escancarar as portas. Adeline eyes her as she shifts back. Arlinn oferece a ela um sorriso amigável.

"Não se preocupe, eu sou domesticada," diz ela. Brincar sobre isso às vezes deixa as pessoas à vontade, embora hoje em dia ela não tenha certeza do quão preciso é dizer isso. Back in the woods, she'd come so close to running off.

Mas ela é Arlinn hoje, e planeja continuar assim — mesmo quando, na empoeirada sala do trono, encontram o príncipe à espera deles.

Sorin Markov está sentado com uma perna jogada sobre o trono quebrado de sua casa. Ele está lendo um livro antigo, sem marcações, algo como um diário. Um buraco no teto lança um único raio de luar sobre sua pele cinzenta. Cercado pelo esplendor vazio da mansão abandonada, ele compõe uma visão estranha.

Embora ele não olhe para eles quando entram, Arlinn pode sentir o ressentimento emanando dele. Sua voz é vigorosa e arrogante. "Declarem seu propósito por me perturbarem agora, ou eu mesmo tratarei de pôr todos vocês para fora."

"Sorin," diz Teferi. Of course it's him stepping forth. Of course he shows no signs of intimidation. A reverência de corte que ele consegue faria qualquer aristocrat passar vergonha. "Um prazer vê-lo novamente. Temos apenas um pequeno assunto de negócios para tratar. Seremos breves."

The vampire glances up over the edge of his book. "Eu conheço você bem o suficiente para não depositar fé alguma em sua definição de brevidade. O motivo, agora."

Os ombros de Teferi se erguem em um dar de ombros, como se dissesse que tentou. "Estamos procurando a Chave de Prata Lunar. As noites estão ficando—"

Sorin fecha o livro com um estalo. "Não."

"Como assim, não ?" diz Chandra. "Passamos uma eternidade procurando por ela. O mínimo que você poderia fazer é nos ouvir."

His eyes fix on hers. Chandra para de falar. Há algo predatório no homem, e ainda assim algo encantador, também. Arlinn conheceu muitos sugadores de sangue em seu tempo, mas nenhum como ele. Era como a diferença entre cães e lobos.

E sim, há algo carnívoro na forma como ele se levanta, a forma como lança o livro de lado, os passos que dá e a postura que assume — sua mão descansando perfeitamente sobre o pomo de sua espada. "Eu não posso esperar que alguém tão impetuoso entenda o quanto eu já sacrifiquei por este Plano. Se minha família ," ele praticamente rosna a palavra, "tanto deseja descender ao hedonismo inútil da noite eterna, então eu já fiz o suficiente para impedi-los. Que eles se banqueteiem."

Teferi levanta as mãos, parando logo à frente de Chandra. "Se você não quer ouvi-la, ouça a mim. Innistrad é sua família, Sorin, todos nós sabemos disso. Você fez mais do que o suficiente. Estamos pedindo a chave para que possamos fazer a nossa parte. Arlinn aqui não quer ver a noite eterna mais do que você."

"É mesmo?" ele responde. "Rogo que me diga o que você fez pelo Plano. Vá em frente, estou ouvindo." Agora ele está avançando, agora a espada desliza da bainha, agora a fera no sangue de Arlinn clama para que ela se transforme.

Mas ela não o faz. Ainda não. Ela finca seus calcanhares no chão pedregoso. "Talvez eu não tenha a sua história, mas nos últimos anos tenho viajado pelo lugar, ouvindo as pessoas. Eu pensei que você entenderia melhor do que ninguém por que os humanos precisam viver. Você criou Ava—"

She's not through the name before the sword's swinging through the air. São apenas seus próprios reflexos sobrenaturais que a mantêm a salvo — ela ergue um braço para aparar o lado chato da lâmina. Ainda assim, o aço morde a carne; um rastro de vermelho pinta o chão; vapor negro arde em seus olhos. Teeth grow longer in her mouth. Aqueles olhos dourados estão queimando na escuridão.

"Você ," ele ruge, "não tem permissão para falar dela."

"Você já esqueceu por que a criou?" diz ela. Chandra já tem fogos acesos; ela sinaliza para Arlinn por cima do ombro dele. All it would take is a word for the other four to descend on him, mas ela não quer isso. Ainda não. "Precisamos de anjos. Precisamos de esperança, precisamos de fé. Precisamos do dia — e precisamos da chave."

"Saiam," ele grita. As paredes vazias transformam o grito em um eco vicioso. "Agora ."

"Não sem a chave," Arlinn responde, tão firme quanto ele. "Talvez você tenha esquecido, mas eu não esqueci."

Up the sword, another strike coming as his anger gets the better of him. Arlinn ergue o braço novamente.

Mas não há necessidade. Uma pena cai entre eles, dourada e brilhante, seguida um instante depois por uma foice com cabeça de garça. A espada de Sorin tilinta contra a arma angelical; ele recua em fúria nua para contemplar a intrusa.

E pode ser o meio da noite, pode ser um tempo frio e sombrio, pode ser o começo do fim de Innistrad, mas a luz dourada que inunda a sala do trono traz consigo uma onda de esperança ao fôlego de Arlinn. Assim como o fervor sagrado do anjo diante dela.

Avacyn pode não ouvir mais as orações.

Mas Sigarda ouve.

Sigarda, Campeã da Luz | Arte de: Howard Lyon
Sigarda, Campeã da Luz | Arte de: Howard Lyon

"Sorin Markov," diz ela. Sua voz é ressonante, com um leve eco que a projeta como mais do que humana. "Quão baixo você caiu. Abrindo seu caminho para fora da pedra apenas para se amuar."

That pit — era ele ? Que estranho, sentir pena de um príncipe vampiro centenário.

Stranger still quando esse mesmo homem aponta sua lâmina para um anjo. "O que você quer que eu faça? Já que você claramente tem todas as respostas. Vá em frente, explique. Ou isso ou junte-se a eles e saia daqui."

Os olhos dourados de Sigarda se estreitam. Ela não os desvia de Sorin, no entanto, quando fala, parece que está ao lado de Arlinn. "Arlinn Kord — é a sua fé que me convocou aqui. A causa em seu coração é justa. Você encontrará a Chave de Prata Lunar nos aposentos pessoais de Sorin no terceiro andar. Vá. Pretendo falar com ele sobre sua antiga criação."

Chandra e Kaya não precisam que lhes digam duas vezes — elas correm para a escadaria. "Obrigada, Sigarda!" grita Chandra, os pés contra os tapetes felpudos. Teferi vai logo atrás, parando apenas o suficiente para oferecer uma reverência respeitosa.

Mas Arlinn e Adeline permanecem, mesmo quando Sigarda desce a foice sobre ele, mesmo quando as feições dele se tornam mais bestiais diante do perigo. Um certo pavor sagrado as prendeu ao lugar. Is it not the place of the faithful to aid their idols? As duas trocam um olhar. Adeline ergue o seu escudo.

"Vão !" clama o anjo, com a espada de Sorin golpeando sua armadura. "Se vocês já tiveram qualquer fé em mim, vocês irão!"

Arlinn engole em seco. Ela quer ajudar. Adeline aperta o braço dela. "Nós apenas ficaríamos no caminho," ela murmura, tão desanimada quanto Arlinn se sente.

E talvez ela tenha razão.

Mas isso não faz com que pareça melhor.

Escada acima Arlinn vai, seguindo os passos de Adeline, tentando não prestar atenção aos uivos de dor que se seguem, tentando não contar quantos pertencem ao anjo e quantos ao vampiro. That is, in and of itself, faith.

É Chandra quem encontra o quarto — adornado com estantes de livros e armas antigas — e Teferi quem encontra a Chave de Prata Lunar. Ela repousa nas mãos em oferta de uma estátua. Sorin deve ter decepado a cabeça dela, mas a armadura e as asas deixam pouca dúvida de quem costumava ser. A Avacyn sem cabeça está sob um retrato de um jovem Sorin e seu avô vestidos em suas melhores roupas.

Chave de Prata Lunar | Arte de: Joseph Meehan
Chave de Prata Lunar | Arte de: Joseph Meehan

Arlinn pega a chave.

Pela segunda vez naquele dia, ela sussurra uma oração.

Desta vez, ela reza para que Sigarda esteja segura e para que eles voltem a tempo para a Maré de Colheita.

Mas é algo estranho rezar a um anjo por sua própria segurança, e mais estranho ainda pedir que ele distorça o tempo.

Nada é garantido em Innistrad — mas eles tentarão sobreviver, tentarão resistir e olharão mais uma vez para a luz sagrada do dia.

Seus Olhos, Todos Eles

Autor: Margaret Killjoy | Data: 17/09/2021

O Plano estava pacífico no escuro. A lua era um crescente minguante, superada pelas nuvens, e havia luz apenas o suficiente para captar a geada que revestia a estrada. Enquanto Vadrik mantinha os dois olhos nos paralelepípedos e nos campos de grãos em busca de problemas, ele estava confortável o suficiente. Feliz o suficiente. Fazer um trabalho simples, voltar para casa para seu marido Hailin.

Ele não amava estar tão longe de sua torre de farol em Nephalia — nem de suas cartas e seus estudos, nem de seu cavalete, nem de seu cônjuge — mas ele tinha responsabilidades como um dos mais proeminentes astronomantes em Innistrad que simplesmente não podiam ser evitadas. Com Jenrik morto, havia muito mais trabalho a fazer. Ele sentia falta de seu velho amigo.

Vadrik, Arquimago Astral | Arte de: Kieran Yanner
Vadrik, Arquimago Astral | Arte de: Kieran Yanner

O pedido de ajuda viera de Lambholt, onde seu marido nascera. Você simplesmente não deixa passar a oportunidade de ser um herói para seus entes queridos, mesmo quando isso o arrasta para longe de seu trabalho.

Mais importante, um pouco de aventura certamente limparia sua cabeça, ajudaria-o a se concentrar em seus estudos, pelo menos de acordo com Hailin. Ele cavalgou seu cavalo de aluguel através de sarças e bagas, sobre a ponte de espinhos, através das terras agrícolas que almas corajosas haviam esculpido na Ulvenwald.

Ele contornou a última curva e viu a vila agrícola de Lambholt siluetada contra o céu em toda a sua modesta glória.

Ele estava a menos de sessenta metros de distância quando um dardo de besta voou por sua cabeça e se enterrou até a metade das penas em um amieiro próximo. Esse não era o tipo de boas-vindas que Vadrik esperava.

"Desculpas," gritou uma figura encapuzada do posto de guarda de madeira instalado na modesta paliçada da cidade. "Poderia jurar que vi algo~ logo ali atrás de você no escuro."

Sempre esses camponeses com seu medo do escuro. Era Innistrad — havia coisas a temer no escuro. Mas nem todo pedaço de sombra escondia lobisomens ou fantasmas. Mesmo aquelas criaturas, até mesmo as piores ainda, podiam ser compreendidas, podiam ser combatidas. Não havia necessidade de temer, de se acovardar. Os monstros mais vis podiam ser derrotados com magia e a aplicação de inteligência, não com superstição ou, pior, ideias mal pensadas e bestas engatilhadas apontadas para a escuridão.

"Eu sou Vadrik, de Nephalia," gritou Vadrik, com certa arrogância tendo escapado em sua voz espontaneamente. "Fui chamado aqui pelas anciãs e mães de sua vila, vim ver sobre os mortos."

"Você é muito bem-vindo aqui. Eu só poderia jurar que vi~" a voz sumiu em um murmurrio.

Vadrik se virou, mas é claro que não havia nada atrás dele. Apenas algumas árvores finas de sentinela sobre um campo em pousio. Proteções elaboradas protegiam a si mesmo e a seu cavalo de ameaças mundanas, e seus sentidos haviam sido tão aguçados por quatro décadas de trabalho mágico que nenhuma besta morta poderia se aproximar dele sem ser ouvida.

Ele deu um toque nas rédeas e seu cavalo seguiu em frente para dentro da vila.


Velho Dedos de Graveto, portador do terror Sabe quando os filhos desobedecem Se você está relaxando, ele está atacando Você fez suas tarefas hoje?

Apesar da hora tardia, apesar da neblina fria, apesar da brilhante camada de gelo que já se formava em todas as superfícies com a chegada do frio da noite, um grupo de crianças corria pelas ruas cantando e rindo. Elas pareciam, em seu jeito brincalhão, estar seguindo-o, ocasionalmente cruzando seu caminho ou seguindo seus calcanhares, mas sempre fora de alcance. A cantiga de ninar era um jogral: uma criança cantava a primeira linha, outra a segunda, então todo o coro delas a terceira.

A presença do Velho Dedos de Graveto paira Dentro de cada árvore oca Não saia escondido ou você gritará E ninguém se lembrará de ti

Hailin era cheio de rimas estranhas como aquela, que ele cantava às vezes lavando a louça após o jantar. Vadrik nunca ouvira seu marido cantar essa em particular.

Depois de acomodar seu cavalo na estalagem, foi fácil encontrar a prefeitura, uma vez e meia maior que a estalagem, que por sua vez era uma vez e meia maior que as maiores casas e oficinas. Lambholt não tinha mais de trinta casas e salões dentro das paliçadas, presumivelmente onde os artesãos e comerciantes viviam. O restante da população provavelmente estava espalhado em casas de pedra simples nos campos e pastagens.

O salão era simples e robusto, com três metros de pedra e depois estrutura de madeira subindo até um telhado com águas íngremes projetado para escoar tanto a neve quanto a chuva. Um campanário simples de madeira ficava no topo de tudo. As janelas do salão eram de vitral e antigas, retratando o que Vadrik supôs ser a história da cidade: a derrubada de árvores antigas, a batalha contra feras antigas. Em frente ao salão havia um espaço público com mesas e cadeiras, onde em tempo bom os aldeões podiam se reunir para as refeições.

Vadrik entrou. Iluminado por lanternas de sebo em todos os cantos, aquecido por uma enorme lareira de pedra, guardado por dois fazendeiros com besta e lança, ele entendeu imediatamente o que aquele lugar significava para o povo de Lambholt: segurança. Quantas vezes, ao longo de quantas gerações, os habitantes de Lambholt haviam recuado para a segurança daquelas grossas paredes de pedra e esperado pelo amanhecer ou pelo resgate?

Um grupo de dez mulheres sentava-se em um semicírculo de cadeiras na entrada do salão. O conselho de anciãs e mães. As anciãs usavam mantos que mostravam sua idade, desde as mais jovens em cores pálidas e brilhantes até a mais velha, totalmente de preto, e todos os gradientes intermediários. Alguém mais estava com elas, um homem. Capa vermelha, roupas de couro marrom, rapieira ao lado, uma grande espada bastarda nas costas. Não apenas um homem, um inquisidor, de costas para a porta.

"Ah, ótimo," o homem disse, enquanto Vadrik se aproximava. "Estou morrendo por um pouco de cerveja." Ele se virou, viu Vadrik, e então franziu a testa. "Você não é um servo. Um arquimago? O que você está fazendo aqui?"

"Eu poderia perguntar o mesmo de você," disse Vadrik. Mesmo além de seu desagrado instintivo pelos inquisidores — toda bravata, sem cérebro — ele não gostou do tom do homem. Vilas não eram lugares com servos e estavam muito melhor assim.

"Agora não fiquem zangados," disse a segunda anciã mais velha. "Nenhum de vocês dois." Sua voz ecoou grave e clara de sob o capuz cinza escuro que a deixava na sombra.

"Eu pararei de ficar zangado no momento em que alguém explicar o que diabos um arquimago está fazendo aqui."

"Nós o chamamos," disse a anciã em cinza escuro. "Vadrik de Nephalia, conheça Rem Karolus."

"Eu o conheço de reputação," disse Vadrik. "E compartilho da confusão dele. Se me chamaram, por que chamar um caçador de monstros?"

"Nós chamamos você, Vadrik de Nephalia. Dein Salvasi, que seu corpo descanse, para sempre enterrado, chamou Rem."

"Rem Karolus," disse Rem. "Ou Inquisidor Karolus."

Arrogância sobre arrogância.

Rem Karolus, Caçador Destemido | Arte de: Francisco Miyara
Rem Karolus, Caçador Destemido | Arte de: Francisco Miyara

"Se o empregador dele faleceu, então certamente o mercenário pode ir," disse Vadrik.

"Mercenário?" Rem perguntou. "Eu sou um cátaro, a lâmina dos inquisidores. Não sou mercenário."

Vadrik suspirou. "Então suponho que trabalharemos juntos."

Rem o olhou de cima a baixo, claramente não animado com o que viu. "Suponho que trabalharemos."

A anciã de cinza os interrompeu. "Um fazendeiro, Arinos, desapareceu há três semanas. Ele andava discutindo com seu vizinho, Dein Salvasi, o homem mais rico de Lambholt."

"Um homem piedoso," disse Rem.

"Também o principal suspeito," disse outra mulher em um manto lavanda. "Ou ele costumava ser. Em seguida, viajantes desapareceram nos campos de centeio. Então Lakil, uma pastora, foi encontrada morta no pasto. Partes dela foram encontradas, de qualquer forma. Suas ovelhas estavam intocadas. Pode ser que tenhamos lobisomens, pode ser algo pior. De qualquer forma, precisávamos de ajuda. O conselho chamou você, Vadrik."

"E Salvasi chamou a mim," disse Rem. "Para lidar com lobisomens pelo bem da cidade."

"Ah, ele só contratou você para limpar o nome dele," disse uma anciã mais jovem.

"Lobisomens parecem cada vez mais prováveis," outra acrescentou.

"Ah, futilidades e fome, nós sabemos quem foi," disse a anciã em cinza escuro. Ela se levantou em sua baixa estatura total, apoiando-se com a ajuda de duas bengalas de madeira simples.

"Nós não sabemos disso, Malynn," disse a anciã mais velha de preto, falando pela primeira vez.

O marido de Vadrik mencionara Malynn mais de uma vez, já idosa quando Hailin era apenas um menino. Severa e sábia, até assustadora, ela ensinava às crianças números, música e a manterem medo da floresta. Ela fora criada como um menino, Hailin dissera, mas escolhera a vida de uma mulher assim que teve idade suficiente, e a vila a aceitara rapidamente.

"Foi o Velho Dedos de Graveto, foi," disse Malynn. "Vocês sabem disso e as estrelas lá no alto sabem disso. O Velho Dedos de Graveto saiu da rima e da história, veio ver os vivos se tornarem mortos. A única pergunta é por que, a única pergunta é como."

"É ele ali logo atrás de você?" a mulher de lavanda perguntou.

"O quê?" Malynn gritou, girando nos calcanhares, levantando uma bengala para se defender.

Não havia nada atrás dela, é claro.

"Ah, tão engraçado," disse Malynn. "Vamos dar uma risada da velha anciã, com medo de gravetos e sombras."

"Vocês podem rir das histórias assustadoras de crianças e anciãs," disse a mulher mais velha, "mas o Velho Dedos de Graveto é real. Ele teve mil nomes por dez mil anos. Aval, o Senhor das Vinhas do Lar. Macath. O Destruidor. Um espírito guardião, vicioso e assustador. Hoje em dia, conforme sua memória desaparece, ele é apenas o Velho Dedos de Graveto, apenas um bicho-papão. Ou assim ele era."

"Seja o que for," disse Rem, "se ele tem garras suficientes para despedaçar uma pobre pastora, ele tem carne suficiente para ser cortado com aço. Apenas me levem~ levem-nos~ para onde ele vive e eu~ nós~ libertaremos sua cidade do medo."

A porta do salão se escancarou, e um homem sem fôlego entrou correndo.

"Minhas senhoras," disse ele, parando para recuperar o fôlego, "é o~ é~"

"O que é?"

"Assassinato," ele finalmente conseguiu dizer. "Assassinato."


"Eu disse que era o Dedos de Graveto, e não aceitarei que nenhum de vocês duvide de mim novamente," disse Malynn. A meia-lua projetava sua longa sombra pelo pasto. Meia dúzia de camponeses estavam com piques e bestas, examinando nervosamente as sarças distantes. Rem estava com sua rapieira desembainhada e patrulhava o perímetro do grupo como um cão de pastoreio guardando um rebanho. Vadrik, por sua vez, ignorou os vivos e manteve sua atenção nas três pessoas mortas na grama.

Bem, duas pessoas mortas e um lobisomem morto, este último revertido à forma humana ao morrer, mas reconhecível pelas roupas rasgadas pela transformação. Todos mortos pelos mesmos meios — perfurados como se atravessados por flechas, mas não havia flechas a serem encontradas.

Todas as três vítimas eram do sexo masculino, todos os três jovens, todos os três desarmados e sem armadura. Dois foram feridos pela frente, um foi ferido pelas costas e estava a alguns passos de distância. Provavelmente, o mais jovem do grupo fora atravessado após se virar para fugir. Não havia razão para ninguém saber disso, jamais. Nenhuma razão para a família do homem saber que ele havia corrido.

Abandonar o Posto | Arte de: Zoltan Boros
Abandonar o Posto | Arte de: Zoltan Boros

"Vocês sabiam que este homem era um lobisomem?" Vadrik perguntou.

"Não sabíamos," Malynn respondeu.

"Embora possa não ser lobisomens, não precisamos saber de mais nada," disse Rem, ainda vigiando o campo ao redor deles. "Leve-me até a fera, Vadrik de Nephalia, para que possamos terminar o serviço esta noite e estes aldeões inocentes possam dormir tranquilos."

"Como se eu fosse um cão, apto apenas para seguir rastros?" Vadrik perguntou, baixo demais para Rem ouvir. Ele então focou sua energia para cima, extraindo poder do céu, das estrelas. Ele teceu esse poder através de suas mãos.

Ele abriu as mãos, liberando a energia, e uma poeira caiu dos céus, brilhando à luz do luar, pousando sobre rastros por todo o campo. A maioria era brilhante e sólida, levando de volta para a cidade. Os rastros que eles haviam feito em sua investigação. Havia outros rastros, também, dos três mortos e do guarda que os encontrara. Mais fraco e estranho, espalhado, desigual e em zigue-zague, havia outro conjunto de rastros, indo para algum campo distante.

O feitiço de rastreamento era simples o suficiente. Restava poder mais que suficiente para expressar sua vontade ainda mais, para ensinar Rem a não maltratar um arquimago.

"Suspeito que vocês saibam disso," disse Vadrik, virando-se para os aldeões, "mas não é seguro nos seguir." Ele então se voltou para Rem. "Você vem?"

Os olhos do cátaro estavam cheios de fúria. Sua boca, mais importante, havia sumido, desaparecida pela magia de Vadrik. Sem lábios, apenas pele do queixo ao nariz.

"Qual é o problema?" Vadrik perguntou. "Você confundiu um arquimago com um sabujo?" Vadrik estalou os dedos, a boca de Rem reapareceu, e Vadrik partiu seguindo os rastros sem olhar para ver se o cátaro estava atrás de si.

"Cuidado," Malynn gritou para Vadrik. "Não deixe o Dedos de Graveto zangado."


Os rastros levavam através de sarças e sebes como se elas não estivessem lá, e Vadrik ficou grato por seu manto de lã para repelir os espinhos. Ele também ficou grato por seu companheiro, agora no trabalho, estar silencioso e atento. Até mesmo a arrogância deixou seu passo enquanto ele se mantinha pronto para a ação.

A lua brilhava forte nos campos, e a grama se movia tanto como ondas ao vento que Vadrik se viu com saudades de casa. Mas também, as sombras da lua dançavam e se moviam, inclusive atrás de Vadrik, e o movimento continuava chamando sua atenção, e ele continuava olhando por cima do obro.

Ninguém poderia surpreendê-lo. Ele era Vadrik de Nephalia.

Rem estava olhando por cima do ombro também.

Eles passaram por uma casa de pedra, talvez abandonada. Por um momento, Vadrik pensou ter visto uma luz verde lá dentro, mas ela desapareceu quando ele tentou olhar mais de perto. Algumas centenas de metros depois, a trilha parava em um pequeno bosque.

"Sua magia acabou," disse Rem, assim que entraram no bosque e a luz mágica desapareceu.

"Não acabou," Vadrik respondeu. "Chegamos ao fim do caminho."

"Não há nada aqui."

Os choupos haviam perdido suas folhas meses atrás, e conforme as nuvens entravam, as árvores finas eram silhuetas contra o céu escurecendo. Vadrik sussurrou algumas palavras, deixando o poder fluir do solo ao seu redor para seus olhos, permitindo-lhe ver um pouco melhor na penumbra.

Sinos de vento distantes tocaram, agudos e tilintantes. Depois outros mais próximos, de madeira, das árvores ao seu redor.

"Você pode fazer uma luz?" Rem perguntou, muito mais educado desta vez. "Parece que esqueci minha lanterna."

Vadrik continuou andando, para dentro da floresta. A criatura devia estar aqui dentro, em algum lugar. Talvez tivesse subido nas árvores.

"Obrigado," disse Rem.

"Pelo quê?"

"Pela luz," Rem respondeu.

Vadrik não havia conjurado luz nenhuma.

O arquimago girou sobre os calcanhares, levantando uma barreira protetora enquanto o fazia, apenas a tempo de uma chuva de galhos e faíscas colidir contra a parede mágica.

A criatura estivera logo atrás dele.

Tinha que ser ele.

O Velho Dedos de Graveto fazia jus ao seu nome. Fino como um amieiro, mais alto que um homem, pele esticada contra ossos pequenos, dedos como gravetos. Uma criatura de pesadelo, de toda imaginação infantil. A seus pés, por onde quer que passasse, a geada florescia e cogumelos cresciam. Seu rosto era mais um crânio de cervo do que carne humana, brasas gotejavam de suas mandíbulas como sangue, e ele tinha mais galhadas do que qualquer fera natural de qualquer floresta natural. Seus olhos, porém, eram o problema. Ele tinha olhos demais. Quatro? Sete? A cada momento, o número parecia mudar, e cada um brilhava com fogo verde pálido, e cada um estava observando você. Ele estava lá e não estava lá, você podia olhar direto para ele e ter certeza de que ele estava se aproximando sorrateiramente de você.

Ele era feito de medo, como nada que Vadrik jamais vira. Não admira que o aldeão tivesse corrido. Os outros dois devem ter sido simplesmente mortos antes que tivessem a chance sozinhos.

Velho Dedos de Graveto | Arte de: Jehan Choo
Velho Dedos de Graveto | Arte de: Jehan Choo

Vadrik, seguro dentro de sua parede de força, ponderou sobre a estranha besta. Como nada que ele tivesse visto antes, como nada sobre o qual tivesse lido antes. A coisa era corpórea, e não era.

A criatura latiu como um cervo, e a parede de Vadrik desmoronou. Simples assim.

A criatura inclinou a cabeça para o lado, e uma constelação de gravetos pendurados em suas galhadas estalou com luz e ecoou com o som de sinos de vento.

Enquanto Vadrik estudava o Velho Dedos de Graveto, o Velho Dedos de Graveto estava estudando Vadrik.

"Besta maldita!" Rem rugiu, enterrando sua rapieira no abdome do Dedos de Graveto. Sangue branco, como a luz do luar, fluiu ao redor da lâmina.

Dedos de Graveto rugiu, desta vez com o som de cem cães, um som que encheu a cabeça de Vadrik e expulsou a sensatez de sua mente.

Vadrik torceu as mãos, torceu a mente, então extraiu o poder do próprio som e o usou para endireitar sua mente. Ele só fizera esse truque uma vez antes, enquanto lutava contra uma fera de além das estrelas.

Dedos de Graveto torceu o torso e enviou Rem voando contra uma árvore. O cátaro caiu de pé, espada ainda na mão. Ele era feito de material resistente. Ele atacou mais uma vez, desviando na maior parte de uma chuva de faíscas das mãos da fera.

Vadrik lançou um feitiço de paralisia, mas Dedos de Graveto o ignorou. Uma mão se fechou firmemente ao redor da cintura de Vadrik, levantando-o facilmente. A outra alcançou Rem, que golpeou seu pulso, fazendo aquele sangue de luar voar, mas ela conseguiu agarrar Rem também.

Não restava mais sutileza a considerar. Vadrik gritou, extraindo sua própria força e misturando-a com cada fonte ao seu redor, canalizando tudo em uma única explosão de gelo que atingiu o Dedos de Graveto, tirando-o de equilíbrio.

Ambos os homens se soltaram e atingiram o chão. Enquanto Vadrik recuperava o fôlego, Rem se levantou e enterrou sua lâmina através do queixo da fera, subindo pelo rosto dela.

Sem gritos, desta vez.

O Dedos de Graveto havia desaparecido.

O sangue branco da criatura empoçava no chão como mercúrio. Vadrik sentou-se, abriu um kit de seu cinto, removeu uma seringa e um frasco, e pegou um pouco dele.

"Não acho que o matamos," disse Rem, ofegante.

"Certamente não matamos." Vadrik parou por um longo momento. "E, obrigado."


Quando retornaram à vila, o sol já estava alto. Rem foi para a estalagem, mas Vadrik foi direto para a prefeitura.

Apesar da geada matinal, Malynn sentava-se no pátio em frente ao salão, bebendo água e comendo mingau com uma estranha em vestidos em camadas e gastos. Esta segunda mulher mal passara da adolescência, se é que passara.

"Bom dia," disse Vadrik, aproximando-se e sentando-se à mesa com as mulheres.

"Não está," disse Malynn.

"Cada vez que você cortar minha pele ," cantou a nova mulher, sua voz perfeita, quase angelical, "eu cortarei outro homem. "

"Isso parece uma informação que você poderia ter nos dado ontem à noite," Vadrik rebateu.

Deixado por conta própria, Vadrik teria feito isso sem derramar sangue. Foi aquele cavaleiro tolo que insistiu em transformar tudo em luta. É melhor controlar as coisas do que destruí-las. Ainda assim, ele não podia exatamente colocar a culpa em outra pessoa.

"Faremos melhor," disse Vadrik. "Só preciso de mais informações para fazer do meu jeito. Uma criatura daquelas, ele foi invocado, não foi? Quem fez a invocação? Meu palpite é que foi alguém que está entre os mortos."

Malynn encarou a recém-chegada, que encarou seu chá.

"Meu pai era um homem supersticioso," disse ela. "Sempre mantinha dentes de ovelha no console da lareira, dentes de lobisomem sob o colchão."

"Arinos, suponho? O fazendeiro que primeiro desapareceu?" Vadrik perguntou.

A mulher assentiu.

Malynn interrompeu. "Vadrik, conheça Ariosa. Filha de Arinos."

Vadrik absorveu essa nova informação. "Você mora na casa de pedra em ruínas, pequena fazenda, perto de um bosque de amieiros?"

Ariosa assentiu.

"Você nos ouviu ontem à noite?" Vadrik perguntou.

"Eu~ não tive certeza do que foi que ouvi."

Vadrik ponderou sobre tudo. "Seu pai estava discutindo com um vizinho rico. Sobre o quê, dívida?"

Ariosa assentiu.

"Ele estava ameaçando tomar as terras?"

Ela suspirou. "Sim."

"Vizinho rico ameaçando deixar um homem desabrigado, quando ele tem uma filha em casa com idade suficiente para assumir a propriedade. Levaria um homem a fazer muitas coisas."

"Não o teria levado a cometer um assassinato," disse a mulher.

"Aí está você," disse Rem, aproximando-se. Não havia lugar para ele na pequena mesa redonda, mas ele estava claramente feliz apenas em pairar sobre todos eles e conversar. "Enquanto vocês fofocavam, discuti com alguns dos homens que fazem o serviço de guarda. Dizem que a noite passada foi tranquila o suficiente. Devemos ter mantido o monstro ocupado. Devemos começar nossas investigações?"

Ele olhou para a refeição simples que as mulheres estavam comendo. "Talvez comecemos pelos Salvasis? Perguntar o que sabem de seu patriarca morto? Suspeito que, se nada mais, eles terão um café da manhã decente. Talvez chá."

"Tentamos do seu jeito," disse Vadrik. "Quase nos matou. Hoje, faremos do meu jeito."

"Tudo bem, serei compreensivo. Qual é o seu jeito?"

"Bem," Vadrik disse secamente, "provavelmente, começamos na mansão Salvasi."


O homem mais rico de Lambholt não fora particularmente rico para os padrões aos quais Vadrik estava acostumado. A mansão deles era uma casa de pedra de dois andares com quatro quartos, dois dos quais tinham até papel de parede em vez de simples paredes de pedra.

A riqueza deles não os salvara.

Em vez de boas-vindas calorosas e comida, a dupla encontrou uma porta aberta à força, pendurada por uma dobradiça. Encontraram uma casa vazia. Passaram metade do dia curto vasculhando a casa, procurando pistas. Nenhuma pessoa, nenhum corpo. Nenhum sangue. Sinais de violência, no entanto, estavam por toda parte — mesas e cadeiras reviradas, uma janela quebrada por onde uma pessoa tentara escapar. A besta da família jazia no chão perto da entrada, um dardo projetando-se da porta.

Geada e cogumelos permaneciam nos cantos do corredor.

Uma mão — talvez de uma criança — pintara "ele está logo atrás de você" com cinzas no console acima da lareira.

Funcionou, e Vadrik e Rem viraram-se para olhar ao mesmo tempo. Nada estava lá, é claro.

"Quem escreve uma mensagem como essa quando deveria estar lutando por sua vida?" Rem perguntou.

"Alguém forçado a isso, por medo ou por feitiço," Vadrik respondeu.

Rem estremeceu. "Bestas e demônios deveriam ser coisas honestas, coisas violentas. Tão grandes ou fortes ou cheios de dentes quanto queiram, eu os combaterei. Nada dessa feitiçaria."

"Ainda bem que desistimos da violência bruta como a solução," disse Vadrik. Ele viu algo no chão e ajoelhou-se para examinar. Pelos de bode pretos, na casa. Aquela não parecia o tipo de casa para se manter bodes lá dentro. Ele os colocou na bolsa em sua cintura.

"Venha," disse Vadrik. "Quero chegar à casa de Arinos antes que a filha dele chegue em casa. Tenho uma suspeita."


A casa estava vazia, e Vadrik não se sentiu bem em invadir, mas determinou que era necessário naquele momento. Era um casebre. A casa em si poderia ter quinhentos anos, tão robusta quanto possível. A porta tinha tantas fendas quanto tábuas. O chão era de terra. A não ser pelas duas camas arrumadas no único cômodo, poderia ter sido abandonada. Um único bode branco pastava do lado de fora da janela irregular e turva.

Vadrik não demorou muito lá dentro. O que ele precisava estava na varanda.

Pendurado no caibro sobre a porta, entre uma variedade estonteante de sinos de vento de madeira e aço, um móbile de madeira estava pendurado. Formas construídas com gravetos, amarradas com tiras de casca de árvore.

"Isso se parece com~" disse Rem. "Isso significa que~"

"Arinos invocou o Dedos de Graveto para se livrar de Salvasi e salvar sua fazenda," disse Vadrik.

"Mas deu errado," Rem concordou. "O Dedos de Graveto não foi contido. Matou Arinos, Salvasi e outros além deles."

Vadrik esticou o braço e desamarrou o móbile de onde estava pendurado. "Nós o desinvocaremos hoje, antes que ele retorne esta noite."

"Você sabe como? Temos que, sei lá, encontrar um lugar onde a lua nunca brilhou? Trazer flores que nunca tocaram o solo?"

"Não," disse Vadrik. "Suspeito que será muito mais simples que isso."

Vadrik colocou o móbile no chão e despejou o frasco com o sangue do Dedos de Graveto sobre ele. Ele então levantou uma bota e a desceu com força, esmagando a coisa sob os pés.

Um lamento agudo cortou os campos, vindo do bosque de amieiros.

"Só isso?" Rem perguntou. "Ele foi expulso do Plano? E agora?"

"Sim, isso deve ser tudo. Quanto ao agora, sugiro que vamos para a estalagem. Suspeito que ambos possamos usar uma boa refeição."

"Talvez haja cerveja."


O dia curto estava chegando ao fim quando alcançaram os muros da vila, e o sol se punha lentamente enquanto começavam a comer — carneiro para Rem, beterrabas e batatas para Vadrik.

"A Vadrik," disse Rem, levantando um copo de água. Mesmo a falta de bebida melhor não parecia diminuir seu ânimo. "Formamos uma bela equipe."

"A Rem," disse Vadrik, levantando seu próprio copo. "O que lhe falta em sutileza, você mais do que compensa em coragem."

Enquanto iam beber, o sino da vila tocou.

"Provavelmente apenas chamando os fazendeiros para passarem a noite," disse Rem.

Ao som do sino, o estalajadeiro pegou uma espada e saiu correndo pela porta da frente para a noite.

O sino continuou tocando.

Vadrik colocou o copo na mesa com um suspiro, lançou um olhar saudoso para o que restava de suas batatas assadas e saiu para ver qual era a confusão.


"Ele está dentro dos muros!" um homem gritou, aterrorizado, para a multidão reunida. As anciãs da vila estavam de pé e sentadas no pátio em frente à prefeitura enquanto cerca de trinta aldeões seguravam armas nas mãos e medo nos olhos.

"Ele só matou nos campos e na floresta," disse Malynn, de pé com a ajuda de suas bengalas. "Não há razão para acreditar que ele esteja dentro dos muros."

"Eu o vi!" disse o homem.

"Claramente?" Malynn perguntou, como uma professora castigando um aluno.

"Não, senhora," o homem admitiu.

"Eu também o vi!" uma mulher gritou.

Vadrik empurrou a multidão, que se abria diante de um homem que caminhava com propósito. Ele chegou ao pátio e virou-se para a multidão. Rem estava logo atrás dele.

"O Dedos de Graveto foi dispensado de volta de onde veio."

"Você viu isso?" o homem perguntou. "Claramente?"

"Bem, não," respondeu Vadrik. A multidão não ficou satisfeita. "Mas realizei o ritual, como fiz cem vezes, e ouvi o dobre de finados da besta."

Ariosa chegou correndo naquele momento, respirando pela boca, mas sem lutar com seu ritmo.

"Vim de casa agora," disse ela para Malynn, e então olhou com ódio para a dupla de homens. "Eles o libertaram."

"Nós fizemos o quê?" Rem perguntou.

"Não fizemos tal coisa," Vadrik respondeu, automaticamente, mas seu cérebro começou a correr. O Dedos de Graveto não agira como nenhum outro demônio que ele enfrentara antes. Ele devia ser algo diferente. Quebrar o vínculo não deve ter~

"Tudo bem," disse ele. "Talvez tenhamos libertado."

"Ouçam-me," Malynn disse à multidão. "Passaremos pela noite. Temos que trabalhar juntos. Cada um de vocês, olhos abertos. Tantos de vocês vigiem para dentro da multidão quanto para fora dela, para que ele nunca possa estar atrás de vocês."

A multidão fez o que lhe foi ordenado. Pessoas em Innistrad estavam acostumadas a aprender e se adaptar a novos horreores, ao que parecia.

"Eu o vi!" gritou um retardatário, correndo em direção à multidão. "Logo atrás da estalagem!"

Rem ia correr em direção ao problema, mas Malynn bloqueou seu caminho com uma bengala. "Você nos ouvirá. Chega de sair correndo em direção ao perigo antes de ter ouvido o que o perigo é."

Rem assentiu, claramente desconfortável por não correr em direção ao problema, mas surpreendentemente disposto a acatar o comando da anciã. "O Dedos de Graveto não pode ser enviado para algum lar, para algum outro lugar," Malynn disse, "porque ele é daqui. Um espírito do lar."

"Um espírito do lar?" Vadrik perguntou. "Então ele foi invocado, não para matar, mas para proteger?"

"Ele foi."

Gritos começaram algumas ruas adiante. "Enquanto vocês decidem o que fazer," disse Rem, "eu vou ver se salvo algumas pessoas?"

Malynn acenou em permissão, e Rem ran off toward the distant din.

"Step one, mark the hearth, the land to be protected," Vadrik said. "Step two, make an offering, mark those who may not enter, else you must mark each who can. He~Arinos didn't get to step two, then?"

"I don't know the magic of summoning," Malynn said.

"I know the words, I think," Ariosa said. "From my grandmother's old stories."

"He must have been interrupted. He~" Vadrik pulled the goat fur from his pocket, handed it to Ariosa. "This familiar?"

"One of our goats went missing the night before my father did," she confirmed. "I assumed Dein Salvasi stole it, took it as repayment without asking."

Out of the corner of his eye, Vadrik saw Rem return, escorting a few huddled figures to the throng before running back out into the night.

"Arinos summoned Stickfingers." Vadrik said. "Built the sigil and hung it from the farmhouse. Guard that house and all its lands. Step two, sacrifice. Took the goat out into the grove, maybe, left it for Stickfingers. Dein Salvasi saw the goat, stole it. A bit ashamed, kept it inside. Means Stickfingers came, knew where to guard, didn't know whom to guard against. Killed Arinos as an intruder on his own land. Killed your neighbor the same way. But why all the killings so far afield?"

Vadrik thought it over for only a second before answering his own question. "Your father's estate is old, then, is it not? One of the oldest houses I've seen. Used to have a lot more land?"

"It did."

Rem was returning, this time empty-handed and bloodied.

"Rem!" Vadrik called. Rem looked up.

"Você pode guardar estas pessoas? Pode conter o Dedos de Graveto enquanto cuidamos de sua vinculação?"

"O que você acha que estou fazendo?" Rem gritou de volta. Ele ainda estava sangrando, Vadrik percebeu, de cortes no rosto e no peito.

Just at the edge of his vision, Vadrik saw green eyes and embers at the far end of a nearby alley.

Rem took several deep breaths, steeling himself. Vadrik summoned power from the stars, fed it to Rem. Sealed his wounds, renewed his breath. It would have bolstered the man's resolve, but it had not been flagging. There was fear, there was exhaustion, but there was no doubt. A cathar is a powerful thing.

"Onde fazemos isso?" Ariosa perguntou. "Aqui? Na prefeitura?"

Malynn balançou a cabeça. "Ele não é uma criatura de vila ou cidade. Ele é uma criatura que guarda casas que se erguem como rochas no rio da selva. Sua casa. Ele será seu guardião, pela duração da vinculação, uma década e um dia."

"Vamos pegar cavalos, então," disse Ariosa.


O ritual em si era bastante simples, quase bruto, como a magia folclórica costumava ser. Ariosa consertou o móbile esmagado e o pendurou na varanda. Através da janela da frente, Vadrik viu as duas camas arrumadas lá dentro. Por que duas? Ela ainda não aceitara a morte do pai?

"Homem alto, homem longo, você guardará este lar? " cantou ela, enquanto o girava. "Protegerá aquele que chama, que habita aqui sozinho? "

Ocultista Noviça | Arte de: Zara Alfonso
Ocultista Noviça | Arte de: Zara Alfonso

Malynn trouxe o bode restante de trás da casa. "Levamos para o bosque?"

O som de faíscas veio de trás deles, e Vadrik girou. O Velho Dedos de Graveto estava lá, observando-os, curioso.

"Suponho que não temos tempo para isso," disse Vadrik. "Ele veio muito mais rápido desta vez."

"Velho Dedos de Graveto, dos amieiros, aceite este bode em meu lugar. " Ariosa sabia bem mais da invocação do que Vadrik supunha.

"Aval senhor das vinhas, velho destruidor, não fira ninguém sem meu apelo. "

Dedos de Graveto latiu, e o bode branco caminhou até ele. Vadrik, que nunca suportava ver o sofrimento de animais, fechou os olhos. Quando nenhum rasgar, nenhum balido cortou o ar, ele os abriu novamente.

Dedos de Graveto tinha uma mão de dedos longos no pescoço do bode, acariciando-o.

Imortal e bode caminharam em direção aos choupos. Outro bode, este preto, saiu das árvores para se juntar a eles.


"Para onde agora, velho?" Rem perguntou.

"Para lugar nenhum agora," Vadrik respondeu. "Você seguirá seu caminho, e eu vou para casa, para meus estudos e meu marido."

"Mas formamos uma equipe tão boa!" disse Rem. "Eu tenho os músculos e a bravura, e você tem o cérebro e o poder! E, sabe, aquelas luzinhas mágicas brilhantes? Que canções cantarão de nós juntos, imparáveis!"

Vadrik subiu em seu cavalo, lançando um último olhar para a cidade natal de seu marido, agora um pouquinho mais segura. "Um dia daremos a eles mais motivos para cantarem sobre nós, não duvido, Rem Karolus. Agora, porém, há um homem esperando em casa cuja voz importa mais para mim do que a de qualquer bardo. Fique bem, aventure-se bem."

Ele deu um toque nas rédeas e partiu para fora da cidade.

"Ei, Vadrik!" Rem gritou. "Nem mesmo Jenrik era tão bom nas luzinhas mágicas brilhantes quanto você. Você o deixaria orgulhoso."

Vadrik parou e se virou.

"Eu estava brincando sobre as luzinhas brilhantes, mas não sobre Jenrik ficar orgulhoso."

Vadrik tentou e falhou em esconder seu sorriso diante do elogio.

Enquanto os cascos de sua montaria batiam nos paralelepípedos, Vadrik continuou pensando na segunda cama, arrumada na velha casa da fazenda. Pensando em como era estranho que a cama ainda estivesse arrumada. Pensando no brilho verde que vira na casa antes de encontrarem o Dedos de Graveto no bosque. Como era estranho que Ariosa tivesse sobrevivido, ilesa.

Crianças corriam pela rua, cantando e rindo.

Dedos de Graveto, ele matou o Vik Não chegue perto, não chegue perto O Senhor dos Gravetos tem muitos truques Ele pode ouvir quando você teme A velha dama Hilgin perdeu seus filhos Onde eles estiveram? Onde eles estiveram? O Velho Amigo dos Gravetos na lama Arrastou-os para dentro, usa a pele deles

Logo, porém, a cidade estava recuando na distância. Atrás dele.

Episódio 4: Festival da Colheita

Autor: K. Arsenault Rivera | Data: 22/09/2021

Três batidas na porta de Olivia Voldaren a colocaram em um humor assassino. Não que ela alguma vez não estivesse em um humor assassino, é claro, mas às vezes as pessoas se encarregam de exacerbar as coisas, e o que ela deve fazer então? Você simplesmente não pode tolerar essas coisas; isso cria rebeldia em seus servos. E não do tipo divertido.

"Entre, e faça valer o meu tempo", ela chama. "Eu não posso suportar ter meu sono de beleza interrompido."

Ela não abre os olhos, pois se abrir vai estragar tudo. Levou quinze minutos inteiros para arrancar o rosto daquela donzela; Olivia não vai deixar que isso seja desperdiçado. Você deve dar tempo ao sangue para se acomodar e realmente lhe dar cor.

"Minha mais ilustre e poderosa Senhora Olivia Voldaren."

Seus lábios se contorcem em um pequeno sorriso. Sim. Bom.

"Eu venho trazendo notícias dos humanos."

Seu sorriso e bom humor, desapareceram. Ela franze a testa, com cuidado para não perturbar o rosto da donzela sobreposto ao seu próprio. "Estas são notícias importantes ?"

"Eu acho que sim", diz o mensageiro. Pelo som de sua voz, provavelmente era Feuer. Ele não tinha alguns ossos que deveria estar remontando? Olivia nunca conheceu um fornecedor melhor de móveis de ossuário, mas por que ele estava aqui ? "Eles estão tramando alguma coisa. Tentando restaurar o equilíbrio do dia e da noite, eu acredito."

Folia do Pôr do Sol | Arte por: Antonio José Manzanedo
Folia do Pôr do Sol | Arte por: Antonio José Manzanedo

Ela começa a gemer e então se detém. Não deve perturbar a máscara, Olivia, foi uma dor tão grande para extrair. "E como você acredita que eles pretendem fazer isso?" ela diz. Enquanto ela gesticula, o sangue em que ela está descansando espirra como água de banho. "Não é como se eles pudessem jogar uma corrente ao redor do sol."

"Mais ilustre e poderosa Senhora Voldaren, eu acredito que eles estão fazendo isso com um festival."

"Um festival."

"Sim, um festival," ele repete, firme mesmo depois da incredulidade dela. "Eu estive visitando Gavony ultimamente em busca de certos recursos físicos—"

Por que ele não diz simplesmente ossos?

"—quando me deparei com as visões mais estranhas: efígies de vampiros. Versões grandes e abominavelmente decoradas de nós mesmos, e até mesmo de sua alardeada e inefável persona."

"Minha persona? Isso não pode ficar assim."

"Então não pode, minha mais ilustre e poderosa Senhora Voldaren, então não pode. Em meu disfarce inteligente como uma espada de aluguel errante, eu perguntei para que eram as preparações. Uma mulher gentil me disse que eram para o Festival da Colheita. Agradecendo-lhe, eu a matei onde ela estava e queimei a efígie."

Olivia franze a testa. "Você a queimou? Feuer, tenha algum bom senso. Você deveria tê-la trazido de volta para cá. Nós poderíamos tê-la usado para a recepção."

Há o mais leve tremor de medo em sua voz. "Muito bem, minha mais ilustre e poderosa Senhora Voldaren, assim será da próxima vez," ele diz. Ele limpa a garganta. "Mas pode interessar-lhe ainda mais ouvir o método. Enquanto eu estava escavando um espécime, avistei um grupo de viajantes—eles pareciam forasteiros, mas eu reconheci a líder deles. Arlinn Kord—"

"Ugh. Aquela vira-lata."

"A mesma. Ela está liderando a busca. Além disso, havia uma mulher com cabelos em chamas—"

Olivia suspira dramaticamente.

"—que continuava perguntando sobre algo chamado a Chave de Prataluna. Ela queria dar uma boa olhada, o que me diz que eles já a tinham."

Ahh, aquela coisa velha. Os humanos devem estar desesperados se estão desenterrando isso de volta. Olivia se senta. "Festival da Colheita, é?"

"Festival da Colheita, de fato. O que deve ser feito? Devo falar com nossos outros especialistas em extração?"

Olivia toca um nó do dedo em seus lábios em pensamento e, consequentemente, os da jovem donzela também. "Não há necessidade. Deixe que prossiga."

"Mas Senhora Voldaren—"

"Mais ilustre e poderosa Senhora Voldaren," ela corrige. "Feuer, se você visse alguém extraindo um espécime que você cobiçava, o que você faria?"

Ele murmura em pensamento. "Eu os mataria."

Ele não está colaborando em nada. "Sim. Obviamente. Mas quando você os mataria?"

"Imediatamente," ele responde. "Seria uma afronta pessoal."

Olivia ri. "É aí que você está pensando muito pequeno, querido garotinho," ela diz. Finalmente, ela desliza a máscara de sua pele, esfregando o sangue em sua pele sedenta. "Nunca interrompa alguém quando eles estão fazendo seu trabalho para você."


Entre os frequentadores do festival reunidos, um único pensamento: Innistrad deve resistir.

De todas as esferas da vida, eles vieram a este lugar desde os contrafortes próximos de Kessig, desde as pináculos célebres e charnecas sombrias de Gavony, desde os portos e túneis de Nefália, desde as ruas sem sol e torres retorcidas de Stensia, eles vieram. Sob os braços que nunca giram do antigo Celéstio eles marcham suas efígies, suas velas, suas cestas de flores e frutas efêmeras.

Innistrad deve resistir. Esta não pode ser a última vez.

Assim diz o entalhador de abóboras com uma multidão reunida de crianças diante deles. "O que eu posso fazer por vocês?" eles perguntam, e as crianças dizem que gostariam de ver o sol. Um sol, então, um sol—as mãos do entalhador de abóboras se movem com graça, esperança e alegria. As entranhas já estão esvaziadas, eles explicam, e essa é a importância da preparação em um momento como este, você deve pensar no futuro. Certifiquem-se de prestar atenção aos seus tutores, e eles lhes dirão o mesmo. Aqui estão os raios, e aqui está o sol—pedaços de abóbora caindo sobre a terra coberta de gelo. Uma vela no centro. O entalhador de abóboras, ele próprio um bruxo, faz descer uma vela de uma daquelas flutuando no alto.

"Faça um pedido," diz o entalhador de abóboras à criança. "Pode ser para qualquer coisa que você quiser, tão grande quanto você quiser."

E a criança, é claro, deseja que o sol continue para sempre, mas ela não conta isso ao bruxo. Se você disser seus pedidos, eles não se tornarão realidade.

O bruxo diz à garota para tocar a cera da vela. Um sol e uma lua gravam a si mesmos no local que a garota escolhe, e ela ofega, e o bruxo sorri. Para dentro da abóbora, ela vai. Ele entrega à garota o trabalho concluído.

"Aqui," ele diz. "Um sol só para você, um que nunca se apagará. Feliz Festival da Colheita!"

E a garota sai correndo, carregando seu sol pessoal, pensando que Innistrad está um pouco mais brilhante. E assim é.

Especialmente quando todo o resto quer o seu próprio sol pessoal agora.

A Bruxa Deidamia observa a garota ir embora e diz a si mesma: é por isso que Innistrad deve resistir, é por isso que não pode ser a última vez.

Katilda disse que não será.

Olhando para cima, para o Celéstio, Deidamia tem que esperar que isso seja a verdade, e ela tem que nutrir essa esperança, também, tem que mantê-la acesa assim como as velas.

Mesmo que seja apenas para divertir essas crianças.

Uma geada leve cai sobre os procedimentos. A apenas alguns metros de distância, seus colegas bruxos lideram canções desafiadoras, extraindo as melodias de vozes hesitantes. Duas barracas abaixo de Deidamia, sua amiga Shana segura uma caneca de cidra temperada. O festival pode ter um aspecto sombrio, e todos eles podem muito bem morrer em alguns meses se o sol não for colocado de volta em seu lugar apropriado, mas por enquanto, há a alegria da cidra temperada.

Deidamia acena. Shana sussurra um feitiço rápido e envia o copo flutuando até a mesa de Deidamia, onde ela toma um gole rápido no meio de esculpir outro sol. Os olhos de Shana dizem que ela quer falar mais sobre o que está acontecendo, sobre quanto tempo elas deveriam esperar antes de colocar suas máscaras, mas Katilda foi clara: espere pela chave. Até lá, mantenha seus olhos abertos, e mantenha os frequentadores do festival seguros.

E assim, Deidamia examina a multidão, e as árvores, e cuida de suas proteções, tudo isso enquanto continua a capturar o sol para as crianças. E, também, para os rostos cansados dos pais parados atrás delas.

Não é Deidamia quem avista os heróis primeiro, mas Shana. Seu grito animado dá lugar a aplausos de todos os lados. Os bardos mudam para uma melodia otimista e triunfante para recebê-los. A multidão fica tão densa que Deidamia nem consegue ver direito os heróis, que chegaram na outra ponta do festival, mas ela vê um jato emocionante de chama se erguer. Havia uma piromante entre eles, não havia?

O menino que aguarda seu próprio sol pessoal grita para Deidamia se apressar, e assim ela o faz—no momento em que a abóbora toca o balcão, o menino sai correndo para ver os heróis. E assim, também, o resto da multidão se vai. Pela primeira vez em todo o festival, há uma mesa vazia diante dela.

A mesa de Shana também está vazia. Deidamia não consegue resistir a uma olhada nos heróis a caminho do centro do Celéstio—um pouco mais de cidra não fará mal. E Shana vai entender, certo?

Ela dá alguns passos até lá e serve a si mesma um novo copo, e é então, quando o aroma de maçãs enche o ar, que Deidamia sente a dor aguda demais de uma proteção caindo.

O uivo começa logo depois.


Talvez tenham sido todas as maçãs. Talvez tenham sido todas as especiarias. Talvez tenham sido todas as abóboras. Ou talvez tenha sido o cheiro coletivo de milhares de humanos se reunindo para encarar suas mortes.

Qualquer que seja o caso, Arlinn não sente o cheiro deles chegando.

Ela não sabe que está acontecendo até que seja tarde demais, não os vê batendo contra as barreiras até que os lobos-xamã já estejam sobre eles, não ouve o uivo até que eles já estejam nos portões. Aplausos de gratidão guincham e viram gritos de medo; as crianças reunidas para vê-los logo retornam para o lado de suas mães.

Bruxos gritam, também, vestindo suas máscaras de madeira e osso, direcionando as multidões ainda mais fundo nos imponentes braços do Celéstio. "Não é seguro aqui—vocês têm que ir!"

E na maior parte, as pessoas ouvem, tornando-se um grande rio de carne e medo, correndo sobre as barracas e mesas cuidadosamente arranjadas, pisoteando abóboras, idosos e garrafas de cidra. É sangue ou vinho que encharca a terra de Kessig? Quem pode dizer? Tudo o que importa é que os lobos estão na porta, e o Celéstio está longe deles.

Arlinn pode vê-los agora: os xamãs da alcateia uivante em pé por entre as árvores, envoltos nas peles tingidas de suas caças, o brilho escarlate opaco de sua magia ficando cada vez mais brilhante enquanto entoam seus feitiços; os mais rápidos deles correndo em círculos famintos ao redor da beirada da barricada; brutamontes impossivelmente grandes assomando em ameaça final; lobos em armaduras resistentes e de couro.

Ela pode ver todos eles, e deve haver centenas.

Seu peito aperta.

Invadir o Festival | Arte por: Yigit Koroglu
Invadir o Festival | Arte por: Yigit Koroglu

"Arlinn," diz Kaya. "Nós estamos enrascados até o pescoço, não estamos?"

"Não contanto que possamos salvar os humanos," Arlinn diz. Sua voz sai mais tensa do que ela gostaria. Uma líder não deveria soar mais confiante? "Kaya, pegue a chave. Certifique-se de que chegue a Katilda."

"Entendi," ela diz. Kaya não precisa ouvir duas vezes—no segundo em que Teferi lhe entrega a chave, ela se vai, desaparecendo na névoa. Bom, os lobos não serão capazes de encontrá-la.

Há um nó se formando rapidamente na garganta de Arlinn, mas ela não tem tempo para isso agora. A luz vermelha está pintando o medo rígido da multidão em uma sombra horrível. Um licantropo apenas um pouco menor que uma torre de cerco bate um punho contra a borda da barreira mágica.

Crack.

Arlinn não consegue desviar os olhos da horda—dos lobos caminhando junto com os licantropos. Se ela olhar por tempo suficiente, ela tem certeza de que verá rostos familiares, e o pensamento a enche de pavor. "Chandra, Adeline—"

"Você não precisa nos dizer," diz Chandra.

E de fato ela não precisa. Adeline, já montada, estende uma mão para Chandra e a ajuda a subir na sela. As duas partem para a linha de frente sem dizer mais nada.

Ser em todas as coisas uma protetora e uma luz guia: esse é o núcleo da fé que impulsiona Arlinn para frente. E não há momento melhor para ser uma protetora do que este.

Então por que é que parte dela anseia por se juntar a eles? Por que é que seu coração selvagem bate em seu peito, forçando contra seu controle cuidadoso?

Seu olhar logo cai sobre a resposta.

Ele está aqui.

Crack. Crack. Crack.

No alto, a magia se estilhaça como vitral; ela olha para cima com sangue encharcando suas vestes e lágrimas escorrendo por suas bochechas.

Uma onda contra as rochas de Nefália; a parede de lobisomens caindo sobre os frequentadores do festival retardatários. Sangue espirrando no ar, ossos estalando sob as mandíbulas maciças da morte transformada, um uivo que a incendeia com aversão a si mesma e fome.

"Arlinn."

O rufar de tambores de guerra em seu ouvido quase abafa a voz de Teferi ao lado dela, mas sua mão apertando seu ombro a traz de volta. Ela balança a cabeça, aperta os olhos. "Teferi, eu tenho que—há pessoas que eu preciso—"

"Eu sei," ele diz. E ele parece com medo, também, mas há uma bravura em sua voz que empresta a ela um pouco da mesma. "Eu ia lhe dizer que devia a você um longo pôr do sol."

Ela estreita os olhos, mas ele já está plantando seu cajado na terra, já lhe dando um sorriso que fala da confiança que ele acendeu bem no fundo. "Bruxos do Coven Coração-da-Aurora!" ele ruge, "Vamos começar este ritual!"

No segundo em que seu cajado atinge a terra, uma onda de choque se espalha, e cada músculo no corpo de Teferi fica rígido com o esforço. Desta vez, quando ele olha para ela, ela sabe que não pode desperdiçar esse tempo emprestado.

Seus sonhos estão morrendo a cada segundo, assim como os últimos raios do último pôr do sol em Innistrad.

Ela tem que fazer o que pode.


Adeline é uma líder nata.

Correndo através das linhas de batalha improvisadas, Arlinn vê isso mais claro do que nunca: os guardas reunidos acatam suas ordens tão naturalmente quanto respirar. Grupos de cátaros ficam de costas uns para os outros com lanças e escudos, cravando suas armas nos peitos poderosos dos lobos. Quando ela comanda que eles segurem, eles recuam, formando uma parede de escudos atrás da qual os poucos frequentadores do festival restantes podem se esconder.

Tovolar não dá tais ordens. Ele não tem necessidade, como Arlinn sabe bem; ele está aqui para a caçada selvagem, uma coisa que não conhece lei. Correr com ele é ouvir a canção selvagem de seu próprio coração e segui-la até seu fim natural. Ela aprendeu isso caçando com ele. As pessoas achavam que ele era quieto porque era mudo, mas a verdade era que ele sempre esteve feliz em deixar a natureza seguir seu curso.

E seguir seu curso ela faz—aqui mais rápido do que nunca. As ordens que Adeline está gritando, os jatos de fogo das manoplas de Chandra, os impossíveis raios dourados do sol: sem essas coisas, os humanos não teriam chance. Mesmo em suas formas humanas, os licantropos são fortes demais para se revidar; mesmo em suas formas humanas, os atrozes são mais altos do que qualquer ferreiro e além disso mais largos. Em certo sentido, é uma bênção que a maioria ainda não tenha se transformado: uma coisa é lidar com armas brandidas por braços fortes demais, e outra completamente diferente é lidar com paredes vivas de músculos.

Mas isso não quer dizer que seja fácil. À sua direita, um atroz desce seu martelo sobre uma parede de escudos cátara, deixando três homens deitados de costas. De novo, e de novo, e de novo ele o desce; os cátaros grunhem de dor e esforço, encolhendo o máximo possível de si mesmos sob seus escudos.

É apenas uma curiosa oscilação que os mantém vivos. Uma das raras sutilezas da infância de Arlinn eram as visitas de um mercador viajante. Entre seu estoque havia uma espécie de lanterna de papel com fendas cortadas nas laterais. No centro, um cátaro montado. Você podia girar a lanterna e "ver" o cátaro cavalgar. Não era magia, ele jurava, simplesmente um truque de luz. Arlinn queria uma desesperadamente, mas sabia que seus pais nunca poderiam pagar por ela. Os estranhos movimentos do cátaro a cativavam, o para-e-arranca do movimento.

O atroz está se movendo muito da mesma maneira. Erguendo seu martelo sobre a cabeça, descendo-o—há segundos preciosos durante isso em que ele para de se mover inteiramente. O suficiente para que os cátaros caídos se contorçam um pouco para fora do caminho. Até mesmo a sombra do atroz não acompanha seus movimentos.

Teferi. Ela tem que agradecê-lo depois disso.

Tempo Emprestado | Arte por: Andreas Zafiratos
Tempo Emprestado | Arte por: Andreas Zafiratos

Por reflexo, Arlinn chama por seus lobos, mas eles não responderão, ela sabe; há lobos demais entre os atacantes. A natureza escolheu seu lado.

Então ela escolherá o da humanidade.

Pegando a maça de um cátaro caído, ela se joga no atroz. Músculos podem lhe emprestar todo o poder que quiserem, mas articulações sempre serão fracas. Ele está ocupado demais batendo em suas pretensas vítimas para notar a maça vindo para a parte de trás de seu joelho. Ela coloca seu peso no golpe; um uivo e um estalo são suas recompensas. O atroz vacila, se vira, e os cátaros se levantam atrás dele.

O atroz está rosnando. Humana embora sua forma possa ser, os olhos o entregam; eles já estão meio transformados, junto com suas presas longas demais. "Você. A favorita de Tovolar."

Arlinn franze a testa. "Você não sabe nada sobre mim," ela responde, erguendo a maça. "Saia daqui enquanto pode. Esta não é uma batalha que você vai ganhar."

Sua risada retumba de dentro de seu peito maciço e o distrai das espadas dos cátaros que se aproximam. A primeira através de sua perna não o desequilibra, mas a segunda em seus joelhos já feridos o faz uivar. A terceira, entre suas costelas, o curva, mas não antes que ele agarre a cabeça próxima demais do terceiro cátaro em suas mãos maciças.

Arlinn não espera.

A maça encontra osso.

De pé no rescaldo, sangue em suas mãos, tudo o que ela pode fazer é murmurar uma oração. Quando os cátaros a agradecem, não parece que ela tenha feito nada justo, como se ela tivesse feito algo certo.

Nada disso é certo.

A favorita de Tovolar.

Ela corre, ainda mais fundo no tumulto.

Ela corre porque é errado, e ela sabe que é errado—ela nunca foi a favorita dele, e como ela poderia ser? Quando depois de dois anos sob sua tutela, ela o deixou cheio de cicatrizes e sangrando, e então fugiu no meio da noite?

Ela corre da memória, mas a memória é uma excelente caçadora: o sangue sob seus pés é exatamente como o sangue dele naquela noite; os gritos dos frequentadores do festival são como os gritos dos lenhadores de Kessig; o sangue em suas mãos nunca realmente desapareceu.

"Nós não podemos ser mais do que isso?" ela havia lhe perguntado.

Mas para ele, isso era o que eles eram, o que ela era, o que ela sempre foi destinada a ser.

Nada mais do que isso: sangue na terra, o gosto de carne, o cheiro de medo.

Arlinn engole em seco. Os corpos que ela vê—as pessoas que ela vê—eles são exatamente como os lenhadores.

E lá está Tovolar de novo. Em meio ao caos da invasão, ele está imóvel. Mais brilhantes são seus olhos do que os fogos agora ateados à floresta e focados diretamente nela.

"Tovolar!" ela grita. "Cancele isso!"

Ele sorri com desdém, balança a cabeça. "Não."

Tovolar, o Flagelo da Meia-noite | Arte por: Chris Rahn
Tovolar, o Flagelo da Meia-noite | Arte por: Chris Rahn

Com a maça ainda em mãos, ela marcha. Atrás dela, o caos continua: cátaros cortando as gargantas de licantropos; bruxos abrigando os retardatários; invasores blindados ficando de pé em face à sua oposição. Os fogos de Chandra lançam à cena um brilho âmbar.

"É quase pôr do sol, Arlinn. Ainda há tempo para se juntar," ele diz. Ele não presta atenção à arma em sua mão ou então ela não o assusta.

Mas deveria.

Com um rosnado profundo e gutural, ela golpeia.

Tovolar segura a cabeça da maça.

"Por que eu iria querer me juntar a você?" ela rosna. Mais e mais de seu peso ela pressiona na maça, mas ele a segura com pouco problema.

"Você quis uma vez," ele responde. Ele empurra a maça para trás, desequilibrando-a. "Aquele era o seu lugar."

"Você não decide o meu lugar, " ela diz. Outro golpe da maça o encontra agarrando-a pelo cabo e arrancando-a de suas mãos. Ao cair, ela bate ruidosamente contra o escudo de um guarda caído, mas Tovolar não presta atenção.

O sol está afundando mais baixo no céu. Mesmo Teferi não pode aguentar para sempre.

Ele olha fixamente para ela, e ela olha fixamente para ele.

"Eles só gostam de você porque acham que você é como eles," ele diz. "Mas eu sei que você não é."

"Você não me conhece," ela retruca.

E desta vez, é ele quem vem para cima dela—um grande golpe de cima para baixo de suas garras. Arlinn se esquiva do caminho apenas para ele puxá-la para mais perto, para expor a borda das cicatrizes que vão do seu ombro até sua cintura. "Você tem certeza?"

"Eu tenho," ela diz, pouco antes de seu punho se conectar com a mandíbula dele. O choque do impacto subindo pelo seu braço vale mais do que a pena quando ela vê o olhar presunçoso no rosto dele desaparecer. Ela o segue com outro, e outro, deixando-o cambaleando para trás. "Cancele isso, Tovolar. Ainda há tempo."

Sangue pinga em seus dentes. Ele cospe na terra. "Você está brincando."

"Não estou," ela diz. "Cancele isso. Deixe-nos terminar o ritual. Tome as noites de volta, cace o que puder, mas deixe os humanos fora disso."

"E como você acha que eles aceitariam isso?" ele diz, de pé.

"Eles estariam vivos," ela responde. "Isso é o que importa."

Ele vem em sua direção de novo. Desta vez, ela está pronta. Arlinn segura ambos os punhos dele em suas mãos abertas. Seus músculos gemem com o esforço de mantê-lo afastado, mas ela finca os calcanhares no chão—isso não pode continuar.

"Veja quão longe isso te leva. Seus lobos sabem a verdade—somos nós contra eles. Sempre foi."

Ela conhece os uivos que se seguem. Ela conhece os rosnados, sabe o que verá se arrancar seus olhos dos dele. Então ela não olha, não pode suportar; seu peito já dói o suficiente com seu coração arrancado. Vê-los apenas o faria revirar em seu estômago.

E ela não pode se dar ao luxo de distrações. Apertando os olhos para fechá-los, ela bate a testa no nariz dele. Ele cambaleia o tempo suficiente para que ela dê outro soco.

Mas a ondulação que flui pelo corpo dele diz a ela o que ela teme ouvir: o tempo está acabando. Os dentes ensanguentados de Tovolar ficam cada vez mais longos, seu sorriso ainda mais desconfortável quando está em um focinho. Ao redor deles os uivos dos outros cedendo atiçam o caos do momento.

"Arlinn! Vou precisar de uma ajuda!"

A voz de Chandra é fácil de distinguir. A resposta menos. Encarando Tovolar, o máximo que ela pode oferecer é, "Estou trabalhando nisso, foquem em manter todos seguros!"

Mais e mais alto ele cresce. Seu próprio corpo luta contra seu controle; seus dentes doem, suas mãos tremem com energia não gasta enquanto ela procura por outra arma. A espada agarrada na mão de um guarda caído serve bem. Mais tarde, ela dirá uma oração por ele.

Mas por enquanto? Melhor viver.

Há alegria nele enquanto ele ataca em direção a ela, há deleite nos golpes que ele desfere—todos selvagens e imprudentes. Cada um ela encontra com a parte plana de sua lâmina. Rápido como ele é nesta forma, o melhor que ela pode fazer é afastá-lo, e não demora muito para que seu braço doa, seu ombro, suas costas, sua alma tão cansada. Um guarda vacilante a deixa exposta: as garras dele rasgam a bochecha dela. O cheiro de sangue quase sobrepõe a dor; suas narinas se dilatam, ela sente o gosto de cobre; uma fome profunda e primordial ameaça subjugar seu controle cuidadosamente conquistado.

Mas não o faz.

"Você é uma loba, Arlinn," ele rosna, as palavras mutiladas pela forma desumana de sua boca. "Não importa o quanto você continue tentando fingir!"

"Eu nunca disse que não era!" ela responde.

Ele está em cima dela de novo, saltando; ela mal consegue sair do alcance dele.

"Então me mostre!"

Ele se empina, a cicatriz que ela lhe deu agora claramente visível, mesmo na luz minguante. Vê-la a coloca naquele lugar de novo: Tovolar instigando-a a matar humanos, a provar que ela era uma deles; uma escolha impossível; uma solução fácil e confusa. Tudo o que ela tinha que fazer era matá-lo, não era? E então ela seria o alfa da alcateia uivante.

Mas as coisas não aconteceram dessa forma. Ele não morreu, e ela não venceu. Ambos tinham as cicatrizes para provar.

As dela estão queimando. Toda ela está. No estrondo da batalha, ela pode ouvir os tambores que tocaram naquela noite em que ela o desafiou. Assim como então, os olhos da alcateia estão sobre ela; assim como então, ela permanece sozinha e sem amigos. Assim como então, ela está certa, e ele está terrivelmente equivocado.

Um espasmo sacode seu braço, os músculos se esforçando para ser algo mais, mas ela o agarra com sua mão livre. Uma oração cai de seus lábios. Se ela tem que fazer isso—se ela tem que mostrar a ele o quão errado ele está—então ela não pode ceder. Ela não pode se permitir—

"Ceda. Por que você está se segurando?"

"Porque—porque ainda há~"

As palavras não vêm. Está ficando difícil falar. Aqui, de novo, os uivos: Eu estou com você, junte-se à caçada. Aqui, de novo, o chamado da carne e do osso; aqui, de novo, a melhor liberdade que ela já conheceu. Tão perto. Tão perto.

Ela aperta os olhos, fechando-os. O sentido volta a ela, e ela os abre apenas um momento depois, mas àquela altura, os lobos já se aproximaram.

Rajada, Paciência, Dente-Vermelho e Pedregulho.

Todos olhando para ela, todos com os dentes à mostra—exceto Paciência.

Ela se pressiona contra a perna de Arlinn, puxa suas calças, olha para ela e implora: Esteja conosco. Junte-se à caçada.

Se Tovolar a rasgasse em duas, doeria menos que isso. Pois como ela pode transmitir o que juntar-se à caçada significa? Como ela pode explicar para Paciência que os humanos que olham para eles com tanta suspeita são bons e os lobos que correm, caçam e brincam com eles estão errados aqui?

Ela cambaleia. Lágrimas ardem em seus olhos. "Eu não posso," ela range.

E isso é tudo que Pedregulho precisa ouvir. Fiel ao seu nome, quando ele atira seu peso contra ela, ela é derrubada, o ar foge de seus pulmões enquanto suas costelas estalam. De bruços na lama, ela só consegue ouvir a aproximação de seus lobos, só consegue sentir as mãos de Tovolar agarrarem seu cabelo.

"Nós resolvemos isso direito," ele diz, "ou você morre aqui."

O joelho dele nas costas dela, as garras dele em sua garganta. Mesmo respirar é arriscar ferimentos.

"Mostre-me a verdadeira Arlinn. Todos nós queremos vê-la."

É isso o que ele quer, então?

Ela dará a ele.

Não porque ele pede, não porque seus lobos estão desesperados para ver, não porque ela quer provar algo.

Mas porque, de certa forma, ele está certo—os dois são lobos, e ela vê agora que sempre terminaria assim.

Por sangue, e presa, e garra.

O sol afunda abaixo do horizonte. O dia muda para a noite.

E Arlinn Kord muda com ele.

Arlinn, a Fúria da Lua | Arte por: Anna Steinbauer
Arlinn, a Fúria da Lua | Arte por: Anna Steinbauer

A Dança dos Mortos-vivos

Autor: Seanan McGuire | Data: 24/09/2021

Meu queridíssimo irmão—

(Ainda que seja apenas porque nossos pais nunca acharam por bem me dar outro irmão, um melhor, o que foi muito egoísta da parte deles, de verdade. Se eles não estavam interessados em fazer mais do jeito lento, eles poderiam ter construído algo para mim. Mas como você é tanto o único irmão que tenho quanto a única pessoa remotamente inteligente o suficiente para entender minha genialidade, eu suponho que você, lamentavelmente, terá que servir.)

As coisas têm ficado terrivelmente maçantes aqui em Thraben. Eu começo a desejar que você estivesse aqui, não para fazer guerra contra mim como fazíamos quando éramos crianças — esses dias estão devidamente para trás, e melhor deixá-los enterrados, o que não é uma coisa que eu diria de muitas coisas — mas para construir novas maravilhas para meus queridinhos se lançarem contra. Eu quase esgotei os recursos vivos desta terra antes viril e, por nada neste mundo, não sei lhe dizer para onde todos os humanos foram! Certamente, uma grande quantidade deles morreu, mas como esses ainda estão comigo, de uma forma ligeiramente mais agradável, parece que os companheiros deles deveriam ter ficado também, nem que fosse apenas por seus histrionismos ridículos e por agitarem tochas.

Gisa, Ressuscitadora Gloriosa | Arte por: Yongjae Choi
Gisa, Ressuscitadora Gloriosa | Arte por: Yongjae Choi

Sério, irmão, eu havia esquecido o quanto da diversão neste grande jogo está na imprevisibilidade das peças. Um exército dos mortos é uma coisa bela e uma alegria para sempre, mas não há muita imprevisibilidade em um batalhão que segue todas as ordens impecavelmente e sem hesitação. Eu sonho com algo digno para me lançar contra!

Por tudo que você é, uma abominação de bochechas flácidas aos olhos da lua que nos observa, querido irmão, eu sonho com você. Com qualquer oponente digno da honra da minha consideração. Até mesmo os seus construtos pútridos e inúteis de tendões e pele, formados a partir da carne de zumbis bons e honestos.

Eu chamei tantos ratos de volta do túmulo. Eles dançam nos telhados de Thraben como o mais talentoso dos corpos de balé, e eles nunca param, nem mesmo quando deixam os dedos dos pés e as caudas para trás, apodrecendo em esplendor incessante. Mas qual é o sentido quando ninguém aprecia meus esforços? Eu alcancei o nosso maior sonho, a conquista absoluta, e descobri que é mais vazio do que poderíamos ter imaginado.

Sua irmã amorosa,

Gisa.


Gisa—

Se você está infeliz em Thraben, não tem ninguém para culpar além de si mesma e de sua personalidade horrível, que tornou seu isolamento uma inevitabilidade desde que éramos crianças, pois ninguém pode tolerar sua companhia por muito tempo enquanto ainda respira. Sempre soube que você só seria verdadeiramente feliz entre os mortos. Bem, você teve o seu desejo.

Se você não encontra alegria nisso, isso é problema seu. Não me contate novamente.

Geralf.


O prato despedaçou-se contra a parede, enviando fragmentos de uma porcelana antiga e inestimável espalhando-se em todas as direções. Gisa guinchou, um lamento de banshee tirado da garganta de uma mulher viva, e pegou a xícara de chá combinando.

A partir da pilha de fragmentos já amontoada contra a base da parede, era óbvio para qualquer um que olhasse que ela estava nisso há um tempo. Não que houvesse alguém sobrando para olhar; os destroços de seu ataque de raiva seriam o artefato de algum arqueólogo do cerco de Thraben, algum dia, quando os vivos retomassem esta cidade-transformada-em-cripta de sua nova regente indesejada.

"Aquele desperdício imundo, sem talento e inútil de um esqueleto perfeitamente bom!" Gisa gritou, arremessando a xícara de chá atrás de seus companheiros. O som que fez quando se despedaçou pareceu acalmá-la um pouco, porque ela fez uma pausa ao pegar o próximo prato, pesando-o com mais cuidado na mão, como se estivesse considerando o ângulo de seu lançamento. Um observador casual que não soubesse nada melhor poderia ter aproveitado essa pausa como uma oportunidade para intervir e sugerir que ela fizesse algo mais calmante com seu tempo ou parasse de quebrar xícaras de chá e bebesse uma xícara relaxante de chá de ervas em vez disso.

Infelizmente, todos que restavam na que tinha sido a catedral principal de Thraben, com exceção da própria Gisa, estavam além de tais sugestões, estando muito inequivocamente mortos. A invocadora de carniçais tinha feito a coisa sensata depois que os zumbis de Liliana tomaram a cidade e a própria Liliana seguiu em frente; ela a havia assegurado. Isso significava eliminar o máximo possível da população viva remanescente, já que os vivos eram notoriamente interesseiros e tendiam a objetar em serem mastigados.

Não tendo interesse em ser deposta, aprisionada, ou pior, assistir seus amados mortos serem colocados de volta no chão antes de terminar com eles, Gisa cuidou da ameaça.

Mas a ameaça também era a fonte de matérias-primas com as quais expandir o seu exército, e não sendo — ugh — uma costuradora como o seu irmão arruinado, que ele seja consumido por furúnculos e fardos da carne viva até que se entregasse ao abraço misericordioso da própria morte, ela não conseguia juntar suas criaturas novamente uma vez que elas atingiam um certo nível de dano. A carne deles apodrecia muito mais devagar do que teria apodrecido na terra, sem a sua vitalidade emprestada para sustentá-la, mas ainda apodrecia. Membros caíam. Mandíbulas afrouxavam; dentes deixavam as suas órbitas. Ela poderia manter a cidade por enquanto, enquanto sua legião era forte e seu governo inquestionável; ela não poderia mantê-la para sempre.

Imperatriz do túmulo vazio e rainha incontestável de Thraben, Gisa desabou na cadeira de pelúcia que servia de trono, deixou cair o queixo sobre os nós dos dedos e amuou.


Fora dos muros de Thraben, na longa e vazia estrada entre ela e a última cidade mantida por humanos no tênue domínio de Gisa — agora uma casca fumegante ocupada pelos geists reunindo-se lentamente dos condenados e dos mortos, deixados para queimar quando se recusaram a se erguer — um exército marchava.

Marchava sem fome ou exaustão, sem pausa para descanso. Quando um marchador caía, eles eram deixados na lama, moídos até virarem pasta sob os pés de seus companheiros. Nem um único sequer objetou ou reclamou. Essas fraquezas estavam para trás deles agora.

À frente de sua coluna cavalgava um homem com bochechas encovadas e uma juba de cabelo ainda gloriosa, apesar da podridão e do sangue que a grudavam perto de seu crânio. Seu corcel era um cavalo de guerra outrora poderoso, cuja pele havia sido na maior parte descascada pela decomposição, deixando-o como uma escultura ambulante de músculos e ossos. Cada passo flexionava seus flancos e fazia com que flocos caíssem, desgastando-o passada após passada.

Ele carregava seu cavaleiro para a frente, focado na morte como nada vivo jamais poderia ser, e esse cavaleiro perscrutava o horizonte, machado na mão, vigiando por sinais de movimento perto dos muros de Thraben.

Wilhelt, o Fende-podridão | Arte por: Chris Rahn
Wilhelt, o Fende-podridão | Arte por: Chris Rahn

Ele podia senti-la mesmo agora, chamando, chamando, chamando infinitamente. Ele não era um de seus escravos irracionais, ainda que pudesse nomeá-la como a arquiteta de sua segunda e melhor existência; ele teria morrido um homem saciado, feliz com a história de sua vida, com as mulheres que havia cortejado e as obras que havia feito, se ela não o tivesse rejeitado tão injustamente. Ele e Gisa foram feitos para ficar juntos. Que prova mais verdadeira poderia haver do que o fato de que, quando ele morreu, ele se ergueu à mera lembrança do chamado dela, ainda o homem que era em vida, ainda forte e bonito e pronto para cortejar, pronto para ser cortejado em troca? Ele a procuraria. Ele a encontraria. E ele tomaria seu lugar de direito ao lado dela, Wilhelt, o Deslumbrante e Gisa, a Gloriosa, figuras dignas da lenda que certamente cresceria em torno deles, enterrando suas raízes no solo fértil de seu amor.

Antes de sua própria morte e retorno, ele teria dito que os carniçais não tinham almas restantes, que o que quer que os animasse estava além do sentimento humano. E é verdade, eles sempre pareceram insensíveis quando ele caminhava entre os vivos, quando eram monstros a rondar a noite e a aterrorizar os inocentes; mas agora ele sabia a verdade. Agora que ele caminhava do outro lado do túmulo, ele finalmente tinha visto a bela complexidade que adormecia nos corações sem batimentos dos mortos. Todos os dias, quando seu exército se abrigava do pior do sol — o cheiro da decomposição assada pelo sol nunca ia ganhar nenhum prêmio — ele fechava os olhos e sonhava seus sonhos de homem morto com Gisa.

Gisa, seu propósito. Gisa, seu amor. Gisa, que seria sua rainha assim que ela aceitasse que seu amor era verdadeiro e seu cortejo sincero.

À frente de sua coluna dos mortos, Wilhelt marchava sobre Thraben, e o silêncio seguia atrás, ininterrupto pelos gritos dos homens ou pelos grasnados de pássaros carniceiros. Por onde seu exército marchava, não sobrava nenhum vivo.


Caro Mutilador de Carne,

Eu sabia que você era meu inferior. Eu nunca imaginei que você pudesse ser tão cruel . Eu joguei os seus jogos estúpidos. Eu segui as suas regras infindáveis, inúteis e insuportáveis. Eu era a melhor das irmãs, a melhor mesmo de todas as irmãs possíveis — muito melhor do que você merecia — e agora você me abandonaria ao tédio e à poeira? Você não pode sequer enviar algo horrível e inútil, remendado de uma dúzia de pássaros bestiais, para me dar algo para fazer com meu tempo? Eu lamento e apodreço aqui, querido irmão, e às vezes, eu até desejo que o povo de Thraben — aqueles que sobreviveram, fracotes e covardes que eram, para fugir assim perante aquela sua namorada arrogante, Liliana — pegassem em tochas e espadas e marchassem contra mim, como poderiam ter feito em tempos antigos.

Mas, infelizmente, eu sei onde o povo de Thraben está localizado, e todos eles já estão aqui comigo, todos jurados ao meu serviço. Eu poderia ordená-los a sitiar minhas ameias e ameaçar seus companheiros, mas seria pouco mais que um teatro de sombras, com todos os fantoches amarrados à minha mão. Eu poderia liberar alguns do meu controle, deixando-os ficarem selvagens e furiosos, mas eles seriam rapidamente desmantelados pelo resto do meu tesouro, e meus súditos são bons, e obedientes, e o mais importante, meus . Sacrificá-los tão frivolamente seria indelicado ao extremo. Eu não posso fazer isso com eles. Não importa o quão poderosa seja a tentação. Seria injusto.

Veja, eu até consigo tratar os mortos em meu domínio de forma justa, e você não pode fazer o mesmo com sua própria irmã antes amada! Belo irmão que você se tornou.

(Não mais) Sua,

Gisa.


Gisa—

Eu sou talentoso na minha arte, mesmo que admita que você tem uma inclinação para a sua. Nossos pais passaram bons ossos e bom sangue ao mesmo tempo, e teríamos que ser verdadeiros tolos para ter desperdiçado ambos. Como sei que você fez uso dos ossos de nossos pais, contra minhas fortes objeções, devo presumir que você está fazendo bom uso do sangue deles também na sua contínua dominação de Thraben.

Admito que o seu raciocínio rápido em reivindicar a cidade e os escravos abandonados de Liliana me impressionou. Eu teria feito o mesmo, em sua localização e possuindo os seus talentos. Mas eu não estou com ciúmes. Meu próprio trabalho consome cada momento em que estou acordado; honestamente, não tenho certeza de como fui capaz de arranjar tempo livre para responder à sua última missiva choramingas.

Não, eu não irei salvá-la dos frutos das suas próprias maquinações. Não, eu não irei intervir neste desastre de sua própria criação. Você queria isso. No linguajar comum, você cavou a sua própria cova, e agora vai apodrecer nela.

Geralf.


Gisa caminhava pela sacada da catedral, circulando o pináculo de novo e de novo, o vento chicoteando através do seu cabelo e puxando suas roupas para uma desordem mal notada. Alguns morcegos mortos guincharam sua adoração enquanto ela passava por eles, e ela reconheceu seus serviços com um abano de dedos, incapaz até mesmo de sentir prazer na lealdade de suas asas de couro. Chamar pequenos roedores, mesmo os do tipo voador, era trabalho de criança; Geralf certamente zombaria se os visse e perguntaria naquele seu tom presunçoso e superior se ela não achava que já tinha superado esses passatempos infantis.

Ugh. Como ela sentia falta do som da sua arrogância monótona, do jeito que ele prolongava as suas vogais como se elas pudessem se erguer em julgamento sozinhas, do jeito que ele achava que sabia mais do que qualquer outra pessoa, independentemente do tópico. Ela nunca poderia ter admitido isso na cara dele, e negaria até o túmulo, mas sentia falta do irmão.

Era estranho estar longe dele por tanto tempo por motivos outros que não fossem um ou ambos estarem trancados por tolos de mente pequena que não conseguiam entender o poder da genialidade Cecani. Morrer a serviço do nome da família era um privilégio, não um direito, e as pessoas não deveriam reagir tão mal à honra. Especialmente porque não era como se eles ficassem mortos por muito tempo.

Gisa encarou o céu noturno nublado, como se o desafiasse a fazer algo que a ofendesse mais do que a última missiva do irmão. Então ela parou.

Alguém estava cavalgando pela estrada para Thraben.

Visões de Pavor | Arte por: Andrew Mar
Visões de Pavor | Arte por: Andrew Mar

Ninguém tinha vindo cavalgando por aquela estrada em meses. Ela tinha sido completamente abandonada desde que os mortos de Liliana — agora os mortos de Gisa — haviam tomado a cidade, e nenhum ser vivo ousava cruzar os seus limites! Mas agora alguém estava chegando, a luz refletindo na arma em sua mão, e o que parecia ser uma legião inteira de homens marchava atrás deles. Gisa apertou os olhos para as formas movendo-se ao longo da estrada.

Não, não eram homens. Eles moviam-se como um só, estranhamente organizados, mas sem a fluidez dos vivos; seus pés subiam e desciam no ritmo espasmódico dos mortos. Eram homens reanimados, e isso significava que a figura à sua frente devia ser o invocador de carniçais deles. Seus olhos se estreitaram. Ninguém iria reivindicar o seu território. Ninguém iria sequer desafiá-la por isso.

E isso era algo para se fazer, o que era delicioso além das palavras. Ela se virou e correu para as escadas, descendo para as profundezas da catedral, morcegos mortos-vivos esvoaçando em seu rastro e guinchando em um registro que até mesmo a maioria dos mortos não conseguia ouvir.


Wilhelt alcançou os portões de Thraben, fechados e enferrujados, desacompanhados de mãos humanas por muito mais tempo do que deveriam, e encontrou Gisa já esperando lá, seu cabelo glorioso solto, seu vestido fino rasgado nos trapos mais artísticos e elegantes. Ela deveria ter feito isso para celebrar a sua chegada, pois por que ela teria se tornado tão bonita para qualquer homem inferior?

"Bela Gisa", gritou ele, e sua voz ainda era clara e forte, apesar da escuridão do túmulo. Certamente só isso lhe diria que ele não era um carniçal comum! Quantos dos reanimados podiam falar com tanta clareza, podiam lembrar o nome da mulher que eles amaram em vida? Nenhum entre sua companhia podia conseguir tal feito! "Por fim sua solidão chegou ao fim, pois eu vim para me juntar a você!"

Gisa olhou para ele, aqueles lábios perfeitos curvando-se em um sorriso lento, aquela testa perfeita franzindo-se no que parecia a todo mundo ser confusão. Finalmente, inclinando a cabeça para o lado, ela perguntou: "Eu conheço você?"

Wilhelt a encarou. "Claro que sim", respondeu ele. "Eu sou Wilhelt, o Deslumbrante, e vim para tirar seu fôlego."

"Ainda estou usando meu fôlego", disse Gisa.

O olhar de Wilhelt transformou-se em uma carranca. "Nos conhecemos no bosque! Foi um dia glorioso, tornado ainda mais pela radiância combinada de nossa presença."

"Ah", disse Gisa, em súbito reconhecimento. "Wilham. Eu me lembro de você, sim . Você foi aquele lenhador bonitinho, muito bonitinho, que conheci enquanto eu procurava aquele antigo túmulo por novos amigos. Você foi menos interessante do que qualquer uma das coisas mortas que encontrei, e eu o deixei para as suas árvores. Não tenho espaço real para vaidade na minha vida; não com o Geralf tão consumido pela necessidade de desmaiar sobre a sua própria genialidade." Quando ele não se mexeu, ela levantou uma mão e acenou languidamente, como se aquilo fosse suficiente para apressá-lo.

Não foi. Ele ficou de boca aberta para ela, olhos mortos em descrença. "Eu vim de tão longe~ você me rejeitaria uma segunda vez, depois de tudo que eu fiz por você? Eu morri por você!" Bem, isso não era inteiramente verdade. Mas a árvore caindo que o esmagou certamente possuía um ar romântico.

"Não pareceu colar, e você se ergueu sem o benefício de um invocador de carniçais, pelo que parece", disse Gisa, e Wilhelt ficou chocado ao ouvir a dispensa em seu tom. "Tsk. Trabalho desleixado, se você me perguntar. Qualquer tolo pode plantar um arbusto. É preciso um mestre para moldar esse arbusto em um elefante."

Wilhelt continuou a encará-la enquanto ela levantava as mãos e assobiava, uma nota longa e baixa que parecia enganchar-se em torno da base de sua espinha e puxar, como um anzol deslizando em um peixe. Ele se deparou com o desejo repentino, quase irresistível, de largar o seu machado e ir até ela, de render a ferocidade de vontade que o havia chamado do túmulo para erguer um exército próprio e ir para o lado dela. De ser um escravo e não um comandante, sujeito aos caprichos e fantasias do desejo dela.

Seu braço tremeu, os músculos repentinamente cansados ​​de segurar sua grande arma no alto, e ele tremeu também, com a força de resistir. Ele tinha vindo até aqui para se juntar a ela como um igual, não como um escravo, mas aos olhos de Gisa Cecani, os mortos nunca poderiam ser iguais, nunca poderiam ser companheiros, poderiam ser amados, certamente, mantidos como animais de estimação, mas não poderiam ser seu lar ou consolo.

Ele não era uma possessão. Ele era Wilhelt, apelidado de O Deslumbrante por todas as mulheres que já o haviam contemplado — todas as mulheres, exceto por uma — e essa era a única mulher que possivelmente poderia ser boa o suficiente para ele. Ele havia chamado o seu próprio exército adiante, apesar de não ser considerado um invocador de carniçais em vida, e eles marchavam sob o seu comando. Ele não cederia. Gisa puxou. Wilhelt puxou de volta. Gisa puxou com força . Wilhelt quase tropeçou, sua vontade cedendo, antes que ele recuperasse sua firmeza mental e puxasse de volta em resposta, quebrando o vínculo entre eles enquanto o assobio de Gisa morria, sufocado em sua garganta.

Ela tossiu, cuspindo algumas notas dissonantes, depois olhou para ele com os olhos estreitados. "Então, vai ser assim?" ela perguntou.

Ele rosnou. "Eu não sou nenhum boneco para ser arrastado para seus jogos! Dê-me uma chance, bela Gisa, e eu provarei ser o seu igual na gloriosa não-vida!"

Os olhos de Gisa se estreitaram. "Muito bem, então. Eu estava ficando entediada de qualquer maneira." E ela recuou pelos portões de Thraben, batendo-os decisivamente atrás dela, deixando Wilhelt e o seu exército em pé em frente à cidade, o ímpeto quebrado, mas a mente ainda totalmente sua.


Gisa bateu a porta e virou-se para pressionar-se contra ela, como se seu corpo estreito fosse a barreira final para impedir que aquele homem e sua legião violassem as muralhas de sua cidade. Imagina, Wilham, aqui ! Em Thraben, onde ele nunca tinha sido convidado a estar, entrando como se fosse o dono do lugar! E reanimado sem ajuda, como se isso não fosse inominavelmente de mau gosto!

Pessoas morriam, tornando-se cadáveres. Invocadores de carniçais as puxavam de volta para o Plano, transformando-as em carniçais. Ou açougueiros como seu irmão usavam ciência para imbuí-las de uma paródia hedionda e desonesta de vida, como se eletricidade e conexões químicas pudessem substituir a boa e velha necromancia! As pessoas simplesmente não morriam e se levantavam de novo por vontade própria! Ou, bem, elas faziam isso, ela sabia perfeitamente que faziam, mas elas não deveriam ! Era inapropriado! Era desnecessário! Era~

Era desorganizado . Sim, essa era a palavra que ela queria.

Desorganizado, mas bem-vindo de qualquer forma, porque era algo para fazer . Geralf podia achar que era o único oponente que ela poderia ter, mas ela sabia das coisas, e isso~Wilham tinha conseguido algo improvável e irritante o suficiente para que ele pudesse muito bem representar um desafio decente. Não havia nada como a oportunidade de testar a si mesma e aos seus amados brinquedos contra uma força oponente! Oh, ela estava esperando por algo como este dia.

Quando algo bateu contra o lado de fora da porta, Gisa endireitou-se, assobiou para seus súditos voltarem a ela e correu. Não que ela tivesse medo de um homem morto, oh não, nem no mínimo, mas ele estava com toda a sua força na estrada antes da cidade dela, enquanto ela estava sendo atendida apenas pelos poucos que estavam perto o suficiente para se juntarem a ela sem aviso prévio. Se ele viesse com sua força, ele se encontraria com ela em toda a sua glória, e eles veriam quem era o superior na dança dos mortos-vivos. Ele aprenderia, como todos os outros tinham aprendido antes dele, que aqueles que subestimavam Gisa Cecani faziam isso por sua conta e risco.

Eles raramente faziam qualquer outra coisa depois disso, a menos que ela pedisse a eles.


Os cascos do garanhão de Wilhelt bateram contra as portas enferrujadas de Thraben com ecos profundos e ressoantes enquanto Wilhelt incitava a besta, até que a porta desmoronou entre um golpe e o outro e a cidade jazia aberta diante deles. Wilhelt incitou as suas tropas pela abertura, escolhendo — sabiamente — cavalgar no centro da formação, em vez de na frente. Eles precisavam que ele os dirigisse, e ele não poderia fazer isso se não pudesse ver para onde estava indo.

Sim. Aquela era absolutamente a razão, e não o vago medo do que uma invocadora de carniçais enfurecida poderia fazer quando encurralada em seu próprio covil. Ele incitou o seu exército para a frente e eles, não tendo vontade própria, foram. Ele cavalgava bem envolto pelos corpos em decomposição de seus companheiros e não percebeu o céu acima dele começar a escurecer.

Eles passaram por baixo de uma ponte de pedra e, quando saíram pelo outro lado, o céu continuou escuro como uma sombra sobre eles. Wilhelt olhou para cima.

O véu rodopiante de morcegos e corvos, gralhas e abutres, abriu bocas apodrecidas, guinchou com gargantas apodrecidas e desceu.


Somente os invocadores de carniçais mais poderosos podem assobiar para as bestas de suas tocas, chamá-las para fora de seus ninhos, mas aqueles que podem tendem a ter um carinho notável pelo enxame, pelo ninho de ratos ou bando de morcegos que caiu em suas mãos. Gisa, dada a população de uma cidade para dobrar aos seus desígnios, não era diferente. Pássaros mortos-vivos e em decomposição caíram do céu para golpear as suas garras contra Wilhelt e os seus homens. Infrutiferamente, eles afastaram os seus agressores enquanto Wilhelt protegia o seu rosto com os braços antes de rugir com fúria e balançar o seu machado em um grande arco, aves divididas caindo como chuva. Ele balançou de novo, e de novo, e riu quando seus súditos começaram a arrancar as coisas voadoras do ar e parti-las em duas.

E ele continuou cavalgando.

Zumbi de Cerco | Arte por: Johann Bodin
Zumbi de Cerco | Arte por: Johann Bodin

Eles passaram pela entrada da cidade e foram para a ampla avenida que outrora havia marcado o pequeno, mas movimentado distrito comercial. As lojas estavam vazias, as portas entreabertas, as janelas escuras. Wilhelt incitou seus homens a avançar.

Eles estavam no meio da avenida quando os mortos surgiram dos edifícios de ambos os lados, com as mãos erguidas, prontos para pegar e rasgar e matar.

"GIIISSSSAAAAA! " rugiu Wilhelt, brandindo o seu machado enquanto a batalha grassava ao seu redor. Seu cavalo empinou e golpeou, cravando os cascos ósseos afiados em crânios quebradiços.

"Você não precisa gritar ", disse uma voz irritada da passarela acima. Wilhelt levantou a cabeça.

"Vamos lá, Wilham, não precisa ser assim", disse ela. "Por que não entregá-los à invocadora de carniçais superior? Será um final melhor do que aquele que eles estão encontrando agora~"

Desesperadamente, Wilhelt olhou para trás para os seus homens. Eles estavam lutando bravamente, mas enquanto ele tinha um exército, Gisa tinha uma população . Para cada um que os seus homens destruíam, mais três corriam para tomar o seu lugar, ainda despejando incessantemente das lojas quebradas. Se isso continuasse, eles perderiam. Ele se voltou para Gisa.

"Não", rosnou ele. "Eu vou provar a você que podemos ser mais do que brinquedos!"

"Mas aqui está você, brincando com os seus soldadinhos." Gisa suspirou. "Muito bem. Adeus, Wilham." Então ela se afastou bruscamente pela passarela, sem olhar para trás, enquanto os seus soldados avançavam.

Ela ainda era linda. Wilhelt a observou partir, saudoso como ele sempre esteve, enquanto os mortos de Gisa lutavam com a sua própria linha numa troca de golpes brutal e apática. Eles não poderiam ter esperança de vencer — ele entendia isso agora. Mas talvez um triunfo de armas (e pernas, e cabeças decepadas) não fosse o único caminho para o coração de Gisa.

Wilhelt meteu a mão debaixo da couraça e tirou a carta que ele carregara perto do seu próprio coração sem batimentos desde a sua ressurreição. Tinha sido escrita antes que os seus dedos ficassem rígidos além da formação de palavras simples e ainda era muito legível, para um carniçal. Sério, como ela poderia deixar de ficar impressionada com ele?

Virando-se para os seus homens, ele selecionou um dos menos deteriorados, que parecia razoavelmente ativo, e enfiou a carta na sua direção. "Vá", comandou ele. "Você é o meu presente para ela. Corra até que ela ordene o contrário, apenas cuide de lhe entregar a carta antes de entregar a sua vontade."

O homem pegou na carta e correu, arrastando-se e tropeçando, na direção que Gisa tinha ido.


Gisa posicionou-se bem no centro da praça, flexionando as mãos e respirando rapidamente. Ela não devia estar tão entusiasmada com a ideia de uma luta com alguém que não fosse o estúpido, estúpido Geralf, mas estava; este "Wilham" poderia ser nada além de um carniçal, mas ele ainda tinha conseguido criar um exército próprio e vir enfrentá-la. Ele era muito pegajoso — ela não o ia convidar a partilhar o covil dela tão cedo — mas ele era intrigante. Ela estava disposta a admitir isso.

Um único carniçal correu para a praça, em direção a ela, com um envelope agarrado na mão. Ela assobiou e sentiu o gancho de sua canção afundar na sua mente em decomposição, tirando-o das garras de Wilham num instante. Ela sorriu quando o rapaz caminhou mais calmamente para o lado dela, agora devidamente sob o seu controle, e arrancou o envelope da mão dele.

Dentro havia uma única folha de papel. Ela piscou, lendo-o duas vezes antes de amassar até formar uma bola e jogá-lo no chão.

"Bela Gisa—

Eu vivi por você. Eu amei por você. Eu morri por você. Eu me ergui por você.

Tudo o que eu fiz na minha existência foi para ganhar a sua consideração.

Faça-me o mais feliz dos homens ou carniçais, e seja a minha rainha.

Wilhelt."

WILHELT. Como se ela fosse errar o seu nome, se ele importasse metade do que pensava importar! A presunção do homem, de vir ao seu território, de lhe negar os carniçais que eram tão legitimamente dela, e depois insinuar que ela poderia estar errada sobre algo tão básico quanto um nome!

Ela resolveu destruí-lo.

O exército invasor cavalgou para a praça, com o seu lindo líder em decomposição na sua frente. Pela primeira vez, ele desmontou do cavalo, caminhando para a frente com o machado na mão.

"Gisa!"

Ela revirou os olhos. "Sim, Wilham, eu sei o meu próprio nome. Esta é a sua última chance — renda os seus carniçais, e a si mesmo, para mim, e eu vou deixá-lo — bem, não viver. Mas você entende a ideia."

Ele olhou para a folha de papel amassada no chão e o seu rosto caiu. "Ninguém jamais resistiu aos meus encantos."

"Doce Wilham. Há uma primeira vez para tudo." Ela assobiou, aguda e rápida, e ele sentiu o domínio sobre os seus homens ser apanhado de novo por aquela força invisível. Ele sabia que era a Gisa lutando para os arrancar dali. Wilhelt rugiu e puxou para trás, deliciado ao ver Gisa tropeçar, ainda que só um bocadinho; ele era forte, está a ver? Ele podia obrigá-la a ouvir!

Então Gisa gritou, e todos os morcegos de Thraben desceram.

Noitada dos Carniçais | Arte por: Fajareka Setiawan
Noitada dos Carniçais | Arte por: Fajareka Setiawan

Não parecia possível que algo tão pequeno como um morcego pudesse possuir tantos dentes afiados como navalhas, ou atacar com tanta ferocidade. Para cada um que Wilhelt ou os seus homens esbofeteavam do ar, mais quatro avançavam, dando guinchos estridentes e rasgando qualquer carne exposta. Nem mesmo a armadura era defesa contra um fluxo infinito de roedores voadores que mordiam e cujo próprio sentido de autopreservação tinha sido removido.

No final, com os restos cambaleantes do seu exército ao seu lado, Wilhelt foi forçado a virar e fugir, para que a sua segunda, e presumivelmente final, vida não terminasse tão abruptamente como a primeira.


Gisa tirou a si mesma do vidro estilhaçado que cobria os degraus da catedral, gritos dos mortos ainda a soar nos ouvidos dela, altos o suficiente para quase obscurecer as batidas relaxantes do seu coração. Geralf nunca a deixaria ouvir o fim disso se ela morresse antes dele! Pedaços de cadáver partido estavam espalhados à volta da praça, humanos e de outras criaturas; um par de corvos mortos-vivos picou os olhos do cavalo de Wilham, caído e decapitado, a cabeça — e os olhos — a alguma distância do resto.

O próprio Wilham tinha sumido. Gisa não conseguiu encontrar um único pedaço dele.

Ela olhou em volta da praça coberta de sangue e suspirou. Esse era o fim deste jogo, então. Bem, havia sempre o próximo para ser retomado.

E o Geralf não ia ficar satisfeito de a ver?


Meu queridíssimo irmão—

Concluí que você está perdido sem mim e precisa da minha presença amorosa de irmã para dar sentido à sua vida desperdiçada. Estou a caminho de você agora e deverei estar aí dentro de sete dias. Tenha um quarto pronto para mim. Mal posso esperar para ver o que você andou fazendo enquanto eu estava ocupada governando a cidade que sua inútil namorada abandonou!

Mais uma vez, a sua irmã adorável,

Gisa.


Gisa,

O quê? Não! Eu não exijo a sua presença, que nunca foi amorosa, e só pode ser chamada de fraterna pela tecnicidade de sermos infelizmente parentes! Você só vai interromper a minha pesquisa. Por favor, por favor, se você tiver que sair de Thraben, vá para qualquer outro lugar de toda a Innistrad, eu imploro. Qualquer lugar menos aqui.

A mais absoluta certeza NÃO seu,

Geralf.

Episódio 5: A Noite se Encerra

Autor: K. Arsenault Rivera | Data: 29/09/2021

"Cuidado na floresta, Arlinn," ele diz. A voz de seu pai é forte e firme, mas há um pouco de ranger nela—como um carvalho cujos galhos bocejam sob pressão. Lá está ele em sua oficina—ela pode vê-lo tão claramente agora—cercado pelo trabalho de suas próprias duas mãos. Símbolos sagrados inundam as paredes como mariposas cobrindo uma lanterna. Ele não olha para ela.

Quando ela pisca, ele se foi.

Anos depois, e após viajar pelo Multiverso, ela finalmente criou coragem suficiente para voltar para casa. Pedregulho e Rastro conhecem o peso do que ela pretende fazer. E, claro, se seus pais humanos a rejeitarem, pelo menos ela tem sua matilha. A presença deles é constante, sua lealdade duramente conquistada. Ela lhes oferece orientação, e eles lhe oferecem pertencimento. Há força nisso. Então, ela sobe a colina até a velha forja. Mas não há nada lá. Uma casca a encontra: fundações enegrecidas projetando-se da terra. Uma parede que ela outrora rabiscou quando criança. Os aldeões não a reconhecem, então eles são receosos em dizer a ela o que aconteceu, mas ela descobre eventualmente. Um incêndio. Deve ter sido algum acidente com a forja. A casa inteira subiu em chamas. Que pena—não pode ser evitado.

Ela pisca. De volta ao presente.

Duelo por Dominância | Arte por: Ryan Pancoast
Duelo por Dominância | Arte por: Ryan Pancoast

Tovolar está diante dela. Não importa o quanto sua forma mude, seus olhos permanecem os mesmos: ardentes, rápidos, brilhantes como brasas. Ele mostra os dentes. Um sorriso, ela pensa.

Esta não é a primeira vez. Houve outra anos atrás quando eles se encontraram em um semicírculo de seus irmãos. Ela tentou e falhou em matá-lo; ele tentou e falhou em mantê-la. Ele vestia a pele do cervo branco. A luta a arruinou, ela se lembra, vagamente, arrancando-a de seus ombros num ataque de raiva. Ela estava com raiva então, também.

Mas não tão com raiva quanto está agora.

O único pensamento de Arlinn Kord é apagar o sorriso do rosto de Tovolar.

Para frente. Pernas poderosas a mandam voando pelo ar; suas mandíbulas estão prontas para prender na garganta dele. Em vez disso, elas encontram um antebraço levantado no momento exato. Sangue enche sua boca da mesma forma—espesso e rico em cobre. Suas narinas inflamam mesmo quando Tovolar torce, usando o ímpeto dela para mandá-la ao chão.

Mas você não pode manter um lobo faminto no chão por muito tempo. No momento em que suas patas traseiras atingem a terra, ela já está de volta de pé, já avançando em direção a ele novamente.

Ele abre os braços. A cicatriz no peito dele passa para esta forma, também. Quando ela pisca, não há branco em sua pelagem, e a ferida está sangrando vermelho, vermelho, vermelho.

"Venha para casa," ele diz.

Foi o que ele disse então?

Não importa.

Um uivo sai de sua garganta. Ela vai para cima dele novamente, arranhando-o, os músculos em seu peito e braços se esticando.

Ele não se move. Garras rasgam pelo e carne, abrindo-o novamente, e ainda assim, ele não para de sorrir. Como?

Não há tempo para se deter; ele está sobre ela agora, investindo contra sua cintura. Suas costelas gemem, ameaçando rachar; ele não vai largar tão cedo. Ela planta seus pés mais fundo no chão. Se ele quiser levantá-la, vai ter que abrir mão de muito para fazê-lo; daqui, ela pode chover golpes nas costas dele. Sangue corre em rios pela sua pelagem, cada nova ferida a levando ainda mais fundo no poço da selva.

Ainda assim, assim como ele não consegue pará-la, ela não consegue pará-lo. Apenas três golpes acertam antes que ele a erga e a jogue num tronco de árvore rachado. Velas voam, enviadas cambaleando pelo impacto; o fogo lambe os cortes que a madeira agora abriu.

Ele é um tolo se acha que isso pode segurá-la. Não importa o pedaço de madeira enterrado no ombro dela. Arlinn planta seus pés ao longo de um canto do tronco e seus ombros junto com o outro. Um grunhido lhe dá força suficiente para abrir caminho para fora. Ela arranca a madeira de seu ombro e a crava direto na perna de Tovolar.

Isso, finalmente, consegue apagar o sorriso. Um grande uivo enche o terreno do festival—um uivo que perfura o caos da batalha. Quando ele agarra a madeira em sua mão enorme com um aperto trêmulo; com alguma pequena satisfação, a Fera de Arlinn Kord percebe que ela o perfurou de lado a lado.

A vitória dura pouco. Dentes afundam em seus ombros, peso a puxando para baixo. Há muitas coisas ao mesmo tempo para acompanhar. Ela cai—sua cabeça rachando contra o capacete descartado de um guarda morto. Seus ouvidos zumbem. Por um momento, ela não ouve nada—nem os gritos dos participantes em fuga, nem as ordens gritadas de Adeline, nem o rugido das chamas de Chandra.

E não o rosnado dos lobos assomando sobre ela.

Como seus rostos são familiares! Com que frequência ela os viu no meio de uma caçada! Ali está Dente-vermelho, fazendo jus ao seu nome, pelos arrepiados; ali está Pedregulho a seus pés; ali está Rastro com as mandíbulas firmemente travadas em seu ombro já ferido. Focinhos que ela viu tantas vezes brincando agora caem sobre ela com a terrível presença de um predador.

E então Tovolar está sobre ela de novo.

Ela tenta se levantar. A tontura a manda cambaleando para trás, seguida logo em seguida por seu ombro ameaçando rasgar. A náusea para em sua garganta.

A boca dele está se movendo. Ela não consegue ouvir o que ele está dizendo—o zumbido em seus ouvidos soa muito como sinos de igreja.

Que igreja estranha é essa, com gritos como hinos e a sujeira do campo de batalha como incenso.

Ela fecha os olhos.

A Grande Catedral em Thraben. Worrin atrás de uma escrivaninha. Innistrad nasceu na escuridão, e para a escuridão deseja retornar. É por essa razão que cada um de nós deve cuidar de sua própria luz.

Foi ele quem a recomendou para os Arquimagos.

O que ele acharia dela agora? Será que o geist dele soube quando a viu?

O zumbido diminui. Tovolar está falando—ela pode ouvi-lo como se fosse de outro cômodo—mas, mais do que isso, ela pode ouvir seus lobos. Aquele rosnado baixo que eles geralmente direcionavam à sua próxima refeição.

Mas não é bem aquele rosnado, é?

Ela abre os olhos de novo.

Lá está ele, arrancando o pedaço de madeira da perna. Sangue pinga em seu focinho.

"Casa~"

Isto não é casa.

Ela tenta se sentar de novo, tenta dar uma cabeçada nele, mas os dentes de Pedregulho se fecham e ele a empurra de volta.

"Não precisamos lutar," ele diz.

Misericórdia dos anjos, ela quer vomitar. A língua dela é chumbo no focinho. É difícil o suficiente entender a fala dos lobos sem um ferimento na cabeça.

"Junte-se à caçada," ele diz. "Isto é quem você é. Você não entende? Você não precisa mais se esconder."

Agora ele está estendendo uma pata para ela. Tudo nela quer dar um tapa naquilo. Tudo o que isso faz é mostrar a ela que ele pode se controlar, mas escolhe não fazê-lo. É assim que ele consegue falar nesta forma.

"A Igreja odeia essa parte de você," ele diz. "Mas eu não. A matilha não."

E é então—talvez por providência divina—que Arlinn percebe algo.

Paciência não está com seus companheiros de matilha.

Arlinn engole em seco a bile. Se ela tentar~sim, ela pode cheirar que Paciência está por perto. O cheiro é fraco comparado ao sangue e ao suor na linha de frente, mas está lá. Seus olhos ainda estão girando, mas se ela tentar, pode focar e—

Lá. Na luz agonizante do dia, Paciência está esperando por ela. Ela se senta afastada dos outros, fora do alcance da mão direita de Arlinn, mas no momento em que elas cruzam os olhares, Paciência começa a correr em sua direção.

Tovolar é insistente. "Diga-me que você está vindo para casa. Agora mesmo. Diga-me que você está vindo para casa, e eu deixo você ir."

Pelo macio contra sua palma. Seu estômago se assenta, só por um instante.

"Arlinn. Por favor. Queremos você conosco. Você pertence a nós."

Ela fecha os olhos de novo. Lá: os vitrais da catedral.

A luz muda. Uma clareira na floresta, e os quatro lobos dentro dela.

Ela caminha em frente, para a luz, e eles a cercam.

Arlinn abre os olhos. Agora ela entende: ele não vai desistir até ela dizer o que ele quer ouvir.

"Estou em casa," ela diz. Mesmo essas duas palavras saem arrastadas, mesmo isso é um grande esforço, mas ela consegue.

Não é mentira.

A floresta é sua casa, os lobos são sua casa, a Igreja é sua casa, tudo isso é.

Mesmo enquanto ele a ajuda a se levantar, mesmo enquanto a abraça forte—isso, também, é casa. Para uma jovem Arlinn recém-transformada, esse simples gesto uma vez significou o mundo. E ainda significa, agora, saber que ainda há essa quantidade de gentileza nele.

Mas a ferocidade, a falta de misericórdia—elas o dominaram. Qualquer bondade que ele demonstre agora não pode apagar o que ele fez hoje. O Tovolar que cuidou dela cresceu e se tornou o Tovolar que ataca inocentes, e ela se afastou dele.

Ainda assim, ela sabe, também, que ele não se afastou dela.

Tonta e sangrando como está, ela não terá muito tempo ou oportunidade para conseguir um ângulo melhor do que este. É desleal. Alguns poderiam até dizer que não é certo.

Mas se parar esse ataque, então não há nada mais certo em toda a Innistrad.

Ela crava suas garras fundo no esterno dele.

Tovolar cambaleia. A compreensão demora a amanhecer; ele a segura, se é que segura, mais forte.

"Innistrad é minha casa, Tovolar," ela diz. "E enquanto eu puder respirar, vou protegê-la."

Um suspiro é sua única resposta—seu aperto se torna malicioso enquanto suas garras afundam no ombro já ferido dela.

Ela fica de pé, a mão ainda enterrada nele. "Cancele o ataque."

Defender o Celestus | Arte por: Andrey Kuzinskiy
Defender o Celestus | Arte por: Andrey Kuzinskiy

Como é estranho ver os olhos dele escurecendo dessa maneira. Ele é resistente o suficiente para viver, ela tem quase certeza, e provavelmente viverá assim que os xamãs derem uma olhada nele—mas ela nunca o viu cambalear dessa forma. Nem mesmo na primeira vez que lutaram na clareira. Não é simplesmente que ela o machucou fisicamente. Algo dentro dele está quebrado, algo que ela não pode sentir daqui.

"Você mentiu," ele raspa.

"Cancele," ela repete.

Ele aperta os olhos para fechá-los. Ela se pergunta o que ele vê. É a garota que ele encontrou na floresta naquele dia, ou é algo mais—algo que o levou a esse nível de crueldade inimaginável?

Seja o que for, o traz de volta a si. Em um gorgolejo sufocado, ele diz: "Tudo bem."

Ela o coloca no chão, retira a mão, certifica-se de que ele está sentado. Os outros o comerão vivo se o pegarem dobrado.

Ele olha para ela de novo, e ela balança a cabeça.

O uivo sobe logo depois disso, um chamado de retirada que apenas os lobos entendem.

Ele não pede que ela o siga.


Como formigas rastejando sobre um corpo, mas ao contrário: os lobos deixando os restos descoloridos como ossos do Massacre da Colheita.

O nome já nasceu. Dos lábios dos cátaros que agora estão machucados e espancados, das bruxas que vasculham os corpos em busca daqueles que precisam de ajuda, a palavra já foi formada: massacre .

Arlinn não consegue olhar para isso por muito tempo. Muito parecido com as Aflições. Pior, de certa forma, com todas as decorações infantis agora espalhadas como o lixo da tempestade. Abóboras esculpidas esmagadas sob os corpos dos mortos; cidra derramando livremente em poças de sangue; barracas caprichosas partidas em dois pelos corpos de seus donos.

Há menos de uma hora, este era um lugar de esperança.

O que é agora?

Arlinn engole em seco. Ela quer ajudar. Seu lugar é com as bruxas e os cátaros, cuidando dos caídos, mas se Katilda não completar seu ritual, então não haverá ninguém para cuidar. As efígies esmagadas ao seu redor são um lembrete sombrio disso.

Innistrad perdura.

Ela tem que marchar adiante.


Enquanto as bruxas e os guardas restantes cuidam dos feridos, os Guias de Velas continuam sorrindo seus sorrisos estranhos, apontando o caminho para os mortos.

E há tantos mortos.

O festival de Katilda foi um sucesso estrondoso da pior maneira possível. Ver tal multidão de corpos deitados de uma só vez é impensável para Arlinn. Seus pais nunca acreditariam. Eles nunca teriam comparecido, teriam torcido o nariz e resmungado que a segurança repousa no isolamento. Então, como agora, ela sabe o que eles realmente queriam dizer—que segurança e medo eram a mesma coisa.

Eles estão errados.

Todos cuidando de si mesmos, pensando em si mesmos, foi assim que Innistrad chegou aqui. Vampiros subindo em direção à eternidade nas costas dos mortais; lobisomens caçando as pessoas que eles deveriam proteger. A divisão causou isso. Se os lobos tivessem percebido a importância de manter o dia e a noite em equilíbrio, eles poderiam ter protegido o festival em vez disso.

Mas esse pensamento é doloroso.

Ela salta adiante. Haverá tempo para o luto depois, tempo para elogiar os mortos e explicar às suas famílias o que deu errado. Para que qualquer parte disso signifique algo, o ritual deve ser completado.

Aqueles reunidos abaixo do Celestus devem saber que vale alguma coisa.

Seu corpo dói, suas patas dianteiras e ombros gritando a cada passo longo, mas ela avança da mesma forma—o único lobo indo em direção ao Celestus. Desligue o choro, desligue os gritos—apenas corra.

Mas há uma voz que é impossível desligar completamente.

"Arlinn!"

Chandra está gritando. O cavalo branco de Adeline surge à direita de Arlinn, galopando por sua vida em direção ao Celestus. Há algumas horas, ela odiaria ser superada por um cavalo , de todas as coisas, mas agora tudo que sente é alívio.

Porque Chandra está estendendo a mão. "Você está em mau estado, venha conosco!" ela grita. "Teferi foi na frente com alguns dos outros, nós temos que alcançá-los!"

Alcançar, ficar juntos.

É a única maneira de ir.

Mudando para sua forma humana, Arlinn pega a mão de Chandra.


Um canto as encontra primeiro. Arlinn não consegue decifrar as palavras, mas os sons têm a forma de imponentes carvalhos e velhos rios. Um brilho percorre os braços do Celestus, e ela pensa consigo mesma, recostada em Adeline, que eles parecem com os pegadores do seu pai, recém saídos do fogo.

Arrasar a Efígie | Arte por: Cristi Balanescu
Arrasar a Efígie | Arte por: Cristi Balanescu

Isso traz um sorriso vertiginoso ao seu rosto. Mas talvez seja a perda de sangue, também.

"Chandra, não parece~"

"Parece que elas estão quase terminando, sim," ela responde. Não faz sentido corrigi-la. Arlinn olha para a frente.

Chandra está certa: seja lá o que elas estejam fazendo, deve estar perto da conclusão. É difícil discernir os detalhes devido à densa multidão reunida ao redor da plataforma central, mas isso é mais motivo de alegria do que de preocupação.

Elas vão direto para a multidão. A armadura de Adeline e a chama de Chandra servem como símbolos de sua posição; jorros de fogo dizem tanto para se manter afastado quanto que a luta ainda não acabou. Tonta como está, Arlinn só consegue decifrar parcialmente os rostos ao redor—mas a esperança nos olhos deles brilha intensamente.

E todos eles estão acompanhando o cântico com a boca.

Que cadência estranha isso tem, rítmica e crescente, desafiadora e assustadora. Sílabas alongadas rastejam pelos seus ouvidos e dançam lá, puxando os pensamentos dela junto com elas. Se isso é magia, então é uma magia muito antiga. Está se instalando em suas veias agora.

Mais e mais perto da plataforma central. Elas podem vê-la agora, ver as máscaras do Coven de Aurora-Cervo movendo-se para lá e para cá. Cinco na beirada da plataforma batem tambor no ritmo do cântico; cinco entre elas lideram uma dança dissonante. No centro, duas: Katilda, sua máscara sombreando grande parte de seu rosto, a Chave de Prata Lunar segurada em suas mãos como algo sagrado e puro; Kaya, pronta para agir, vasculhando o horizonte em busca delas.

Quando Kaya as avista, começa a acenar os braços e a chamá-las.

A ponte de madeira se abre diante delas. Chandra é a primeira a descer do cavalo e logo ajuda Adeline a descer. As duas tentam apoiar Arlinn na descida. Com uma cátara de um lado e uma piromante do outro, não há muito espaço para Arlinn balançar. Melhor assim.

Um passo. Outro. A madeira cede embaixo delas, range, e isso também é parte da canção assustadora da floresta—o cântico que vive agora em seus pulmões.

Um passo, outro. O que os anjos pensariam disso? O que a Igreja pensaria? Isso não é nada como um hino, nada como uma oração; é algo diferente, mas igualmente real. Como é que as palavras brotam tão rapidamente aos seus lábios quando ela nunca as ouviu antes? Elas estiveram gravadas em seus ossos todo esse tempo?

Um passo, outro. As bruxas estão reunidas diante delas. De uma só vez, elas se viram para Chandra, Adeline e Arlinn. Olhares se encontram sob galhos tortos e ossos. Prata rodopia dentro das íris das bruxas—sim, esta é uma magia muito antiga.

De uma só vez, as bruxas falam em suas vozes coletivas: "Arlinn Kord."

Ela engole em seco.

Chandra e Adeline trocam olhares por cima dos ombros dela. Juntas, elas a ajudam a chegar ao altar. Diante dela há uma tigela de ouro, feita para a luz do sol e mel, cercada por ervas secas e ossos velhos.

Os olhos de Innistrad estão sobre ela.

"Eu vim," ela responde. Parece a coisa certa a dizer.

"Filha de Sangue e Presa. Você está na linha do Amanhecer, onde Noite e Dia se encontram. Você nos emprestará sua força." Eu não sou criança há muito tempo , ela quase diz, mas não se interrompem antigos rituais. Katilda devia saber mais sobre ela do que ela pensava. "O que vocês precisam?"

Ela direciona a pergunta para Katilda, porque, embora toda a multidão reunida agora fale como um só, ela tem certeza de que é Katilda quem está puxando as cordas. Tudo tem o cheiro dela.

"Você derramará seu sangue pelo dia? Suas presas protegerão aqueles que vivem com medo?"

Os olhos dela correm de uma bruxa para a outra, para Teferi e Kaya, para Chandra e Adeline. Ninguém parece entender o que exatamente tudo isso significa.

"Eu o farei," ela responde. Disso, ela tem certeza.

Segredos da Chave | Arte por: Alix Branwyn
Segredos da Chave | Arte por: Alix Branwyn
"Unja a Tranca Ourosolar."

Sangue e presa, não era? Tonta ainda, encostada no altar para se apoiar, Arlinn toca o ferimento dolorido em seu ombro. Isso ela então esfrega no interior da tigela—sua superfície surpreendentemente quente ao toque. Em seguida, ela pega uma das ervas e a morde. Um sabor amargo preenche sua boca, um alívio bem-vindo do gosto de metal. Ela a coloca em cima do pequeno borrão vermelho.

A tigela começa a zumbir.

E o Celestus, também. Grandes engrenagens gemem ao ganharem vida mais uma vez; no alto, as sombras se movem enquanto os braços lutam contra a ferrugem e as raízes que os prendem. O chão se move debaixo dela, mas ela mantém as mãos no altar. Uma sorte, também, ou ela teria caído.

Kaya pousa a Chave de Prata Lunar quando Katilda gesticula pedindo por ela.

"O coven oferece raiz e alma."

Ela pega uma raiz retorcida do tamanho do braço de Arlinn, uma coisa possivelmente tão velha quanto a própria Innistrad. Às vezes, você reconhece a idade quando a vê. Antes que Arlinn possa começar a pensar de onde a raiz veio, Katilda dá um peteleco na ponta com seu dedo. Instantaneamente, ela se desfaz em cinzas. Isso Katilda esfrega no interior da tigela, diretamente oposto ao sangue de Arlinn.

Essa raiz está explicada. Mas e uma alma? Arlinn não gosta do som disso.

Ela está prestes a perguntar quando Katilda cruza os olhos com ela. A aura emanando dela—não haverá perguntas aqui, não haverá interrupções. O ritual deve continuar.

E são os olhos de Katilda que a denunciam: um brilho prateado os toma e então escorre para fora. A boca dela se abre debilmente e dali também escorre uma corrente prateada—e elas se combinam, fluindo para a tigela.

As outras bruxas enlaçam os braços nos de Katilda para ampará-la, à medida que o corpo dela começa a ficar inerte. O medo aumenta no peito de Arlinn. Isso não é~permanente, é? Os olhos dela vão das bruxas para Kaya. Ela articula com os lábios, Isso está certo?

Mas ela nunca obtém a resposta.

Porque Kaya está olhando para cima para outra coisa, e uma sombra cresce ameaçadoramente sobre o altar.

Algo cheira à morte.

Acontece mais rápido do que um olho humano pode acompanhar, mas convenientemente apenas rápido o suficiente para Arlinn: um raio vermelho e dourado desce do céu; Katilda engolida por sua cor impossível. Dentro daquele raio: Olivia Voldaren. Não há como confundir; ela nunca quereria que alguém a confundisse. A mão estendida para a Chave de Prata Lunar está estampada com o brasão dos Voldaren, assim como o restante de sua armadura.

E não há como elas permitirem que ela consiga a chave.

Arlinn salta para pegá-la, apertando-a perto do estômago enquanto atinge o chão. O chiado de sua pele queimando é um pequeno preço a pagar por mantê-la a salvo. Até então, Olivia havia ganhado o céu acima deles. O corpo de Katilda pende inerte em seus braços. Olivia zomba deles, seus ombros subindo e descendo com o zurro de sua risada terrível.

"Parece que estamos num impasse," ela diz. "Eu estou com sua bruxa; você está com a minha chave."

Arlinn fica de joelhos, a chave ainda segura com firmeza. Algo nela parece diferente agora—mais fria. "Nenhum deles é seu."

"Pelo contrário," Olivia responde. "Essa chave é muitíssimo minha. Eu preciso dela terrivelmente, você vê. O que eu não preciso é de uma velha bruxa murcha."

Kaya está ao lado de Arlinn em um instante. Ela fica feliz pela companhia, mesmo que as notícias que Kaya traga causem um arrepio na espinha de Arlinn. "Tem algo acontecendo com a alma de Katilda. Durante o ritual, eu a vi deixá-la, e então~"

"E então?" diz Arlinn.

Kaya franze o cenho. "Olivia apareceu. Difícil ver o que aconteceu depois."

Chandra é a próxima, com as mãos tremendo, os olhos fixos na vampira flutuante. "Nós a explodimos, certo?"

"Não podemos fazer isso. Podemos acertar Katilda," responde Kaya.

Lá em cima, Olivia dá um suspiro teatral. Com todo o charme de uma viúva extremamente entediada, ela arrasta as garras pelo peito de Katilda. O sangue jorra nas bruxas encolhidas de medo, na multidão hipnotizada. "É uma proposta muito simples. Estou começando a ficar entediada de esperar por uma resposta. Ou você me dá aquela chave e eu começo a planejar minhas festividades ou você continua hesitando e sua amiga morre."

Arlinn faz uma careta. "E se nós completarmos o ritual?"

"Temos tempo para isso? Nós sabemos como fazer isso?" sussurra Kaya.

Tempo. A mente dela vai para Teferi, por aqui em algum lugar, mas mesmo se ela pudesse encontrá-lo, ele não conseguiria ganhar tempo suficiente. Desacelerar o sol não é uma tarefa pequena—ela não ficaria surpresa se ele ficasse fora de combate por alguns dias.

Tem que haver outra resposta.

Seus olhos param em duas das outras bruxas. "O ritual?" ela late.

Mas elas balançam as cabeças. "Tinha que ser ela," responde uma. "O feitiço é velho demais para nós—"

"Chato !" grita Olivia. Ela levanta a mão para outro golpe—

Simplesmente não há tempo suficiente. Não há tempo para considerar tudo, não há tempo para encontrar outra maneira de passar por tudo isso, não há tempo para forçar isso com força bruta.

Innistrad deve sobreviver.

Arlinn arremessa a chave com o braço bom.

Os olhos de Olivia se iluminam. Mais uma vez, acontece rapidamente—ela apanha a chave do ar com sua mão livre. Estudá-la apenas atiça o fogo de sua alegria, mesmo quando a fumaça sobe de seus dedos.

"Solte Katilda!" grita Arlinn.

A alegria se transforma em desgosto. "Isso não é maneira de tratar uma futura noiva," ela diz.

"Um acordo é um acordo," diz Kaya. Arlinn fica um pouco surpresa ao ouvi-la, surpresa que seja ela a entender, mas ela aceita a ajuda. "Entregue-a."

"Tudo bem," responde Olivia. "Pega."

A Emboscada à Meia-noite de Olivia | Arte por: Chris Rallis
A Emboscada à Meia-noite de Olivia | Arte por: Chris Rallis

Nos tempos que virão, Arlinn pensará sobre este momento e no que ela poderia ter feito diferente. Se ela tivesse se movido um pouco mais rápido, teria sido tão ruim? Se ela tivesse agido mais cedo, se ela tivesse escolhido outra coisa—o que teria acontecido?

Pois uma coisa é cair de uma grande altura e outra completamente diferente é quando um vampiro joga você. O corpo de Katilda voa em direção ao altar a uma velocidade surpreendente.

Tudo que Arlinn pode fazer é amortecer sua queda—jogar a si mesma entre elas—mas mesmo isso só pode fazer até certo ponto. Ossos quebram quando ela bate contra Arlinn, e Arlinn bate contra o altar.

No momento em que o mundo para de girar, a vampira já se foi. Voou para longe pelos ares—um pontinho preto distante contra o céu já escuro.

A chave foi com ela.

O Celestus ficou em silêncio.

É noite em Innistrad.

Será noite daqui para a eternidade.

O Crepúsculo Renascido

Autor: Rhiannon Rasmussen | Data: 01/10/2021

As florestas de Innistrad não eram um lugar acolhedor: espessas, sombrias, os galhos esguios das árvores retorcidas e as folhas sussurrantes ocultando até mesmo a luz bruxuleante da lua cheia de inverno. Como muito mais nas charnecas, não era feito para a vida humana. O covil de cadáveres e aparições.

No entanto, Algli lembrava-se de uma época em que as raízes não pareciam se arrancar do chão da floresta para tropeçá-la enquanto ela passava, quando a sensação de ser observada por olhos famintos vinha apenas à medida que ela viajava mais fundo. Agora, o simples relance para a linha das árvores a partir da reles segurança da cidade trazia aquele formigamento de medo descendo por sua espinha.

Invasora de Cemitério | Arte por: Chris Rallis
Invasora de Cemitério | Arte por: Chris Rallis

Esta mudança tinha vindo durante a vida de Algli. Ela e seu marido tinham sido curtidores, vivendo logo fora da cidade devido ao fedor de sua profissão. Seu curtume era pequeno, mas seu trabalho era bom, e eles se orgulhavam disso; seu marido lidava com as peles enquanto Algli moldava o couro em armaduras, bolsas e odres de vinho.

Quando os primeiros rumores de problemas começaram, eles continuaram trabalhando, mantiveram suas cabeças baixas. Por um tempo, os negócios foram bons: todos queriam proteção. Os ataques de lobisomens aumentaram. Carniçais famintos por carne tornaram-se uma visão comum nos arredores da cidade. Mas ainda assim, ela pensava que se simplesmente fechassem suas janelas com tábuas, mantivessem horários rigorosos, eles estariam seguros. Uma esperança tola, destruída por uma incursão de carniçais. Não meros zumbis irracionais, estes trabalhavam em conjunto, esmurrando as portas, incitados a um frenesi voraz pelo cheiro da carne e do óleo.

Algli sobreviveu, mas nunca tinha sido sorte. Seu marido e seu filho mais novo jogaram-se entre ela e os carniçais, e ela incendiou o curtume. Seu filho mais velho morreu das queimaduras.

Alguns a chamavam de sortuda; ela tinha sobrevivido.

Ela enterrou seus corpos no poço do curtume, rezando em vão aos anjos para que o carvão e a terra escondessem o cheiro da decomposição dos mortos-vivos.

Eles não esconderam. Um invocador de carniçais voltou suas atenções cruéis para a cidade. O cemitério da igreja, o curtume, o pântano, enlutados em procissão: todos eram brinquedos para ele, e os farrapos de sua família dançaram às suas palavras.

Foi assim que ela conheceu Olutio. Sua filha havia sido assassinada e reanimada por aquele mesmo invocador de carniçais. Eles tinham trabalhado juntos, usando os ritos proibidos de Olutio, para matar o invocador de carniçais e enterrar novamente os mortos. De pé sobre suas covas frescas, Olutio falou com ela pela primeira vez sobre o Senhor Enterrado.

"Sob a vigilância do Senhor Enterrado," Olutio disse, "os mortos permanecem mortos. O túmulo é Dele; a terra é Dele, e aqueles enterrados descansarão. Geists, carniçais, necromantes—nosso senhor não negocia com aqueles que perturbam Seu domínio."

Para que sua família tivesse descanso, para garantir que ela teria descanso quando o Plano finalmente a levasse~era por isso que ela havia ficado, quando tantos outros tinham abandonado sua causa. Lentamente, o número de pessoas que os belos votos de Olutio conseguiam levar para a floresta para erguer um senhor morto há muito tempo havia diminuído, abatidos pela violência ou pelo cinismo, mas Algli tinha persistido.

Algli puxou seu capuz mais para baixo sobre sua cabeça para esconder seus olhos de qualquer um, ou de qualquer coisa, que pudesse ver a ela e a seus companheiros. Os três haviam feito essa jornada muitas vezes ao longo dos anos, tantas que apesar de suas articulações doloridas e da cabra magra e teimosa que ela tinha que persuadir ao longo dos novos emaranhados de raízes através da trilha congelada de veados, a clareira em que ela estava parecia familiar. Ainda apertava seu coração pensar em sua família, especialmente nesta clareira, portando sua tocha nesta marcha sombria para trazer um senhor esquecido adiante para abrigá-los em um esquecimento silencioso.

Doía saber que aquilo era o melhor que ela podia dar-lhes. Eles tinham merecido muito mais.

Esta noite—este ritual—era a última chance deles de evocar o Senhor Enterrado. Algli sabia disso; a quieta Sruta com seus artesanatos e ferramentas sabia disso; e o rude Olutio havia dito a mesma coisa, praguejando e cuspindo para o lado do caminho mesmo enquanto proclamava que esta noite—esta noite era a noite fatídica em que eles finalmente invocariam o Senhor Enterrado para salvar a todos eles. Esta noite era a última vez que as estrelas haviam se alinhado, que a lua chorosa estava na posição certa, e seus augúrios e cálculos espelhavam os dos tomos de Olutio, disseram-lhes que o poder se reunia a seu favor nesta noite—e não novamente por um milênio.

Os três se reuniram na clareira e prepararam o chão, e quando a lua inchada encheu o céu eles realizaram o rito em solene silêncio. Uma cabra, cascos e chifres, à imagem de um demônio. Seu sangue para dentro da terra, uma cova fresca; cinzas e véus e os ritos sussurrados de Olutio na escuridão muda.

À medida que a última oração suplicante deixou os lábios de Algli, o próprio vento caiu em silêncio, e um calafrio sombrio percorreu-a.

Despertadora Extasiada | Arte por: Tuan Dong Chu
Despertadora Extasiada | Arte por: Tuan Dong Chu

Os três invocadores esperaram, seus rostos pressionados contra o chão, seus braços estendidos, que o Senhor Enterrado emergisse da caixa torácica fumegante da cabra ou do chão manchado de sangue abaixo. Mas nenhum movimento veio, nenhum cheiro sufocante de pântano, nenhuns véus flutuantes. Os fogos não se apagaram. O sangue da cabra lentamente coagulou para uma cor de ferrugem comum, borrando as runas desenhadas nele em uma bagunça ilegível.

Eles esperaram através do vento ganhando força novamente, através da lua movendo-se para projetar as sombras de forma errada sobre seus sigilos desenhados em cal. Foi Sruta quem se levantou primeiro.

"Você sempre foi um tolo, Olutio," ela disse. "E você, Algli, por seguir. O próprio vento faz as folhas zombarem do nosso fracasso." Com isso, ela girou sobre seus calcanhares, sua mão em seu cinto, e marchou para a noite.

Algli sentou-se, e ela olhou para Olutio esperando por algum sinal que ele tivesse visto o qual ela havia perdido. Algo predito em seus pedaços de livros.

Sua expressão sombria disse-lhe tudo o que ela precisava saber.

Eles tinham falhado. Pela última vez, suas súplicas, seus ritos, seus sacrifícios. Os livros apodrecidos de Olutio, a adaga afiada de Sruta, e o sangue da cabra de Algli não os tinham protegido. E agora, de pé nas cinzas de suas esperanças, de tudo que eles haviam pesquisado, enquanto Olutio franzia a testa e se virava para seguir Sruta noite adentro, Algli percebeu que todos os seus esforços tinham sido em vão.

Não havia esperança para Innistrad.

Algli ajoelhou-se nas cinzas queimadas e runas de sangue do cadáver da cabra esfomeada que ela havia economizado por meses para pagar, para trazer até aqui e ser morta para erguer o sombrio senhor deles. Entranhas e cinzas e a morte dos sonhos neste arvoredo sombreado; e enquanto o último de seus companheiros partia dela, ela soluçou, e deixou a noite fechar-se ao seu redor. Que a deixasse morrer aqui, com o seu fracasso. Que a deixasse reunir-se à sua família, livre da solidão e vergonha.

Não importa o quanto ela desejasse isso através de suas lágrimas, a morte não veio. As brasas do fogo sacrificial diminuíram e deixaram-na na escuridão, e lentamente Algli percebeu que ela não estava sozinha. Atrás dela, ela ouviu um farfalhar, uma respiração. Um geist ou carniçal? Não, esses não respiravam, e um bandido ou mercador de corpos a teria atacado enquanto ela estava indefesa, distraída em seu luto. A lembrança da esperança ergueu-se nela, mais forte do que nos movimentos mecânicos pelos quais ela havia passado recentemente com Olutio e Sruta. Poderia ser Ele? Seu teste final? Algli colocou sua mão no punho da adaga sacrificial em seu cinto, não obstante, e virou-se para encarar seu observador.

Uma mulher de cabelos escuros estava sentada empoleirada em um tronco apodrecido, logo fora do alcance do pálido luar. Ela estava vestida com um gambeson acolchoado de guerreiro, sua mão em seu lado, cobrindo uma mancha escura. Sua outra mão repousava sobre uma lança bifurcada num estilo antigo. Mais antiga até do que as lanças que Algli tinha visto exibidas na igreja antes que ela parasse de frequentar e voltasse sua fé para os cantos mais sombrios do Plano. A lança não significava nada por si só. Muitas das igrejas de Avacyn tinham sido saqueadas. Uma pretensa assaltante, então, talvez ferida por Olutio ou Sruta? Algli mudou seu peso, cautelosa. Ela era velha, mas ser velha em um Plano tão cruel como este significava que a pessoa era ou inteligente ou letal. Algli poderia não aparentar, mas ainda havia luta nela.

Liesa, Arcanjo Esquecida | Arte por: Dmitry Burmak
Liesa, Arcanjo Esquecida | Arte por: Dmitry Burmak

A mulher estranha inclinou a cabeça, sua expressão pacífica.

"Eu não quero te fazer mal," a mulher disse. Apesar do ferimento, sua voz era clara. Ela acenou com a cabeça para o fogo sacrificial moribundo. "Seus ritos. Você sabe o que você invocou?"

"Um senhor imortal para trazer o silêncio. Para nos proteger dos vampiros, dos lobisomens, para deitar os mortos erguidos em descanso eterno," Algli disse, incapaz de esconder o tremor em sua voz. Algo sobre a graça quieta dessa mulher a perturbava. Mesmo sem armadura e em repouso, ela exalava a facilidade de uma guerreira experiente.

"Imortal, sim," a mulher disse e moveu-se para a frente. "Mas o Senhor Enterrado nunca foi alguém de proteger. Ele está aqui, e ele está faminto." No cintilar da tocha, Algli viu que as sombras atrás da mulher tinham padrões, brancas e cinzas—e enquanto ela observava, as sombras desfraldaram-se na estrutura elegante de asas de raptor.

Um anjo estava sentado diante dela.

Algli balançou em seus pés, quase caindo de joelhos novamente. As velhas representações de Avacyn—com halo de luz, salvadora, guardiã—passaram por sua mente.

"Minha senhora," Algli disse. Desculpas borbulharam—pelo sacrifício, pelo luto, por perder a esperança—mas ela não expressou nenhuma delas. "Você está aqui para me julgar?"

"Não para julgar, mas para negociar." O anjo inclinou a sua cabeça. "Eu falei com demônios uma vez. Eu fui vento e eu fui silêncio. Você me perdoará por observar a sua tristeza e não dizer nada."

"Por que aqui?"

"Eu sei tão bem quanto você." O anjo gesticulou para os restos da cabra. "Eu fui compelida a responder ao seu chamado."

A esperança ergueu-se novamente em Algli, afiada, dolorosa, tola. "Você é o Senhor Enterrado?" ela deixou escapar.

O sorriso do anjo foi suave, não zombeteiro. "Não, mas eu também busquei uma vez negociar com ele. Para acalmar os mortos-vivos, para banir geists, para trazer a paz; tudo que ele disse e escreveu. Não se engane: o silêncio que ele traz é apenas para amplificar a sua voz, a mortalha que ele deita é apenas para abafar e atar os outros. A única alegria no seu mundo sufocado é a alegria que ele sente."

Algli engoliu em seco, sua boca seca, sua mão apertando-se ao redor do punho da sua adaga. "Minha família está morta. Ele vai garantir que os seus corpos descansem."

"Você, também, merece descanso na sua vida," o anjo disse, encontrando o olhar desafiador de Algli com simpatia, com confiança, "e ser ouvida, sem derramamento de sangue."

Algli sentiu seus velhos joelhos vacilarem novamente. Ouvir que ela merecia descanso—que tal coisa pudesse existir na vida—um sonho meio lembrado.

"E o que é que eu supostamente devo fazer a respeito disso?" Algli perguntou. "Eu já não fiz o suficiente?"

"Nós devemos nos mover velozmente. Seu assim chamado senhor está convocado e ronda estas florestas. Não como um salvador, mas como um demônio, e ele está voraz. Seus amigos, eu temo, já estão mortos." O anjo apoiou-se contra a sua lança, e levantou-se, mas ao levantar-se, a mancha escura sobre seu gambeson espalhou-se, e, como um mortal, o ser divino estremeceu.

Algli pensou em Olutio de barba grisalha, e na desdenhosa Sruta, nas florestas, perseguidos; e em seu marido em seu leito de morte, e ela estendeu sua mão para pedir ao anjo estranho que pausasse. "Você não pode salvar ninguém enquanto estiver sangrando até a morte. Eu posso ser uma tola me intrometendo em obras que seria melhor deixar esquecidas, mas uma dessas obras que eu aprendi é como estancar uma ferida. Sente-se de volta antes de sair correndo para a morte certa."

Lentamente, o anjo sentou-se novamente, as suas asas dobrando-se atrás de si. "A sua sabedoria condiz com a sua idade," ela disse, ironicamente. "Uma segunda morte, tendo acabado de retornar, seria um desperdício, eu concordo. Mas eu estive ausente por um longo tempo, ao que parece. Esta floresta é estranha para mim, a terra talvez mais cruel. Rogo que me diga enquanto você trabalha, Algli: o que aconteceu a Innistrad em minha ausência?"

"Sua ausência?" Algli perguntou. Ela puxou a sua capa de sobre os seus ombros e começou a arrancar bandagens do capuz. "Você enlouqueceu com os outros anjos, presumo?" Ela estalou a língua. "Nenhum descanso, nem mesmo para o divino."

"Eu fui morta," o anjo disse. Houve uma pausa na sua voz que fez Algli perguntar-se o que ela estava escondendo. Talvez ela tivesse retornado da corrupção distorcida que se abateu sobre os outros?

"Eu vaguei, fui espalhada nos ventos. Você e seus companheiros estavam corretos em uma coisa—o Senhor Enterrado não morre. Parece que como consequência de meus tratos com ele, eu também não morrerei. Quanto às minhas irmãs~você diz que elas estão loucas?"

"Não mais loucas, mas mortas. Muitas foram perdidas, mas a Revoada das Garças permanece. Não o suficiente para proteger todos nós." Algli enfaixou as costelas do anjo firmemente enquanto ela tentava condensar sua miséria em frases fáceis. O relato de Os Infortúnios foi curto, a queda de Gavony, a ascensão vigorosa dos vampiros nobres, os tumultos dos licantropos, geists, e bruxas—a ruína derramada em um reconto muito mais curto do que a agonia de viver através deles. Ela falou da queda de suas irmãs anjos, todas exceto a arcanjo Sigarda e sua revoada; dos mortos-vivos invadindo, o comércio de corpos, os tumultos dos lobisomens antes pacificados. Das mortes de sua família, primeiro para a violência, depois erguidos de suas covas rasas para servir aos caprichos de um invocador de carniçais. "E por que não invocar um Senhor Enterrado?" Algli perguntou, sua voz elevada em desafio. "Olutio e eu deciframos os escritos. Nós perguntamos, quem mais resta para nos salvar?"

O anjo apenas deu a Algli o mínimo de um sorriso, de compreensão, e apenas o compartilhar do fardo fez lágrimas subirem aos olhos de Algli novamente. "Você não precisa acreditar em mim para caminhar ao meu lado, Algli," o anjo disse. "Mesmo que seja meramente para me guiar até o seu senhor, esta noite você deve erguer sua tocha e sua adaga para salvar a si mesma."

Ela prendeu novamente seu gambeson sobre a bandagem arrancada da bainha de Algli, e levantou-se, estendendo sua mão para a idosa cultista. "Eu sou Liesa, arcanjo que uma vez liderou a Revoada do Crepúsculo. Venha, Algli. Pelo futuro de Innistrad, vamos enterrar novamente este senhor."


A tocha de Algli fez pouco contra a noite espessa da floresta, mas Liesa estava grata por sua luz escassa de qualquer maneira. O Plano tinha mudado de muitas maneiras, mas algumas coisas tinham permanecido as mesmas. Os humanos ainda exibiam uma obstinação teimosa. Uma tenacidade que Liesa achava que não era tão diferente da sua própria. Uma bênção mista.

Quanto tempo fazia desde a sua morte nas mãos daquela loucura do vampiro, Avacyn? Mil anos, ou mais? Tempo suficiente para uma igreja erguer-se no nome de Avacyn. Embora suas irmãs a tivessem condenado, a exilado, e, morta por Avacyn, ela tivesse flutuado no éter por séculos, Liesa não conseguiu encontrar dentro de si para sentir nada além de uma tristeza abafada, um grande peso com as notícias do falecimento de suas irmãs.

Elas nunca tinham sido capazes de chegar a um entendimento, nunca sequer buscaram aprender por que Liesa buscaria a companhia e a conversa de demônios, por que ela poderia desejar saber como os demônios navegavam pelo Plano, o que eles poderiam ensinar uns aos outros, e agora~agora elas tinham sido roubadas dessa chance através do clarão das próprias forças que Liesa buscava entender. O equilíbrio através da violência calculada tinha sido o credo pelo qual as suas irmãs radiantes tinham vivido e morrido. Todas menos Sigarda—mas esse acerto de contas, ou, Liesa esperava, conversa—teria que esperar.

O Senhor Enterrado a tinha atraído para cá, e através de seu vínculo, ela sentiu a sua fome despertada. Pois não era natural buscar um banquete após acordar de um sono prolongado?

Elas encontraram os restos estripados de Olutio primeiro, o homem que Algli havia descrito como o líder de sua seita, o homem com conexões com pedaços de grimórios e o pesquisador. Seu cadáver estava mastigado e puxado até a metade para dentro do chão, suas vestes ainda molhadas com seu próprio sangue.

Aperto Infernal | Arte por: Naomi Baker
Aperto Infernal | Arte por: Naomi Baker

"Um da sua ordem?" Liesa perguntou.

Algli virou o cadáver com a sua bota e fez uma careta. "Sim," ela disse, e nada mais. Era tristeza ou resignação iluminada no rosto cansado da velha mulher por sua tocha?

"Estamos perto." Liesa olhou para a copa das árvores, escutando por um distúrbio no chão, o domínio do Senhor Enterrado. Ela sentiu isso, um calafrio através do próprio firmamento—

E então vieram os gritos.

"Sruta!" Algli gritou. Ela hesitou. Foi Liesa quem avançou, investindo através do mato, urtigas e pinheiros cobertos de geada estalando como ossos sob sua marcha veloz. Ela irrompeu em uma pequena clareira não diferente do bosque do ritual, árvores retorcidas, meio afundadas em um pântano frio.

O Senhor Enterrado aguardava por elas numa clareira banhada pelo luar. Liesa lembrava-se dele. Ela lembrava-se de falar com ele por horas—inteligente, calculista. Razoável. Um nobre entre os demônios, ele tinha afirmado, mas um demônio, mesmo assim.

Emoldurado pela lua prateada, os chifres do demônio massivo e os véus esfarrapados de suas asas eram aureolados pelo brilho gentil de gotas da lua suspensas no céu negro. Poeira soltava-se de sua forma crepitante como um santo embalsamado soltando sua mortalha, e quando ele se virou para olhar para elas, seus olhos eram duas estrelas frias no vazio de seu rosto macilento.

Ele estava curvado sobre Sruta. A cultista golpeava de novo e de novo a mão do demônio agarrando-a, cada golpe trazendo um arco de poeira para cima da pele do demônio.

Atrás de Liesa, Algli congelou sob o olhar malevolente do demônio. Mas a atenção do Senhor Enterrado não era para a velha mulher de cabelos grisalhos, ou mesmo a mais jovem fúria gritante que ele segurava em sua mão. Não, aquela para a qual ele se virou foi a própria Liesa.

"Liesa, a de asas do crepúsculo," o Senhor Enterrado disse, sua voz um lodo suave, o convite de areia movediça, de uma cova vazia. "Que prazer ver uma velha amiga aqui, de todos os lugares."

"Solte-a," Liesa ordenou, fechando a distância entre eles. Ela nivelou a sua lança para ele. "Você já matou um homem. Eu me lembro de você falando de negociação, de paz, de conhecimento. Aqui está a sua chance de colocar as suas palavras em ação."

O rosto do Senhor Enterrado abriu-se em um sorriso de presas de agulha. "Oh, mas eu acho que o conhecimento é de uso escasso para o faminto!" Na última palavra, os seus dentes afundaram em Sruta, extinguindo os seus gritos com um rasgo horrível. A lança de Liesa atingiu o ombro dele, mas tarde demais.

O Senhor Enterrado varreu a lança dela para o lado, engolindo os últimos traços sangrentos de sua invocadora. Seu pescoço estalou enquanto ele se endireitava e investia para Liesa. Ele fedia a morte.

O ferimento no lado de Liesa pontadeou, quase fazendo com que ela tropeçasse enquanto ela se esquivava para o lado. Ela teve sorte—ambos estavam lentos pela sua convocação. A cauda do Senhor Enterrado varreu o caminho dela, e ele contorceu-se ao redor.

"Ah, isso limpou um pouco a minha cabeça." Sua voz foi um rosnado divertido mesmo enquanto suas garras afundavam no solo coberto de geada, garras passando num clarão pela cabeça de Liesa. Ela disparou das sombras para o luar para flanqueá-lo, para posicionar-se em ângulo para perfurá-lo no pescoço ou barriga.

"Você pretendia entendimento de estômago vazio?" O Senhor Enterrado provocou. "Venha agora; não deixe que as vidas frágeis destes poucos otimistas que nos uniram novamente abalem a sua determinação. O sangue deles nos serviu."

Liesa invocou sua luz, deixou o poder estalar descendo pela lâmina bifurcada de sua lança. Este golpe acertou em cheio, resvalando das costas do demônio e fatiando solta uma de suas asas batendo e encolhidas. Desta vez sua careta astuta foi uma de dor. O próprio chão cedeu sob ela. Liesa saltou, e o chão desmoronou; cinzas, podridão onde uma vez houvera crescimento. Ela abriu as suas asas.

"Eu sou clemente," o Senhor Enterrado chamou. "Mas eu estou faminto. Dê-me a terceira, e ela será a minha última. Nós formaremos aquela aliança que você deseja. Nós nutriremos os pobres e pequenos humanos. Trevas e luz: um próspero reino de crepúsculo!"

Senhor dos Abandonados | Arte por: Kekai Kotaki
Senhor dos Abandonados | Arte por: Kekai Kotaki

Liesa sacudiu seus braços, doloridos pelo desuso, a ponta da lança apontada para o rosto voltado para cima do Senhor Enterrado. Suas asas doíam. Seu lado doía. Por um momento, ela apenas quis concordar. O que era uma vida em face de muitas? Em face de um cataclismo? Uma velha mulher que já tinha perdido tudo o que tinha, procurando pela mesma impossibilidade que Liesa tinha?

Era tudo.

"Suas ações mostraram suas prioridades," Liesa disse. "Mas eu vou te conceder outra chance, Senhor dos Enterrados, em outros mil anos."

O voo parecia desajeitado, mas o ar fresco era rejuvenescedor. Ela chamou o antigo poder dentro dela, meio lembrado, tudo que havia viajado com ela quando ela não era nada, e derramou isso em sua lâmina. Como um falcão ela mergulhou, e embora o Senhor Enterrado rasgasse as suas asas, ele ainda estava lento.

Liesa cravou a lança profundamente na espinha do demônio. Seu guincho rachou a terra abaixo dele, e ele se desintegrou, dobrando-se sobre si mesmo—e com um calafrio do último véu de suas asas, ele havia se ido. Não morto, mas ido—por agora.

Liesa aterrissou ao lado da cova rasa que ele havia deixado.

Algli encarava o anjo, recuada contra uma árvore na borda da clareira, a tocha que ela segurava tremendo.

Liesa inclinou a sua cabeça. Algo estava errado—o chão se moveu.

O chão respirou, uma exalação faminta.

Liesa gritou um aviso, mas era tarde demais. O chão irrompeu ao redor de Algli, garras sujas agarrando-a. O Senhor Enterrado contorceu-se livre das raízes da árvore que ele tinha deslocado em sua fuga. Areia jorrou do ferimento de seu pescoço, brilhante, obsidiana. Seu rosto cruel era um rictus agora, um rosnado.

Algli gritou, roucamente, fragmentos de palavras de uma linguagem tão antiga que nem mesmo Liesa se lembrava mais dela. Feitiços que ela havia descoberto na sua busca por um salvador, indubitavelmente; e como se respondendo ao seu chamado, as sombras se reuniram ao redor das vestes rasgadas de Algli.

No seu pânico, Algli invocou os ritos que ela tinha conhecido, as súplicas que ela havia proferido em seus momentos mais sombrios. Apelos ao Senhor Enterrado, odes à sua proeza, à sua força. Enquanto a cultista entoava o cântico, a escuridão infiltrou-se no demônio. Seus ferimentos começaram a fechar, sua asa decepada a brotar gavinhas diáfanas de recrescimento.

"Algli, fique calada!"

"Velha tola," o Senhor Enterrado disse, com uma risada de desdém. Ele chacoalhou Algli, e no seu aperto, a cultista ficou muda e mole. "Oh, venha agora, coisa frágil; de repente tímida demais para me louvar?"

Liesa podia sentir seu desespero, um gosto amargo no ar. Derrota. Desesperança. A mulher apertou a sua tocha em ambas as mãos, dentes cerrados contra a dor. Toda a sua dor, todo o seu esforço. Tudo isso em vão.

A velha mulher olhou para cima, mas não para a sua morte. Ela encontrou os olhos de Liesa, e no olhar de Algli, o anjo não viu esperança, mas desafio.

"Liesa! Mesmo que seja a minha vida o que você pede," Algli gritou, "então eu a dou!"

Com ambas as mãos, Algli empurrou a sua tocha no céu da boca da bocarra escancarada do Senhor Enterrado.

Liesa cruzou a cova em um salto, puxando aquele fogo, aquela luta, aquela esperança para si mesma. A esperança era um combustível como nenhum outro, e brilhou através dela, uma luz tão brilhante e quente quanto o amanhecer: uma chama que queimou a geada do inverno das árvores, e com isso, Liesa atiçou o fogo e o empurrou através. Através de sua lança, sua lâmina, o seu próprio braço—para dentro da garganta do Senhor Enterrado.

O demônio não teve a chance de gritar. Houve um estalo, um gorgolejo, e seu corpo dobrou-se sobre si mesmo novamente, perverso, crepitante, soltando poeira de túmulo. Final. O Senhor Enterrado desabou com um baque pesado, puxando Algli para o chão com ele. Liesa arrancou a sua lança com um giro, rasgando pelo pescoço pesado para arrancar a cabeça do Senhor Enterrado de seu corpo inteiramente.

O corpo dele não se esfarelou. Liesa sentiu um beliscão na base de seu pescoço. Eles ainda estavam ligados. Ela dobrou as suas asas brilhantes atrás de si e deu um passo à frente.

Algli rolou livre das garras do demônio. Ela cambaleou. Liesa ofereceu uma mão à velha mulher, e ela a pegou, erguendo-se em seus pés com um gemido e um mancar.

"Eu aprecio a sua ajuda," Liesa disse. Ela gesticulou para a carcaça do demônio derrotado. "Pensamento rápido."

"Não tão rápido quanto eu costumava ser," Algli murmurou. "Ele falava demais para o seu próprio bem. Olutio iria invocar um tagarela. Oh, Olutio~" A mulher cobriu seu rosto com as mãos, sufocando um soluço. "Tudo isso, tudo isso e você morreu por isso~tolos. Nós somos tolos. Se ao menos fôssemos charlatães, também!"

"Você fez o que achava melhor," Liesa disse, gentilmente. "Você não ergueu a faca para os seus amigos. Você veio comigo para salvá-los. As mortes deles estão nas garras do Senhor Enterrado. Não culpe a si mesma por ser incapaz de prever o resultado. Os escritos que você encontrou eram sobre o despeito dele, a sua fome?"

"Não," Algli murmurou, por entre os seus dedos. "Um senhor oculto que lidava com a luz. Um ser inteligente que apenas pedia silêncio, que desprezava os mortos-vivos inimigos pisando no seu domínio."

"Sim. Eu também me compadeci dele, uma vez." Liesa disse. "Se você não tivesse chamado, eu não teria vindo. Suas vozes foram as primeiras que eu ouvi em séculos, Algli. Seu trabalho não foi em vão."

Algli balançou a sua cabeça, mas seus soluços cortados se aquietaram. Liesa estudou o demônio caído.

"O corpo dele deveria ter se dissolvido," Liesa murmurou. "Talvez ele seja material contanto que eu o seja, ligado ao Plano. Eu hesito em deixar seus restos aqui. Quem sabe que poder isso ainda pode~"

Algli ergueu a sua cabeça, e por trás do rastro de lágrimas em seu rosto desgastado, Liesa viu aquela faísca de novo, aquele vislumbre de esperança. "Carregue-o com você," Algli disse. "Forje-o na sua armadura. Um corpo é couro e osso, não é? Eu era uma curtidora, anos atrás. Nós não temos deixado nada para desperdício nestes dias. Eu tenho os livros de Olutio, as ferramentas de Sruta. Deixe-me servi-la, minha senhora Liesa. Você salvou a minha vida."

Liesa deixou as palavras, a ideia, assentarem com ela por um momento. Ela pensou nas suas irmãs arcanjos, como seguidores tinham acorrido a elas enquanto Liesa tinha permanecido sozinha com sua pequena revoada e nenhuns outros. Como suas irmãs tinham sido fortalecidas por seus laços com humanos, e como, minutos atrás apenas, a própria esperança de Algli tinha surgido através dela. Aquela lealdade não era o que ela buscava—mas aqui exposto diante dela estava um juramento feito a partir do entendimento. Uma conexão forjada na escuridão e contenda.

Talvez essa esperança, esse juramento, pudessem ser levados a outros. Uma nova ordem para um novo Plano.

"Não é a sua lealdade que eu busco, mas uma aliança. Uma hoste renovada e renascida." Liesa apoiou a base de sua lança na lama. "Uma aliança para trazer não um silêncio sufocante, mas um equilíbrio pacífico, para este Plano ferido. Um coro de vozes, conhecidas e ouvidas. Você vai me ajudar nesta causa, Algli?"

Com um arquejo, Algli caiu de joelhos novamente. Não em dor, não em luto, mas em esperança, diante de seu anjo cintilante. "Você a tem," ela disse. "Enquanto eu respirar e tiver esperança, minha senhora Liesa. Você me tem como sua aliada. Enquanto eu viver."

Liesa havia retornado na hora mais sombria, um tempo de luta, chamada pelos desesperados e os perdidos. Mais e pior jazia diante deles, esta pequena aliança. No frio luar, Liesa sentiu aquela velha esperança reacender nestas palavras, no seu conhecimento compartilhado. Um juramento de luto. Um juramento de esperança.

Em um Plano de fins, aqui, finalmente, veio um novo começo.